Os incidentes terão começado no final de maio deste ano e têm sido diversos. Nesse mês, o agressor terá destruído intencionalmente a caixa elétrica da quinta. Mais recentemente, a 4 de novembro, verificou-se aquele que, por agora, é o último episódio, com disparos contra o carro de um dos membros da comunidade.
“O mais recente [incidente] – que foi ontem – a tal pessoa baleou o carro dele várias vezes” A
“O último episódio com o nosso vizinho aconteceu no dia depois de chegarmos ao Santuário (quarta-feira, 4 de novembro, 2020). A embraiagem do meu carro avariou e, enquanto esperávamos pelo reboque, recebemos cinco tiros (pela pressão de ar) no carro. No início, pensei que pudessem ser pequenas pedras, porque o vento estava muito forte, mas depois dos sons distintos de mira, ficou claro que estávamos a ser alvejados.
Enquanto decidíamos o que fazer, vimos o vizinho com os seus cães, a caminhar/ correr a alguma distância de nós. Ligámos à polícia [GNR] e eles chegaram, depois de ouvir o que tinha acontecido foram falar com o vizinho” P
“Pertenço a uma comunidade LGBT que se chama “Fadas Radicais” e que arrendou uma quinta na zona do Sabugal para realizar as suas actividades. […] um vizinho tem vindo a disparar tiros contra pessoas e carros e a proferir os habituais: “os paneleiros vão morrer”. Já disparou contra pessoas e carros. Já foram apresentadas queixas oficiais na GNR do Sabugal e hoje mais duas pessoas foram atacadas.” R
Mas esta não foi a primeira vez que foram disparados tiros. Também em setembro, durante um retiro da comunidade, um dos membros sentiu um tiro na nuca e dois carros foram alvejados, ficando com os pára-brisas traseiros partidos.
“fui atingido com muita força por algo na nuca […]. Instintivamente, veio-me à mente que tinha sido alvejado, porque já havia levado um tiro de pressão de ar e a sensação era muito semelhante.
Ainda me dói agora apenas considerar que alguém iria disparar intencionalmente em mim, ou em qualquer outra pessoa […]. Exclamei o que aconteceu, e uma das fadas disse que poderia ter sido um pássaro ou algum tipo de inseto. Parecia possível … porque quem dispararia sobre completos estranhos?
Mais tarde, durante o encontro, os “tiroteios” continuaram. Dois carros foram alvejados, partindo ambos os pára-brisas traseiros, em dois dias diferentes. […] tornou-se cada vez mais evidente que estávamos, de facto, a ser alvejados.” P
Também nesta altura, depois dos estragos nas viaturas e de terem encontrado uma bala no chão perto delas, mas ainda sem terem identificado a origem dos ataques, a GNR local foi contactada e uma denúncia apresentada. Mas pouco foi feito.
“Para ser sincero, parecia que eles [GNR] não podiam fazer nada sobre a situação, uma vez que todas as evidências que tínhamos na altura eram de testemunharmos os efeitos depois dos tiros. Não tínhamos visto o atirador, por isso não tínhamos “provas” suficientes de que estávamos a ser alvejados.” P
Por recomendação da GNR, dois membros das Fadas Radicais foram falar com o vizinho, que terá dito não ter interesse em falar com eles. Foi talvez esta a primeira vez que o viram, a violência continuou. A GNR foi contactada numa outra altura, mas continuou a desvalorizar a situação.
“O vizinho (com algo aparentemente selado no bolso do casaco) foi visto com os cães no terreno e fez ameaças de morte, atirou pedras e tornou-se cada vez mais agressivo e violento. Isto depois de outros tiros direcionados, mas não certeiros […]. A resposta da polícia neste momento não foi levada muito a sério e, ao preencher o relatório, indicou para esperar mais dois dias antes que qualquer coisa pudesse ser feita.” P
“É uma comunidade internacional e as pessoas que apresentaram queixa são estrangeiras. Temo que possa acontecer uma tragédia se nada for feito e se a polícia continuar a desvalorizar o caso.” R
Recentemente, já depois do ataque do dia quatro de novembro, o vizinho contactou um dos elementos das Fadas Radicais para acordar um encontro, uma vez que a sua família virá passar o Natal ao local. Para uma das pessoas atacadas, o vizinho sente-se provocado pelas “expressões de libertação e liberdade” da comunidade.
“Estas [expressões] são as nossas cerimónias, as nossas naturezas joviais, rituais lunares, danças, entre outras. Eles parecem estar num estado de medo, porque não percebem o que se está a passar, nem desejam exprimir-se ou comunicar connosco; excepto através da comunicação pela violência.” P
“Eu acredito que isto é um diálogo, e o meu desejo é que traga sempre mais amor, paz e alegria. A minha intenção é trazer clareza para esta mentalidade fóbica que ocorre por ignorância” P
O espaço da comunidade das Fadas Radicias apresenta-se como uma alternativa à cultura mainstream gay e ao mundo material. Pretende ser um espaço para a exploração livre de quem se é e de quem se pode ser, em harmonia com a natureza, e é neste contexto que surge o Alto das Fadas, o primeiro santuário na Península Ibérica.
“temos uma propriedade [Quinta na Sortelha] que alugamos para ser o santuário português das Fadas Radicais, que é uma comunidade mundial, que tem vários santuários por todo o mundo” A
Fotos: https://faenet.org/blog/about-the
Artigo publicado em Interior do Avesso