Coronavírus e “infodemia”: manter as mãos lavadas e os olhos e ouvidos bem abertos

15 de March 2020 - 17:36

Como é que nos podemos levantar contra este tsunami de pseudo-informação não verificada, por vezes altamente errada e indutora do medo? A resposta está ao nosso alcance. Por Michael Wade, em The Conversation.

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Foto Parlamento Europeu/Flickr

As manchetes em todo o mundo têm estado centradas no Covid-19 nos últimos dois meses e à medida que o vírus se continua a espalhar essa cobertura exaustiva deverá continuar. No momento em que escrevo, os EUA proibiram as viagens vindas da maior parte da Europa e todas as seis notícias em destaque na CNN são sobre o vírus, incluindo títulos como “Epidemiologista: Isto é apenas a ponta do icebergue” e “Cadáveres ‘amontoam-se’ na morgue num Irão sob pressão do coronavírus”.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) batizou adequadamente o termo “infodemia” para descrever o disseminar sem limitações da informação. Será que já atingimos o nível de “terrorismo informativo” em que o espalhar do medo - muitas vezes apenas vagamente baseado em dados - está a atemorizar leitores, espetadores e ouvintes em todo o mundo?

Esta “infodemia” resulta diretamente da forma como os fluxos de informação têm mudado ao longo do tempo. Durante grande parte da nossa história, os factos acerca de acontecimentos sempre foram de acesso relativamente dificultado ao grande público - enterrados em relatórios, comunicados de imprensa, entrevistas ou artigos académicos. Sempre confiámos nos media para recolherem esses factos e os interpretarem para nós.

Panorama dos media em mudança

O “filtro” profissional dos media sempre serviu para controlar a parcialidade, mas esses enviesamentos eram relativamente consistentes e bem conhecidos: o New York Times inclina-se para a esquerda, o Daily Mail para a direita e por aí fora. Então, mesmo que as pessoas tivessem acesso limitado às fontes, tínhamos um acesso relativamente bom a informação de confiança acerca dos factos. O fluxo de informação era o que mostra a Figura 1.

Figura 1: A disseminação tradicional da informação

O mundo de hoje funciona de forma muito diferente. O fluxo de informação pode começar pelos factos, mas a existência de muitas ondas de interpretação e reinterpretação pelos media profissionais e não-profissionais (blogues, publicações nas redes sociais ou mensagens eletrónicas) significa que as mensagens que chegam à maior parte das pessoas rapidamente irão divergir da realidade objetiva.

Em vez do fluxo de informação de cima para baixo do antigamente, governos e outras figuras de autoridade têm agora de reagir a situações criadas pelos órgãos não-profissionais dos media, num modelo de baixo para cima. A questão das notícias não-profissionais versus media tradicionais é que as motivações dos criadores de conteúdos nem sempre são evidentes: o tendenciosismo não é claro e o controlo de qualidade está em grande medida ausente.

Figura 2: A atual disseminação da informação

A credibilidade de muitas figuras das redes sociais é atribuída pelo seu alcance, através de milhões de seguidores, ao invés da competência e - demasiadas vezes - pondo a opinião acima dos factos. Mesmo a imprensa tradicional não está isenta de culpas. Ela depende demasiado da publicidade por clique e o que rende são os títulos que agarram o défice de atenção de quem os vê, como indica a Figura 2. Hoje o alarmismo está desenfreado - uma taxa de letalidade de 0.4% soa-lhe ao mesmo que uma taxa de recuperação de 99.6%? Porque é que os media se focam na primeira em vez da segunda?

Câmara de ressonância de horrores

Ao mesmo tempo, os cookies e os algoritmos das redes sociais ajudam a aumentar a câmara de ressonância do medo, ao mostrar aos leitores online mais conteúdos semelhantes aos que já clicaram. De repente, o mundo online fica todo preenchido pela cobertura do Covid-19 e a imensa quantidade de notícias ofusca o facto de que as pessoas têm uma probabilidade pequena de apanharem o vírus e se o apanharem têm uma probabilidade muito alta de recuperarem por completo.

Mesmo assim, as pessoas estão a viver com medo pelas suas vidas. Setores inteiros, incluindo o turismo, transportes e educação estão a sofrer prejuízos gigantescos, há empresas a irem à falência e pessoas a perderem os seus empregos. O medo está a ser perpetuado pelo uso de máscaras em público, apesar das autoridades de saúde suplicarem às pessoas para que não o façam.

O racismo mostra a sua carantonha quando as pessoas começam a julgar o grau de contágio das outras pela sua aparência. Os supermercados são esvaziados de papel higiénico, as farmácias de gel desinfetante. Em muitos sítios, o pânico instalou-se.

Uma dupla responsabilidade

Como é que nos podemos levantar contra este tsunami de pseudo-informação não verificada, por vezes altamente errada e indutora do medo? A resposta está ao nosso alcance. Podemos ir diretamente às fontes e pesquisar para além dos títulos que agarram a nossa atenção.

É preciso gastar algum tempo para ir além das manchetes sensacionalistas, mas no mundo de hoje é necessário fazê-lo. No caso do Covid-19, há imensos sites baseados em factos que mostram o evoluir da situação sem qualquer parcialidade. No caso do Covid-19, há muitos sites baseados em factos, como o Worldometers.info, que apresenta a situação à medida que evolui e sem qualquer traço tendencioso.

Mas este caminho para a responsabilidade tem dois sentidos: os leitores têm a responsabilidade de prestar atenção aos factos, mas os donos desses factos têm a responsabilidade de os apresentar de forma acessível e de fácil compreensão.

Por isso, os que se encontram na linha da frente da batalha do Covid-19 - os especialistas com verdadeiro conhecimento sobre o que se passa e os “donos” dos factos incluindo a OMS, sistemas nacionais de saúde em todo o mundo, cientistas e investigadores - todos eles têm a responsabilidade de assegurar que os seus relatos estão disponíveis, exatos e digeríveis pelas pessoas que não têm formação especializada.

Os sites também deviam ser desenhados de forma a permitir que toda a gente possa aceder facilmente à informação e compreendê-la. Isso implica menos links para artigos de investigação académica difíceis de ler e mais ainda de compreender. Mais resumos em linguagem simples, por favor. 

Vejamos o lado positivo: nós temos a capacidade para verificar a autenticidade e exatidão da informação que nos chega. Podemos eliminar o ruído e concentrarmo-nos na verdade, se decidirmos fazer essa escolha.


 

Agradeço à perita independente Heidi Bjerkan pela sua ajuda na preparação deste artigo.

Michael Wade é professor de Inovação e Estratégia, cadeira Cisco de Transformação Digital Empresarial, International Institute for Management Development (IMD) em Lausanne, Suíça. Artigo publicado no portal The Conversation, traduzido por Luís Branco para o esquerda.net.

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