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A agroecologia como estratégia de adaptação da agricultura às alterações climáticas

Segundo o 5º relatório do IPCC, o número de eventos extremos, na forma de ondas de calor, secas, grandes precipitações e inundações serão mais frequentes e mais intensos no final do século XXI. Entre as estratégias de adaptação, a agroecologia é apontada como uma resposta.
Foto Mokhamad Edliadi/CIFOR/Flickr

Nota introdutória

Segundo o 5º relatório do IPCC, o aquecimento global resultante de emissões de gases com efeitos de estufa, entre o período pré-industrial e o final do século XXI, pode significar para o melhor cenário (RCP2.6) um aumento entre 0,3ºC e 1,7ºC e para o pior cenário (RCP 8.5) um aumento entre 2,6ºC e 4,8ºC da temperatura global média à superfície da terra, havendo uma grande variabilidade em função das latitudes e das especificidades de cada região (Collins, M et al, 2013). Neste trabalho identificam-se os principais impactos das alterações climáticas sobre os ecossistemas agrários e procura-se encontrar resposta para os mesmos na agroecologia – disciplina que fornece os princípios ecológicos básicos para o estudo, desenho e gestão de ecossistemas agrários, respondendo às necessidades de produção e de conservação de recursos naturais (Altieri et al. 2005) – como estratégia de adaptação. Não se explorou no entanto a vertente de justiça social e económica, apesar da sua relevância para o debate sobre a adaptação às alterações climáticas e até, como muitos agro-ecologistas justamente defendem, da sua indissociabilidade das questões ambientais e ecológicas (Francis et al. 2003; Altieri et al. 2005).

Defende-se a necessidade prioritária de desenhar estratégias de adaptação da agricultura segundo os princípios da agroecologia, dando primazia aos serviços de ecossistemas em detrimento do aumento da incorporação de inputs (energia, adubos, pesticidas, etc.) que permitem maior artificialização dos sistemas produtivos. A aplicação prioritária desta via estratégica de adaptação às alterações climáticas não é de domínio exclusivo de nenhuma técnica de produção (Permacultura, Agricultura Biológica, Agricultura Sintrópica, Produção Integrada, etc.), no entanto, não é compatível com os actuais sistemas agrícolas dominantes, edificados sobre a prática de monoculturas.

1. Impactos das alterações climáticas nos ecossistemas agrários

1.1 Redução da produtividade agrícola

O relatório de 2014 do programa do Banco Mundial GAFSP (Global Agriculture & Food Security Program) aponta para uma necessidade de aumentar a produção de alimentos em 50% até 2050. O mesmo relatório alerta para um cenário de previsão de impactos das alterações climáticas com capacidade para reduzir até 30% das produções globais das culturas agrícolas, em consequência do aumento de temperatura, da alteração dos regimes de precipitação e aumento dos eventos extremos, na sua frequência e intensidade. Um estudo recente, baseado numa meta-análise que abrangeu 1.700 projeções publicadas sobre os impactos das alterações climáticas na produção de várias culturas, concluiu que as produções de trigo, milho e arroz, nas zonas temperadas e tropicais serão negativamente afetadas com um aquecimento global de 2ºC até ao final do século XXI, sendo que os impactos são mais gravosos na segunda metade do século, com mais de 70% das projeções a indicar descidas de produção nas décadas de 2040 e 2050, 45% a prever descidas superiores a 10% e 26% a prever descidas superiores a 25% (Challinor et al. 2014).

As alterações climáticas vão alterar os padrões globais de produção de alimentos, com efeitos mais negativos nas latitudes mais baixas, onde são esperadas maiores reduções de produtividade. Em determinadas situações de alta latitude podem ocorrer acréscimos de produtividade, consequentes da subida da temperatura média e da concentração de CO2 na atmosfera (Elbehri and Food and Agriculture Organization of the United Nations 2015).

