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Coronavírus: o indicador R ainda é útil?

O indicador R tornou-se conhecido de todos devido à propagação do novo coronavírus e um dos parâmetros que guia políticas sanitárias no mundo inteiro. O virologista Jeremy Rossman explica o que é e quais as suas limitações.
Na fórmula criada pelo governo britânico para explicar os níveis de alerta sobre a covid-19, o número R joga um papel importante.
Na fórmula criada pelo governo britânico para explicar os níveis de alerta sobre a covid-19, o número R joga um papel importante.

Há alguns meses, a maioria das pessoas nunca tinha ouvido falar do indicador R. Agora, graças ao novo coronavírus, todos sabemos – ou pensamos que sabemos – o que ele significa.

R é o número de reprodução de uma doença infeciosa – de uma forma simples, indica o número de contágios causados por uma pessoa infetada. Para doenças altamente contagiosas, como o sarampo, o número pode ser quase 18. Para a Covid-19, estima-se que seja ligeiramente acima de três.

O R0 é o valor inicial de R no começo de um surto quando toda a população é suscetível à doença. À medida que o surto progride, o R torna-se Re – o número efetivo de reprodução – e altera-se à medida que as pessoas são infetadas e são implementadas medidas para combater a propagação da doença.

O R é muito utilizado enquanto indicador-chave para determinar políticas públicas do Reino Unido. Este indicador é usado porque permite uma avaliação rápida sobre o controlo de um surto. Se o R for maior que 1, significa que o surto está a aumentar. Se for menor que 1, o surto está sob controlo e tende a desaparecer. Portanto, o objetivo do Governo é manter o R abaixo de 1, à medida que as regras de confinamento são progressivamente levantadas.

No entanto, um grupo de cientistas auto-denominado SAGE Independente (um grupo paralelo ao SAGE do Governo – Scientific Advisory Group for Emergencies) tem questionado a utilidade deste indicador. Num relatório publicado recentemente, o grupo considera que o R pode ser enganador e que o Governo não deve confiar em demasia no indicador para definir as suas políticas.

O SAGE Independente conta com 12 cientistas de várias áreas e foi criado em resposta a preocupações sobre a falta de transparência do SAGE oficial. É constituído por um grupo de cientistas reputados, liderado pelo ex-consultor científico do Governo britânico David King. No entanto, está o grupo correto? É o R um indicador adequado para definir políticas públicas?

O ambiente e o comportamento

Primeiro, o R não se baseia apenas no vírus, é também afetado pelo meio ambiente e pelo comportamento da população. Por exemplo, o valor de R no cruzeiro Diamond Princess foi estimado em 11, embora a média mundial seja de 3,28. Os espaços exíguos e a movimentação da tripulação no navio facilitaram a transmissão da Covid-19. O vírus era o mesmo, mas o ambiente e o comportamento eram diferentes, alterando o R do vírus.

O R também varia dependendo do modelo usado para calculá-lo. O uso de bases de dados diferentes (como a de um país diferente, algo que geralmente acontece) ou o cálculo através de fórmulas distintas darão valores diferentes de R para o mesmo vírus. Para a Covid-19, vimos valores de R que variam de 1,4 até 11, dependendo do ambiente, bases de dados e modelos usados.

Segundo, apesar de falarmos de um R para todo o Reino Unido, esse número não é o mesmo para todas as regiões ou nações. Certas áreas rurais podem ter taxas de transmissão muito baixas, enquanto áreas urbanas e regiões densamente povoadas, com muitos lares e hospitais, podem ter taxas de transmissão significativamente maiores. Assim, o valor de R usado nas políticas públicas pode não refletir com precisão a transmissão viral em todos os contextos e, portanto, pode dar uma falsa perspetiva sobre o grau das precauções necessárias a tomar.

Terceiro, o R não é um valor em tempo real, tendo um atraso de cerca de uma semana relativamente às taxas de transmissão a decorrer. Esta característica limita a capacidade de avaliar rapidamente o impacto das medidas para conter a transmissão viral. Por exemplo, se começarmos a diminuir as restrições de confinamento, é importante saber imediatamente se isso está a causar um aumento da transmissão viral. No entanto, só veremos esses efeitos após uma semana, na qual muitos novos contágios podem ter ocorrido.

Uma ferramenta entre muitas

Por fim, ao centrarmo-nos apenas no R, estamos a ignorar muitos outros parâmetros importantes da transmissão viral, como por exemplo quanto tempo pode uma pessoa estar a espalhar o vírus, ou quão rapidamente aumenta o número de novos casos. O R é apenas um indicador usado para entender como uma doença infeciosa se está a disseminar.

Para entendermos plenamente a transmissão viral, temos de examinar um conjunto de fatores diferentes, o mais próximo possível do tempo real. Além disso, o R não revela nada sobre o número de pessoas que terão de ser hospitalizadas ou sobre o número de óbitos, dados essenciais para a definição de políticas de saúde pública durante um surto.

Portanto, com estas preocupações sobre a fiabilidade e a utilidade do R, será que este indicador deve continuar a ser usado para orientar políticas públicas? A resposta é, sem dúvida, sim. No entanto, nenhuma política deve ser baseada ou avaliada por um único parâmetro. Em vez disso, devemos usar o R como mais um fator num grande conjunto de ferramentas para avaliar a evolução do surto. Usando dados regionais específicos e modelação em tempo real, podemos também melhorar a precisão local do R. O objetivo é entender a transmissão da doença ao minuto e avaliar a eficácia de nossas intervenções. O R desempenha um papel crucial, mas não único, nessa avaliação.


Jeremy Rossman é Leitor Sénior Honorário em Virologia na Universidade de Kent e presidente da Research-Aid Networks.

Artigo publicado originalmente no The Conversation. Tradução de João Garcia Rodrigues para o Esquerda.net.

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