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Homofobia no Big Brother: uma oportunidade para desconstruir as conversas de esplanada

Quem nunca ouviu dizer “não tenho nada contra gays, desde que não se metam comigo…”? Ou “não tenho nada contra, mas escusam de se exibir na rua”. O que vemos no reality show da TVI não é novidade. Por Ana Catarina Marques.
Imagem do concurso televisivo da TVI.
Imagem do concurso televisivo da TVI.

Ontem foi dia de choradeira na casa do Big Brother. Hélder, o concorrente repreendido por Cláudio Ramos por dizer “prefiro ser mulherengo do que ser…” - apontando para Edmar, um concorrente homossexual - parecia um bebé arrependido. Mas será que está mesmo?

Rapidamente vozes se levantaram na defesa de Hélder. As desculpas são as do costume, nada que não tenhamos ouvido antes: “é só uma maneira de dizer”, “era uma brincadeira”, “eu adoro gays”, “até tenho amigos que são”… Na casa as opiniões dividem-se. De um lado o silêncio concordante do rótulo “homofóbico”, do outro, uma maioria que se revê nas palavras e/ou desculpas do participante.

O momento sexista e homofóbico de Hélder.

E Edmar, no meio disto tudo? Não são raras as vezes em que os oprimidos protegem os opressores, especialmente quando estes são os machos alfas da alcateia. Comprar uma guerra contra um homem musculado que interrompe opiniões e fala alto? Apontar o dedo ao coitadinho que está a chorar? Correr o risco de ficar fechado numa casa em permanente conflito? Expor as fragilidades de uma vida inteira a ouvir comentários homofóbicos? Um cocktail de dúvidas que culminam na defesa do opressor arrependido.

Mas o assunto não ficou por aqui. A mesa de jantar proporcionou a oportunidade ideal para Yuri confrontar Hélder sobre a sua homofobia, cada vez mais evidente, mesmo depois de sermões da Voz e do Cláudio. Tudo fez ainda mais sentido quando o concorrente se justificou:

- Acho que também devem manter o respeito, imagina que eles agora metem-se ali aos beijos. Gostavas de ver isso? À tua frente ou à frente de um filho teu?

- Incomoda-te um casal que se beija na rua? - perguntou Yuri.

- Um casal normal? Não.

- Eu peço desculpa do fundo do meu coração, mas tu és homofóbico.

O concorrente desafiou Yuri a fazer a mesma pergunta aos outros homens e a reação foi fugaz: “Vou ser odiada por todos aqui na casa”. Mesmo assim, repetiu a questão a Pedro, o braço direito de Hélder: “Não, faz-me confusão, mas é a vida deles” - soma-se assim mais um homofóbico para a equação.

Yuri confronta Hélder sobre a sua homofobia.

O Big Brother, na pessoa da Voz, voltou a acusar Hélder de homofobia. Desta vez, a carapuça também se aplicou a Pedro. Mais um mar de lágrimas a inundar a casa da Ericeira - Pedro, "o injustiçado"; Yuri, "a culpada".

Não tenhamos dúvidas de que Big Brother é um reality show guionado. Os concorrentes são escolhidos a dedo e os conflitos provocados. Na primeira semana Edmar foi apresentado como "O gay" e Pedro como "O homofóbico". A seleção foi propositada para que o confronto fluísse naturalmente. Cláudio Ramos e a Voz repreendem os homofóbicos para parecer bem, mas foi sempre a Produção do programa que lhes deu espaço e que normalizou a homofobia, fazendo dela um traço de personalidade.

Mas "a casa mais famosa do país" é também pequena amostra da sociedade que temos. A homofobia não é só insultar ou agredir homossexuais - ganha palco em conversas de esplanada, comentários no facebook, ou expressões que caracterizam "esse tipo de pessoas". Que se multipliquem as Yuris por este país fora - não tenham medo, não se sintam culpadas. É o que eu desejo.

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