1.2 Maior risco de destruição de biodiversidade

Com a descida dos níveis de produção agrícola decorrentes das alterações climáticas, os agricultores tenderão a procurar restabelecer as suas produções e para tal só existem duas hipóteses: 1. aumentar a área agricultada; 2. intensificar a produção, aumentando a produção por hectare. Qualquer uma das opções pode levar à perda de biodiversidade. Os processos de maior nível de destruição de biodiversidade terrestre ocorrem aquando da destruição de ecossistemas naturais, nomeadamente através da conversão para áreas de produção agrícola, por um lado, e pelo processo de intensificação da produção, com o aumento do consumo de fatores (pesticidas, adubos, etc.), por outro (Fischer et al. 2008). Assim, as decisões a tomar no processo de adaptação da agricultura às alterações climáticas terão sempre consequências diretas na destruição ou na preservação da biodiversidade.

1.3 Os problemas fitossanitários aumentam

As alterações climáticas, em especial através do aumento de temperaturas, influenciam o desenvolvimento, a reprodução, a sobrevivência e a capacidade de deslocação e ocupação de novos territórios das diversas pragas e doenças que afetam as culturas agrícolas. Espera-se que muitos dos atuais problemas fitossanitários venham a causar mais estragos (Kiritani 2006). As subidas de temperatura que tornarão os invernos menos hostis a estes agentes e as mudanças nos padrões dos ventos explicam em parte estas previsões (Altieri et al. 2015). São conhecidos vários casos: em três décadas, a processionária dos pinheiros, Thaumetopoea pityocampa, expandiu 87 km para norte, em França, e 110 a 230 metros o seu limite máximo de altitude, em Itália (Battisti et al. 2005); nos Estados Unidos da América, o escaravelho do pinheiro, Dendroctonus ponderosae, alterou o seu ciclo de vida e, atualmente, uma geração é produzida no período de um ano em vez de dois e os níveis populacionais da praga aumentaram, o que possibilitou também o aumento da incidência do fungo Cronartium ribicola (Logan, Reniere, e Powell 2003)

1.4 Aumento da frequência e intensidade dos eventos extremos

Segundo o 5º relatório do IPCC, o número de eventos extremos, na forma de ondas de calor, secas, grandes precipitações e inundações aumentaram em vários locais do planeta em consequência da ação humana e muito provavelmente serão mais frequentes e mais intensos no final do século XXI (Bindoff et al. 2013).
Heinman et. al. quantificaram os impactos da maior seca que os EUA enfrentaram nos últimos 50 anos na cultura mais importante do país, o milho, em 2012. A seca afetou 26 dos 52 Estados e 55% da área cultivada do país. Perdeu-se 30% da produção, que em 2011 teve um valor total de 76,5 mil milhões de dólares americanos (Heinmann et al. 2013).
Spinoni et al (2015) modelaram os fenómenos de seca para a Europa num cenário de emissões moderadas de gases com efeito de estufa (GEE) e projetam para o futuro do sul da Europa (2040-2070 e para 2070-2100) que as secas se vão tornar mais frequentes, mais intensas e com uma maior duração em meses.

1.5 Escassez de água e erosão dos solos

O aumento da escassez de água em muitas regiões representará o maior desafio para a adaptação às alterações climáticas (Elbehri and Food and Agriculture Organization of the United Nations 2015). A região da bacia do mediterrâneo será uma das mais afetadas pela escassez de água consequente das alterações climáticas, prevendo-se uma redução da precipitação em cerca de 30% durante o verão, no sul da Europa (Somot et al. 2008). Muitos territórios tornar-se-ão mais vulneráveis à desertificação, como é o caso de algumas regiões de Portugal, onde 58% da área do país é vulnerável à desertificação e é precisamente nestas áreas onde ocorrerão maiores decréscimos de precipitação consequentes das alterações climáticas. As áreas afetadas pela escassez de água terão cobertos vegetais mais insipientes e consequentemente menor capacidade de infiltração e retenção de água aumentando o risco de erosão dos solos. A subida de temperatura, a redução dos teores de humidade no solo e a redução do coberto vegetal terão como consequência a redução dos níveis médios de matéria orgânica e de biodiversidade no solo, alterando a sua estrutura e diminuindo a sua resiliência (EAAFAC, 2013). Este processo reduz a capacidade do solo para fornecer água e nutrientes ás plantas em momentos de escassez, mas reduz também a capacidade de drenagem aumentando a suscetibilidade aos fenómenos de alagamento em situações de elevada precipitação.

