Cinema Batalha: Pinturas de Júlio Pomar apagadas pela Pide vão voltar

04 de June 2022 - 10:01

75 anos depois da censura e de uma história continuada de abandono do histórico cinema portuense, os murais sobre a festa do São João poderão afinal ser restaurados.

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Frescos do Cinema Batalha por Júlio Pomar. Foto de Ernesto de Sousa publicada no blogue de Alexandre Pomar.
Frescos do Cinema Batalha por Júlio Pomar. Foto de Ernesto de Sousa publicada no blogue de Alexandre Pomar.

Não eram explicitamente pinturas anti-fascistas mas eram pinturas de um anti-fascista. E foi por isso que os frescos sobre a festa do São João que Júlio Pomar pintou no Batalha, no Porto, foram cobertos de tinta por ordem da PIDE. Passados 75 anos e sete camadas de tintas, descobriu-se no âmbito do projeto de reabilitação do histórico cinema que podem ser recuperados e voltar a ver a luz do dia.

A história da sua criação choca desde logo com o regime fascista. Em 1946, Júlio Pomar começa a pintar dois murais, um com perto de cem metros no átrio central do cinema, o outro no andar de cima, ao lado do balcão do cinema. Só que, como é preso pela PIDE a 27 de Abril por pertencer à Comissão Central do MUD Juvenil, apenas termina a obra no final do ano seguinte quando é libertado. Não dura muito e, em 1948, a polícia política salazarista ordena que os frescos sejam cobertos. Já o autor será despedido de professor de Desenho do ensino técnico.

Assim têm estado este tempo todo, dados muitas vezes como perdidos por entre as reviravoltas do espaço depois de ter fechado enquanto cinema em 2000. Entre 2000 e 2006, o Batalha está de portas fechadas. Nesse ano, um projeto da Associação de Comerciantes do Porto (ACP) vai permitir reabri-lo como espaço cultural multifunções. Uma tentativa de desocultação dos frescos apenas encontra vestígios dos esboços. E o relatório elaborado posteriormente pelo IPPAR considera o restauro impossível. Esta nova vida do Batalha também não foi longa. A ACP alega “prejuízos mensais avultados” e no fim de 2010 decide que não quer continuar o projeto.

A seguir a um novo período de portas fechadas, em janeiro de 2017, a Câmara Municipal do Porto passa a arrendar o espaço, entretanto decretado de interesse municipal, por 25 anos. O presidente da autarquia, Rui Moreira, anuncia então que Júlio Pomar estaria disposto a voltar a pintar os murais.

O pintor falece a 22 de maio de 2018 e o arquiteto que lidera a reabilitação, Alexandre Alves Costa, conta uma história diferente sobre as suas intenções, esclarecendo ao Público: “o Júlio Pomar nunca pôs a hipótese de fazer uma cópia do que existiu. O que queria, fundamentalmente, era que arranjássemos uma maneira de mostrarmos que aqueles painéis tinham sido destruídos por razões políticas. Algo que, não reproduzindo os painéis, se transformasse numa espécie de manifesto anti-fascista, que chamasse a atenção para a destruição daquelas obras ter sido uma violência”. Uma das soluções que estava a ser discutida com ele seria a de projetar na parede uma fotografia do painel maior.

O desenlace da história acabou por provar que o que chegou a ser dado como perdido afinal era recuperável. Ao Público, Guilherme Blanc, o diretor artístico do novo projeto que vai transformar o edifício no “Batalha – Centro de Cinema”, explica que isto “só aconteceu porque foi contratada uma equipa especializada para levar a cabo trabalhos de sondagem que, recorrendo apenas a químicos, conseguiu desvendar os dois frescos depois de se eliminarem sete camadas de tinta”. Desta forma, “foi surpreendente a facilidade em como rapidamente, através desta sondagem, se detetou a presença do painel na sua quase integralidade”,

A data para a nova vida do Batalha começar está marcada para dezembro deste ano, depois de ter sido anunciado que abriria ainda em 2019. Mas não se sabe quando se poderão voltar a ver os murais. Só após a atual fase de sondagens começará a do restauro propriamente dito, terminando com o longo apagamento.