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A batalha de Kursk

A batalha de Kursk (5 de Julho a 23 de Agosto de 1943) foi a batalha que confirmou a viragem estratégica da guerra na Frente Leste entre a Alemanha hitleriana e a União Soviética. Por Raimundo Narciso.
Batalha de Kursk.

Kursk é uma cidade da Rússia a cerca de 450 kms a sudoeste de Moscovo, actualmente com cerca de 500 mil habitantes.

A Batalha de Kursk, também designada batalha do Saliente de Kursk, ocorreu na 2ª Guerra Mundial, durante 50 dias, de 5 de Julho a 23 de Agosto de 1943 em torno desta cidade, entre as forças armadas da Alemanha nazi com o apoio de forças da Itália fascista de Mussolini e de países dominados pela Alemanha como a Roménia, Hungria ou a Croácia e as forças armadas da União Soviética, que tinha sido invadida pela Alemanha em 22 de Junho de 1941.

A batalha de Kursk, uma das maiores batalhas da 2ª Guerra Mundial, ficou célebre a vários títulos, porque foi a batalha que, em 12 Julho de 1943, no confronto de Prokhorovka, envolveu o maior número de carros de combate da história, 600 de cada lado, segundo o relato do marechal Vassilievsky que no relatório de 14 de julho de 1943 para o “Comandante Supremo” (Stalin) diz nomeadamente “… ontem assisti a este combate titânico… após uma hora de confronto o terreno ficou coberto de tanques em fogo”i.

O combate atingiu uma ferocidade inaudita. Para avaliar o desespero, um caso singular mas significativo:

“Um carro de combate T34 do exército soviético fora atingido e incendiado por um carro Tigre, o mais moderno e potente tanque da Whermacht. O condutor do T34 e o comandante, que ficara ferido, saíram do tanque mas o condutor vendo o Tigre vir na sua direcção voltou ao T34 em chamas e conduziu-o a toda a velocidade contra o carro alemão, provocando uma explosão que fez a terra tremer”ii.

Nesse combate de Prokhorovka foram destruídos 300 tanques alemães, incluindo 70 “Tigres”, e um número ainda maior de tanques do Exército Vermelho.

A Batalha de Kursk ficou célebre também porque foi a batalha que confirmou a viragem estratégica da guerra na Frente Leste entre a Alemanha hitleriana e a União Soviética, viragem que se tinha iniciado pouco antes com a maior e mais decisiva batalha da 2ª Guerra Mundial, a batalha de Stalinegrado (actual Volgogrado).

Quer Hitler quer Stalin tinham a consciência de que aquela batalha era decisiva para o futuro da guerra.

Após a derrota da Wermarcht em Stalinegrado, que se estendeu de 17 de julho de 1942 a 2 de fevereiro de 1943, as forças armadas soviéticas empurraram as forças invasoras para ocidente fazendo um saliente de cerca de 400 kms de largura em torno da cidade de Kursk, numa linha de frente geral de perto de 2.000 kms, desde Leninegrado (hoje S. Petersburgo) ao Norte, na margem do mar Báltico, até ao Mar Negro, no Sul da Rússia.

A Alemanha reuniu 900.000 combatentes, o maior número de forças terrestres e aéreas de que podia dispor, na expectativa de cercar e dizimar o conjunto de exércitos soviéticos concentrados no saliente de Kursk, cujos efectivos ascendiam a 1.000.337 combatentes, para retomar a iniciativa estratégica e inverter o rumo da guerra alterado em Stalinegrado.

Ao longo da batalha, um e outro lado juntaram reforços ao ponto de nela terem participado no total, do lado nazi 1.514.000 militares e do lado soviético 2.640.000. As forças envolvidas, de um e outro lado, ao longo desta batalha histórica atingiu assim uns inimagináveis 4.154.000 combatentes.

Esta decisiva batalha foi preparada e conduzida sob a supervisão directa quer de Hitler quer de Stalin. Do lado soviético, a coordenação geral das frentes no terreno era feita pelo Marechal Jukov, adjunto de Staline e pelo marechal Vassilievski, Chefe do Estado Maior General do Exército Vermelho.

Vassilievski considerou que esta batalha se desdobrava em três grandes operações estratégicas: - a operação defensiva perante o ataque alemão e, como resposta, a operação ofensiva do Exército Vermelho na direcção da cidade de Orel, a norte de Kursk e a operação ofensiva que tem como primeiro alvo as cidades de Bielgorod e Carcóvia, a sul do Saliente.