1.6 Alteração dos ciclos culturais e vegetativos das espécies cultivadas

A subida de temperaturas médias têm influência sobre os ciclos culturais e vegetativos das espécies cultivadas. Esse fenómeno é facilmente observado quando uma espécie anual é cultivada em estações diferentes e no mesmo local, não desconsiderando a influência de outros fatores, além da temperatura, que também sofrem oscilações entre estações (ex: horas de luz, disponibilidade de água, etc.). Se o aumento da temperatura média para uma cultura de alfaces dificilmente impossibilita o seu cultivo num determinado lugar, podendo até ser benéfico para o agricultor, aumentando a sua produção anual, para um campo de cerejeiras, árvore que exige a acumulação de muitas horas de frio durante o inverno de forma a quebrar a dormência e iniciar o seu ciclo anual, a subida da temperatura média pode impossibilitar a produção de cerejas ou obrigar a alterações na variedade cultivada em algumas regiões.
Se considerarmos como exemplo o caso português, segundo a Estratégia de Adaptação da Agricultura e das Florestas às Alterações Climáticas (EAAFAC), prevêem-se algumas alterações aos ciclos vegetativos e à fenologia das plantas em consequência das subidas de temperatura média:

    •    Cereais de Outono / Inverno: encurtamento do ciclo vegetativo;
    •    Cebolas: encurtamento do ciclo e diminuição dos calibres;
    •    Morangueiro: redução da época de produção dos frutos;
    •    Azeitona: antecipação do ciclo vegetativo; algumas variedades podem não acumular horas de frio suficientes e ter grandes quebras de produção; alterações na maturação dos frutos;
    •    Vinha: alteração da fenologia; algumas castas que estão próximas do seu limite térmico de cultura poderão tornar-se desadequadas para algumas regiões;
    •    Peras, Maçãs e outros frutos: antecipação do ciclo vegetativo com grandes perdas de produção; inviabilização de muitos pomares de sequeiro; algumas variedades mais exigentes em horas de frio tornam-se desadequadas em algumas regiões;

2. A agroecologia no centro das soluções adaptativas

2.1 Aumentar a produção e preservar a biodiversidade

Perante a situação descrita, que exige um aumento da produção de alimentos consequente dos impactos das alterações climáticas e do crescimento da população mundial, é possível delinear apenas duas hipóteses: aumentar a área agrícola ou intensificar a produção nas áreas atualmente agricultadas. Ambas as situações, como já vimos, podem ser danosas para a preservação de biodiversidade (Fischer et al. 2008). A expansão da área agrícola é bastante limitada porque a terra disponível é finita e os terrenos mais férteis já estão agricultados, por um lado, por outro, haver terreno disponível não significa que o seu acesso esteja garantido. A opção mais provável parece passar pela intensificação da agricultura. Definindo a intensificação agrícola como produção por hectare e não como nível de inputs por hectare, Santos (2013) entende que a solução para os desafios futuros da agricultura passa por um novo modelo de agricultura, de intensificação sustentável, de forma a garantir os níveis de produção necessários e a preservação da biodiversidade. Para tal é necessário desligar, tanto quanto possível, o aumento de inputs por hectare do aumento de produção. Segundo o autor existem duas vias, que podem ser complementares, para alcançar este objetivo: 1) aumento da eficiência do uso de inputs (pesticidas, adubos, energia, etc.), através de uma maior precisão na aplicação; 2) a substituição de inputs industriais por processos ecológicos (limitação natural, fixação de azoto atmosférico, etc.). É essencialmente ao nível da segunda via que a agroecologia pode atuar, como ferramenta de apoio à adaptação dos sistemas agrícolas às alterações climáticas.

Um dos maiores exemplos de sucesso da aplicação da agroecologia decorreu em Cuba, onde em menos de um ano o processo de conversão para “sistemas agroecológicos” juntou mais de um terço das “famílias camponesas” cubanas com grandes aumentos de produção (Rosset e Martinez-Torrez 2013). Altieri et al. (2005) referem que a experiência de campo da agroecologia tem demonstrado que é possível aumentar significativamente a produtividade, de forma sustentável, quando se melhora a estrutura biológica e a eficiência do trabalho e dos recursos locais, referindo aumentos de produção por hectare de duas a seis vezes mais, comparados com o ponto de partida em situações onde as produtividades são baixas.

