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Estado pagou 218 milhões a privados por testes covid

Entre março de 2020 e julho de 2021, os laboratórios privados faturaram ao Estado mais de 3.3 milhões de testes PCR, a um preço médio a rondar os 65 euros por teste. Para o deputado Moisés Ferreira, teria sido possível testar mais com menos custos “se se tivesse resistido à tentação de fazer da pandemia um enorme negócio”.
Teste PCR
Foto Senado Federal/Flickr

Não é novidade que a pandemia fez disparar os lucros dos laboratórios privados. Nalguns casos, como o dos laboratórios Joaquim Chaves e Germano de Sousa, esse lucro quadriplicou face ao ano anterior, revela a edição desta segunda-feira do jornal Público.

Segundo os números que a Administração Central do Sistema de Saúde facultou ao Público, entre Março de 2020 e Julho de 2021 foram faturadas despesas no valor de 218.286.208 euros, correspondendo a um total de 3.365.759 requisições faturadas. Feitas as contas, o preço médico de cada teste foi de 64,85 euros.

A despesa do SNS com testes nos laboratórios privados quase atingiu o total da despesa com análises clínicas no ano passado (235 milhões), que por sua vez representaram 52% da despesa do setor convencionado com o SNS. Também por causa da covid-19, o número de análises disparou 36% face ao ano anterior.

O preço contratualizado por cada teste sofreu variações desde o início da pandemia. Começou por custar 87,95 euros, baixando em setembro de 2020 para os 65 euros. Em junho deste ano, foi atualizado para 40 euros, mas semanas depois foi revisto em alta para os 45 euros. Mas apesar desta descida de preços, os laboratórios continuam a cobrar acima de cem euros por teste aos seus clientes particulares.

Ouvido pelo Público, o diretor do serviço de Patologia do Hospital de S. João diz que o seu serviço chegou a fazer 100 testes PCR por dia, a um custo médio abaixo dos 40 euros, contando com os reagentes, zaragatoas, kits e recursos humanos. Tiago Guimarães, que também preside ao Colégio de Patologia Clínica da Ordem dos Médicos, diz que a capacidade dos hospitais foi subaproveitada. “Relativamente aos testes e análises ouve-se o INSA e a Associação Nacional dos Laboratórios Clínicos (ANLC), que é um lóbi poderoso. Os hospitais ficam numa terra de ninguém. Não há uma estratégia conjunta para os laboratórios hospitalares a nível nacional”, lamenta.

Como seria de esperar, a ANLC tem uma posição diferente. “Sem o apoio do sector privado, este combate conjunto não teria tido os mesmos resultados para o país”, diz a associação dos laboratórios privados em resposta enviada ao Público, sublinhando que foi a ação destes que evitou sobrecarregar os hospitais, permitindo-lhes focar a atenção no tratamento dos doentes internados.

No que toca a lucros, o laboratório Germano de Sousa viu um aumento de 286% no ano passado, de pouco mais de seis milhões para 23,3 milhões de euros. O laboratório Joaquim Chaves passou de 2,8 milhões para 11,6 milhões de euros, um aumento de 319%. Ambos referem ao Público que tiveram de investir muito em novos equipamentos e enfrentar uma grande redução da atividade noutras áreas cuja procura caiu durante a pandemia.

“O preço que o Governo decidiu pagar aos privados foi sempre excessivo face os custos reais”

Para o deputado bloquista Moisés Ferreira, “poder-se-ia ter testado mais com menos custos se se tivesse investido na academia e nos laboratórios públicos e se se tivesse resistido à tentação de fazer da pandemia um enorme negócio para determinados setores”. O deputado lembra ainda que “em Portugal foi a academia e os laboratórios públicos que primeiro começaram a fazer estes testes”.

O deputado bloquista diz que a testagem à covid-19 “foi e continua a ser um dos pilares na abordagem à pandemia e em diversos momentos deveria ter sido intensificada e mais promovida”. No que diz respeito à capacidade do SNS para realizar esses testes, Moisés Ferreira defende que “poderia ter tido mais capacidade para testagem, caso fosse aproveitada a sua capacidade e fosse feito mais investimento”.

“O preço que o Governo decidiu pagar aos privados foi sempre excessivo tendo em conta os custos reais de realização de um teste. Chegou-se a pagar 100 euros por testes quando os custos associados aos testes eram de metade desse valor... Permitiu-se ainda uma situação de claro conflito de interesses (que o Bloco denunciou em pergunta ao Governo) ao permitir que Germano de Sousa fosse, em simultâneo, Conselheiro da DGS para as normas sobre testagem e dono de um dos laboratórios que mais estava a faturar com a testagem”, acrescentou Moisés Ferreira ao Esquerda.net.

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