O ataque alemão, a “Operação Cidadela”, foi concebido como um ataque em tenaz, para cercar e aniquilar a concentração de forças soviéticas no interior do Saliente:

- a partir do norte pelo Grupo de Exércitos Centro, numa frente de 50 kms, comandados pelo marechal de campo Kluge, em 5 de Julho, a que se opôs a Frente Central dos exércitos soviéticos comandada pelo general Rokossovski, vitorioso a 10 de Julho;

- e a partir do Sul, em simultâneo, numa frente de 80 kms, pelo grupo de Exércitos Sul comandados pelo marechal alemão Manstein a que se opôs vitoriosamente o marechal Vatutin ao comando da Frente de Voronez.

Os exércitos nazis apenas conseguiram avançar 12 kms ao Norte e 35 kms ao Sul.

Um factor importante na vitória soviética no Saliente de Kursk foi ter o Exército Vermelho obtido informação com bastante antecedência dos planos de ataque nazis, o que lhe permitiu reunir suficientes forças prontas para o combate, como importantes reservas na proximidade, além da preparação do terreno com minas e obstáculos, para dificultar o avanço das forças inimigas.

Na batalha do Saliente de Kursk a luta ganha uma rara ferocidade e o máximo desespero tanto por terra como pelo ar, por quanto se sabia, de um e outro lado, se tratar de um choque estratégico e provavelmente decisivo – como aliás se veio a provar - para o futuro da guerra na frente Leste, que o mesmo é dizer para o futuro da Alemanha nazi.

Com a vitória nesta batalha, o Exército Vermelho ganha, sem mais a perder, a iniciativa estratégica, que confirma os resultados da vitória de Stalinegrado, ao fim de dois anos de recuo, iniciados com a invasão alemã, em 22 de Junho de 1941.

A batalha de Kursk compara os seus decisivos 50 dias de luta com os cerca de sete meses das batalhas de Stalinegrado e de Moscovo ou os dois anos do cerco e batalha de Leninegrado que continuaria até 1944.

Na URSS, de Junho de 1941 a Junho de 1943, a Alemanha perdeu 4.130.000 homens entre mortos, feridos, doentes e desaparecidos. Foram mortos mais de 1.000.000 de alemães, romenos e italianos.

No verão de 1943, a totalidade das FA da Alemanha atingem os 10.300.000 combatentes, dos quais 6.682.000 em campanha e, destes, 4.800.000 (72%) na frente germano-soviética. A estes somam-se 525.000 romenos, italianos e de outros países subjugados pela Alemanha nazi num total de 5.325.000 no território da União Soviética. Já as forças armadas da URSS que aumentaram muitíssimo desde a invasão, em número de combatentes, meios bélicos e experiência de guerra, têm em operação, em 1943, 6.442.000 de combatentesiii.

Para atingir aquele número impressionante de combatentes, Hitler mobilizou em 21 de Janeiro de 1943 todos os alemães dos 16 aos 65 anos de idadeiv e para manter a economia de guerra levou para trabalho forçado na Alemanha 6.300.000 operários estrangeiros e prisioneiros de guerra.

Na informação geral disponível no Ocidente e na obra de alguns dos seus historiadores, a Batalha de Kursk e outras muito relevantes ocorridas na “Frente Leste” da Europa são subestimadas ou até mesmo ignoradas. A projecção comunicacional e a relevância atribuída a batalhas como por exemplo a de El Alamein, no Egipto, sem dúvida importante, onde se confrontaram forças da Alemanha nazi com as da Inglaterra e das suas colónias, é muito maior do que a atribuída à batalha de Kursk. Mas as forças em luta de um e outro lado em Kursk somam 4.000.000 de homens e as da segunda batalha de El Alamein, a maior, de 23 de Outubro a 2 de Novembro de 1942, somam 310.000 homens.


Obras consultadas:

Histoire da la Seconde Guerre Mondiale do historiador militar inglês Liddel Hart – Éditions Marabout 1985

Segunda Guerra Mundial de G Deborin – edição Fulgor, Brasil.

Notas de final:

i La Bataille de Kursk - Editions du Progrès – Moscovo, 1975 que reúne os testemunhos dos principais comandantes de Frentes e de Exércitos soviéticos que combateram na batalha de Kursk, pág 57.

ii A 2ª Guerra Mundial de Martin Gilbert, historiador inglês, Publicações D. Quixote 1989, 2º Vol pág 84.

iii História da 2ª Guerra Mundial na Frente Leste vol II Editorial Estampa, Instituto do M-L, CC PCUS págs 45, 46.

iv Grande Crónica da Segunda Guerra Mundial- Selecções do Reader’s Digest - 1º volume pág 474).

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