Confinamento dificultou acesso a medicamento que previne VIH

16 de July 2020 - 19:59

A PrEP é um medicamento que previne a infeção pelo VIH e já está disponível em Portugal para os grupos em situação de maior vulnerabilidade para a infeção. A diretora do Programa Nacional para a Infeção VIH/Sida afirma que o confinamento levou a que menos pessoas iniciassem o tratamento.

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Fotografia de Tony Webster/Flickr.

O impacto da pandemia de covid-19 noutras áreas da saúde é já conhecido, e a infeção pelo VIH não é exceção. Segundo a diretora do Programa Nacional para a Infeção VIH/Sida (PNVIH), o confinamento causado pela pandemia fez com que menos pessoas tivessem acesso à profilaxia pré-exposição (PrEP), um medicamento que previne a infeção por VIH.

Se à primeira vista a adesão ao confinamento faz com que “muitas das pessoas que estavam em risco acrescido de infeção” por via sexual deixassem de estar, “é internacionalmente reconhecido que a pandemia trouxe na questão da PrEP um prejuízo que estamos todos a tentar ver o quão grande foi”, explicou Isabel Aldir. As declarações da médica infeciologista e diretora do PNVIH numa audição da comissão parlamentar de Saúde feita a pedido do Bloco de Esquerda.

Moisés Ferreira questionou Isabel Aldir sobre se a pandemia “aumentou o tempo de espera” para aceder à PrEP em Portugal e, por consequência, se isso poderá ter resultado em mais novas infeções por VIH. 

Segundo Isabel Aldir, a avaliação do impacto da pandemia no acesso à PrEP e na infeção por VIH em geral está agora a começar a ser estudado pelo PNVIH, em colaboração com Fórum Nacional para a Sociedade Civil para o VIH/Sida, Tuberculose e Hepatites Virais, um grupo de organizações da sociedade civil que trabalham estas infeções. 

Porém, esclareceu que “à partida as consultas e as pessoas que estavam a fazer PrEP mantiveram-se a fazer, não se iniciaram foi maioritariamente novas consultas”, citou a agência Lusa.

“Também aqui temos agora, provavelmente, de acelerar para recuperar este atraso”, sublinhou.

Consultas de PrEP em contexto comunitário

O deputado bloquista quis ainda saber se o PNVIH e a Direção-Geral da Saúde preveem a criação de consultas em contexto comunitário. Ou seja, que sejam as organizações da sociedade civil com experiência na área que façam as consultas de avaliação e iniciação do tratamento com a PrEP para as populações mais vulneráveis à infeção por VIH. Neste cenário, a dispensa do medicamento - já disponível em formato genérico - deixaria de ser exclusivamente hospitalar, facilitando o acesso a populações que possam, por algum motivo, estar reticentes em deslocar-se a hospitais e reduzindo o volume de trabalho no SNS. 

Isabel Aldir afirmou que a dispensa da PrEP deve ser alargada: “Se estamos a considerar uma estratégia de prevenção, existe algum contrassenso, porque as prevenções devem estar o mais facilitadas e o mais descentralizadas possível” e não assentarem exclusivamente em consultas hospitalares.

“Se nós queremos de facto englobar todas as pessoas que necessitam de PrEP nesta estratégia temos que trabalhar com os cuidados de saúde primários, com as organizações de base comunitária e eventualmente também poderemos permitir o acesso da medicina privada, é algo que não me choca de todo”, defendeu Isabel Aldir.

Esta possibilidade é também defendida por quem trabalha no terreno. Ricardo Fernandes, diretor executivo do GAT - Grupo de Ativistas em Tratamento e presidente do Fórum Nacional para a Sociedade Civil para o VIH/Sida, defende que é necessário garantir que “existem outras formas de aceder à PreP que não só os hospitais” porque mesmo que se reforce a sua capacidade “nunca terão a capacidade necessária para abarcar este investimento”.

O ativista na área do VIH considera ainda que seria necessário ter entre 10 e 15 mil pessoas em PrEP em Portugal para que estas estratégias terem impacto, noticia a Lusa.

“É muito importante que se perceba que se esta estratégia falhar especialmente em Lisboa, que é onde temos a concentração maior de casos pelo VIH, provavelmente poremos em causa” o objetivo traçados pela ONUSIDA de ter, em 2030, 95% das pessoas diagnosticadas, 95% destas a receberem tratamento e 95% das pessoas sob terapêutica atingirem a supressão vírica.