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Biden acusa líderes afegãos de desistirem de lutar

Para o presidente norte-americano, o avanço rápido dos talibãs é a prova de que tomou a decisão certa ao retirar as tropas dos EUA do Afeganistão. OIM apela ao fim dos programas de retorno forçado de migrantes para aquele país.
Joe Biden
Joe Biden. Foto Adam Schultz/Casa Branca - Flickr

As imagens de desespero no aeroporto de Cabul deram a volta ao mundo na segunda-feira, mas as notícias desta terça-feira, dão conta de uma situação mais calma, com a chegada de milhares de tropas norte-americanas a desimpedirem a pista e permitirem o regresso dos voos de evacuação a partir da madrugada.

Numa declaração ao país, o presidente norte-americano defendeu na segunda-feira a sua posição de concretizar a retirada militar e responsabilizou as autoridades afegãs pelo desfecho que levou os talibãs de volta ao poder em Cabul. “Ao fim de 20 anos, aprendi à minha custa que nunca será boa altura para retirar as forças militares dos EUA. O que é que aconteceu? Os líderes políticos do Afeganistão desistiram e fugiram do país. O exército afegão colapsou, por vezes sem sequer tentar lutar. Só por isto, os acontecimentos da última semana justificam que acabar agora o envolvimento militar dos EUA no Afeganistão foi a decisão certa”, afirmou Joe Biden, concluindo que as tropas do seu país “não podem e não devem lutar numa guerra e morrer numa guerra que as próprias forças afegãs não estão dispostas a travar”.

O discurso de Biden carregou nas críticas aos afegãos como os grandes responsáveis pelo histórico fracasso da guerra mais longa que os EUA promoveram, apesar do apoio concedido aos seus militares. “Demos-lhes tudo o que podiam precisar. Pagámos-lhes os salários. Fornecemos a manutenção dos seus aviões”, exemplificou o presidente. “Demos-lhes todas as condições para determinarem o seu futuro. O que não conseguimos fornecer foi a vontade de lutar por esse futuro”, concluiu o presidente dos EUA.

As palavras de Biden no discurso de segunda-feira contrastam com as da conferência de imprensa dada no mês passado, quando garantia que a queda do governo afegão não era inevitável, dado o poderio militar dos seus 300 mil soldados. Confrontada com as críticas quanto ao atraso no processo de evacuação, que pode agora deixar abandonados milhares de afegãos que trabalhavam para os militares dos EUA, uma fonte da Casa Branca contactada pelo New York Times responsabilizou o presidente Ashraf Ghani, que entretanto fugiu do país, por se ter oposto a uma evacuação em massa, alegando a “crise de confiança” que ela provocaria na capacidade do seu governo em enfrentar os talibãs. Ainda na quinta-feira passada, responsáveis da administração norte-americana avisavam os jornalistas para não usarem a palavra “evacuação” nas notícias sobre os preparativos da retirada.

Quanto ao paradeiro de Ashraf Ghani, antropólogo e economista formado nos Estados Unidos e alto funcionário do Banco Mundial - além de autor do livro “Reparar Estados Falhados” -, as opiniões dividem-se entre Omã, Uzbequistão ou Tajiquistão. Ainda segundo o New York Times, entre os muitos rumores que circulam, o ex-presidente pode ter fugido com os seus colaboradores mais próximos ou então acompanhado por mais de 200 assessores, ministros e deputados. Nas redes sociais, Ghani justificou a sua fuga no domingo: “Se tivesse ficado, inúmeros compatriotas seriam martirizados e Cabul enfrentaria a destruição”.

Organização Internacional das Migrações apela ao fim dos retornos forçados

O regresso dos talibãs ao poder está a obrigar muitos milhares de afegãos a tentarem fugir do país e volta a colocar os países que participaram nas duas décadas de guerra e ocupação a confrontarem-se com as suas responsabilidades. Em comunicado, a Organização Internacional das Migrações (OIM) defende que a segurança dos afegãos e o acesso humanitário são as duas grandes prioridades do momento.

O organismo presidido por António Vitorino calcula que desde o início do ano houve 400 mil pessoas deslocadas por causa do conflito afegão, a juntar aos cinco milhões de deslocados internos que já dependiam da ajuda humanitária internacional.

Dada a mudança na situação política, a OIM apela aos países que interrompam os seus programas de retornos forçados de migrantes afegãos, saudando os que já tomaram essa iniciativa.

China critica “retirada apressada” e fracasso da “importação de um modelo estrangeiro” no Afeganistão

Tal como a Rússia e o Paquistão, a China também mantém aberta a sua embaixada em Cabul e ainda no mês passado o chefe da diplomacia de Pequim, Wang Yi, recebeu o líder talibã Abdul Ghani Baradar. Nessa conversa, Baradar terá deixado o compromisso de não permitir que o Afeganistão se torne numa base para ataques à vizinha província chinesa de Xinjiang, onde as autoridades reprimem a minoria muçulmana dos uigures.

Na segunda-feira, os chefes da diplomacia chinesa e norte-americana falaram ao telefone sobre a situação no Afeganistão. Da Casa Branca saiu apenas um parágrafo genérico sobre o tema da conversa, mas a diplomacia chinesa alongou-se na descrição do que foi dito. Citado pela agência Xinhua, Wang Yi disse a Anthony Blinken que mais uma vez ficou provado que “copiar mecanicamente um modelo estrangeiro importado não pode servir para o aplicar num país com uma história, cultura e condições completamente diferentes” e que “sem o apoio das pessoas, um governo não consegue aguentar, pelo que o uso do poder e meios militares para resolver problemas só irá causar mais problemas”.

Por outro lado, acrescentou o ministro chinês, “a retirada apressada das tropas dos EUA teve um grave impacto negativo na situação”, pelo que “não será uma atitude responsável se os EUA criarem mais problemas nos seus próximos passos”, avisou.

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