“Empenho”, “responsabilidade”, mas também “revolta” e “desmotivação”. Foi assim que os enfermeiros descreveram esta quarta-feira, Dia Internacional dos Enfermeiros, a sua atitude e sentimentos face à profissão. A data foi assinalada com uma manifestação de cerca de três centenas de enfermeiros na Avenida da Liberdade, em Lisboa, em nome da defesa das suas carreiras e contra a precariedade.
Com número contado, com distanciamento calculado e máscaras, foi também ao som de bombos que estes trabalhadores fizeram ouvir palavras de ordem como “Resolver é o que interessa, estamos fartos de conversa”, “Governo escuta, enfermeiros estão em luta”, “Queremos formação, exigimos valorização” e “Com a pandemia, a contratação já é tardia”. Nas faixas que transportaram, podia ler-se “Carreira Única” ou “Não somos descartáveis”.
À TSF, José Carlos Martins, presidente do Sindicato dos Enfermeiros Portugueses, explica que “temos cerca de 60% dos enfermeiros em contrato individual de trabalho e e outros colegas com mais de 20 e tal anos de profissão que não lhes contaram o devido tempo e por isso estão injustamente posicionados em termos salariais”. O sindicato exige portanto “soluções urgentes” face a um governo que “mantém a injustiça de não progredir 20 mil enfermeiros” mas também a outras injustiças como a “sistemática desregulamentação dos horários de trabalho”, a “contratação precária” e “o aumento dos contextos de trabalho a que os enfermeiros têm que dar resposta sem aumentar o número de efetivos”.
"Chega de dar palmadinhas nas costas mas depois não ter disponibilidade nenhuma para mexer em carreiras"
O deputado bloquista Moisés Ferreira, presente no protesto, corroborou esta mensagem. Fala num consenso nacional sobre a importância dos enfermeiros e outros profissionais de saúde que a pandemia consolidou: estes “são absolutamente essenciais não só ao Serviço Nacional de Saúde, mas ao país”, sublinha. E para ele “não podemos ter pessoas tão essenciais a serem tão mal pagas, a terem más condições de trabalho, a terem de ter turnos atrás de turnos por falta de pessoal”.
O deputado criticou então o governo que “não consegue pagar a estes profissionais com uma final da Champions, como já tentou fazer”, nem é “com um subsídio de risco que não chega a ninguém que estes profissionais serão reconhecidos”. E lembrou que o Bloco, já nesta sessão legislativa, apresentou e discutiu um projeto de lei para valorizar as carreiras dos enfermeiros, que acabou chumbado por PS, PSD e CDS-PP. Já que considera “por demais evidente que o SNS é fundamental, que os enfermeiros são fundamentais e que os profissionais de saúde são importantíssimos”, prometeu que o partido vai continuar a apresentar estas iniciativas “tantas vezes quantas precisas até serem aprovadas”.
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Publicado por Moisés Ferreira em Quarta-feira, 12 de maio de 2021
As propostas bloquistas, explicou, passam por uma revisão da carreira “que unifique contratos individuais e contratos de trabalho em funções públicas, que não devem ter apagões em termos de tempo de serviço, e devem ter aumento salarial e um estatuto que reconheça o risco e a penosidade que está inerente à profissão que desempenham”. Igualmente se defende que “todos os profissionais que estão neste momento com contratos precários devem ser contratados de forma definitiva”.
O Bloco quer ainda mudar a remuneração que é dada aos profissionais porque há enfermeiros que “ao final do mês levam 900 euros para casa”, o que “tendo em conta aquilo que é a sua função, não nos parece que seja uma remuneração que seja condizente com a importância que eles têm para a sociedade”.
Assim, rematou, “chega de ter medidas que são meramente panfletárias. Esta coisa do subsídio que não chega a ninguém, de dar palmadinhas nas costas mas depois não ter disponibilidade nenhuma para mexer em carreiras, chega de fazer isso. É preciso medidas concretas que alterem carreiras.”