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Do trabalho para o capital: as novas contas certas

Para garantir que o peso dos salários na riqueza produzida se mantinha constante, a remuneração nominal por trabalhador deveria ter crescido 11,5%. Como cresceu 3,1%, a diferença representa o valor da transferência do trabalho para o capital. Texto de Paulo Coimbra em Ladrões de Bicicletas
Gráfico: Peso da Retribuição do Trabalho no PIB
Gráfico: Peso da Retribuição do Trabalho no PIB

Hoje, o INE tornou público que a “remuneração bruta total mensal média por trabalhador (por posto de trabalho) aumentou 3,1% no trimestre terminado em junho de 2022 (2.º trimestre do ano), em relação ao mesmo período de 2021”.

Na mesma informação pública também ficámos a saber que os preços subiram 8% no período em referência.

O INE ainda não divulgou a sua estimativa para o crescimento do PIB real e por isso não conhecemos a evolução da produtividade do trabalho.

Conhecendo os dados acima, o que podemos esperar relativamente à evolução do peso da retribuição do trabalho no PIB?

Antes de responder a esta pergunta, recordemos que o peso da retribuição do trabalho no PIB é um rácio em que o numerador é igual à remuneração por trabalhador e o denominador igual ao PIB por trabalhador.

Ora, como dizemos aqui, uma política de rendimentos destinada a assegurar que o peso dos salários na riqueza produzida se mantém, pelo menos, constante, tem de garantir uma variação dos salários igual à variação do PIB.

Dito de outro modo, se o peso dos salários no PIB é um rácio em que o numerador é igual às remunerações por trabalhador e o denominador igual ao PIB por trabalhador, então, para assegurar que este rácio se mantém constante, a variação da remuneração tem de ser igual à variação do PIB.

Como o PIB varia em termos de quantidades (produtividade), mas também em função dos preços (inflação), uma variação equivalente dos salários obriga a que estes também variem de acordo com quantidades (produtividade) e com preços (inflação). Ou seja, medir o peso da retribuição do trabalho no PIB implica dividir remunerações nominais por trabalhador por PIB nominal por trabalhador.

Assumindo que no período em causa a produtividade evoluiu de acordo com a previsão do governo para o conjunto do ano de 2022, ou seja, 3,5%, podemos esperar que o PIB nominal por trabalhador tenha crescido 11,5% (8% em preço e 3,5% em quantidade).

De acordo com a regra acima, para garantir que o peso dos salários na riqueza produzida se mantinha, pelo menos, constante, a remuneração nominal por trabalhador deveria ter crescido também 11,5%. Como cresceu apenas 3,1%, a diferença para 11,5% representa, grosso modo, o valor da transferência do trabalho para o capital.

Para obter o valor exato desta transferência, a referida diferença de 8,4% deve ser dividida por 1 mais o valor do PIB nominal por trabalhador (11,5%), o que representa 7,5%.

Texto de Paulo Coimbra em Ladrões de Bicicletas

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