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“Estatuto do Cuidador Informal foi um passo gigante, mas não é suficiente”

Numa visita à casa de uma cuidadora informal, Marisa Matias defendeu que é preciso “continuar a lutar para dar densidade ao estatuto, para que ele chegue a todos os cuidadores e cuidadoras" e para que esse trabalho seja reconhecido nas carreiras contributivas.
Marisa Matias com Rosália Ferreira
Marisa Matias com Rosália Ferreira, cuidadora informal há 40 anos. Foto de Ana Mendes.

Marisa Matias iniciou o seu segundo dia de campanha ao lado de Rosália Ferreira, uma cuidadora informal que há 40 anos trabalha a cuidar da filha Liliana que sofre de déficit congénito de glicosilação. “Levanto-me e deito-me tarde, tenho de higienizar a Liliana, temos muitas consultas com ela, transferências de casa de banho todos os dias, vestir, dar banho. Física e emocionalmente é muito difícil”, contou a mãe Rosália.

Esta realidade, contou Marisa, é vivida por cerca de 800 mil pessoas “que estavam invisíveis e silenciadas e que cuidam dos seus familiares 24 horas por dia, 365 dias por ano e que não podem ser ignoradas e têm que ter esses direitos reconhecidos”. Marisa Matias é, aliás, uma das vozes que nos últimos anos - e no seu caso já são mais de dez - mais tem lutado pelo reconhecimento do direitos dos cuidadores e cuidadores informais em Portugal e que levou recentemente à aprovação de um Estatuto do Cuidador Informal.

Uma conquista, reconhece, que se deve à “mobilização e o empenho dos cuidadores e das cuidadoras informais", que mesmo isoladas e sem apoios "conseguiram organizar-se, fazer uma petição que teve milhares de assinaturas e pôr essa discussão na Assembleia da República”. Essa vitória ganha ainda maior importância por vir das pessoas “que têm mais dificuldade em sair de casa, pela sua própria vida que as torna reféns de uma circunstância que é assim porque não têm apoios”, sublinhou.

No entanto, e apesar de Rosália Ferreira já ter o estatuto reconhecido, a sua situação em nada mudou. Por isso, Marisa defende que é preciso “continuar a lutar para dar densidade ao estatuto para que ele chegue mesmo a todos os cuidadores e cuidadoras, para que toda a gente possa ver a sua vida dignificada e para tentar colmatar lacunas que não ficaram ainda no estatuto”. A questão das carreiras contributivas foi um dos problemas identificados pela candidata presidencial, por não constarem ainda no estatuto. “Mesmo que haja o reconhecimento a partir de agora, a verdade é que a Rosália tem 40 anos de trabalho a cuidar da sua filha que são apagados e que não existem no dia que ela chegar à idade da reforma”.

Em 2016, Marisa Matias, no seguimento da sua campanha presidencial, organizou o 1ª Encontro Nacional de Cuidadores Informais e recordou “ter convidado todos os partidos políticos, ter convidado o Presidente da República recém-eleito [Marcelo Rebelo de Sousa] e ter ficado sozinha com os cuidadores e cuidadoras informais”. O Presidente da República apenas se juntou ao processo numa fase posterior, o que ajudou a dar mais visibilidade à luta que Marisa iniciou junto com os tantos cuidadores e cuidadoras informais pelo reconhecimento dos seus direitos.

A Rosália Ferreira cuida da filha Liliana há quarenta anos. Uma mulher de um força e coragem extraordinárias. A voz da...

Publicado por Marisa Matias em Segunda-feira, 11 de janeiro de 2021

"Em cada dia do meu trabalho, estas são preocupações que trago comigo sempre”

“Todas as instituições, todos os espaços que dizem respeito à representação das pessoas, seja o Presidente da República seja o Governo seja o Parlamento, acho que devem estar ao lado dos cuidadores”, frisou Marisa, esclarecendo que “em qualquer cargo que esteja a exercer ou mesmo como cidadã, em cada dia do meu trabalho, estas são preocupações que trago comigo sempre”.

Marisa Matias teceu igualmente críticas ao Governo pelos atrasos na implementação do Estatuto, pois apesar de reconhecer que esses atrasos também se devem às circunstâncias que estamos a viver com a pandemia, era também “nestas circunstâncias [que] não se podia ter deixado ninguém para trás”. E lembrou que “sabemos que a pandemia afeta toda a gente, mas afeta algumas pessoas de maneira muito diferente e de maneira muito mais grave” e “dentro dos grupos mais afetados com a pandemia, estão seguramente os cuidadores e as cuidadoras informais”. O exemplo de Rosália era novamente prova disso, já que deixou de poder ter as consultas que ajudam a Liliana a manter a mobilidade, o que obviamente a colocou numa situação ainda pior do que aquela em que se encontrava.

“É uma responsabilidade de todos e todas nós dizer que o que está aprovado é um passo gigante para quem nunca teve nada, mas não é suficiente. Temos que continuar a trabalhar para que a lei possa considerar não só o estatuto, mas que ele chegue a todos os cuidadores e todas as cuidadoras e que tenha lá dentro todos os direitos e não apenas alguns”, concluiu Marisa.

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