Segundo Challinor et al. (2014) as medidas de adaptação agrícola às alterações climáticas têm um potencial para aumentar as produções, em média, entre 7% e 15% no caso das produções de trigo, milho e arroz (Fig. 1). Os autores afirmam que estes valores podem variar bastante em função de um conjunto de fatores socioeconómicos e culturais que não foram considerados nos modelos (ex: falta de competências técnicas locais, interações negativas ou positivas com pragas e doenças, progresso tecnológico, etc.).

Figura 1 – Esquerda: Variação da produção (Yield change) de trigo, milho e arroz, em função dos aumentos de temperatura média (Local Mean temperature change). Direita: Variação da produção em função das variações de precipitação. A azul estão representadas as situações em que foram implementadas medidas de adaptação e a laranja as situações não adaptadas. Os pontos representam as simulações individuais, as retas as médias e os sombreados delimitam intervalos de confiança de 95%. Fonte: Challinor et al. (2014).

 

O processo de adaptação da agricultura às alterações climáticas pode ser realizado em duas dimensões distintas e complementares (Challinor et al. 2014):

    •    Adaptação dos sistemas culturais existentes (alteração de variedades, redefinição de datas de plantação, frequências e dotações de rega, mudanças na gestão de resíduos, etc.)
    •    Mudanças sistémicas (alteração de espécies cultivadas, implementação de enrelvamentos regados, deslocalização de culturas, passagem de sequeiro para regadio, etc.)

Segundo Koohafkan e Altieri (2010) ao longo da história houve um elevado número de sistemas e práticas agrícolas que perduraram e ainda perduram, tendo demonstrado elevada capacidade de adaptação e resiliência às adversidades ambientais e garantido a preservação da biodiversidade agrícola. Segundo os autores a chave para o sucesso destes sistemas está na grande incorporação de biodiversidade e na sua complexidade. A biodiversidade continua a ser o elemento central para a adaptação mas também para a mitigação das alterações climáticas (Koohafkan and Altieri 2010). Segundo uma revisão a 172 casos de estudo internacionais a biodiversidade agrícola contribui para a resiliência dos sistemas agrícolas tradicionais através de uma combinação de estratégias: proteção e restauração de ecossistemas; uso sustentável do solo e da água; diversificação dos sistemas agrícolas; ajuste das práticas culturais; recurso a culturas mais tolerantes (Mijatović et al. 2013). Altieri et al. (2015) afirmam que os novos modelos de produção agrícola de que a humanidade necessita para o futuro devem estar enraizados na racionalidade ecológica da agricultura tradicional e de pequena escala, pois esta ultrapassou com sucesso a prova do tempo, tendo demonstrado resiliência e capacidade adaptativa. Nesta perspetiva o autor divide a biodiversidade constante de um ecossistema agrário em dois grupos essenciais: biodiversidade funcional – aquela que garante os serviços de ecossistema necessários ao normal funcionamento do sistema agrário – e biodiversidade reativa – variedade de respostas a uma perturbação do sistema entre espécies que contribuem para a mesma função do ecossistema agrário. Assim, Altieri et al. (2015) afirmam que são os altos níveis de biodiversidade reativa que distinguem os ecossistemas agrários mais resilientes e mais capazes de se adaptar às alterações climáticas. Neste caso, quando uma das espécies falha, a continuidade do sistema é mais facilmente garantida por outras espécies que desempenham as mesmas funções, mas responderam de forma diferente à mudança climática.

2.2 Controlo de problemas fitossanitários

Segundo Kiritani (2006) as alterações climáticas alteram as dinâmicas populacionais das pragas, mas não alteram necessariamente os seus riscos. O autor sugere que os acréscimos dos níveis populacionais das pragas, quando ocorrem, são geralmente acompanhados por acréscimos maiores por parte das populações de inimigos naturais locais, pois estes têm um maior aumento do número de gerações. Assim, em zonas subtropicais e temperadas, os sistemas de produção tenderão a ser mais dependentes dos inimigos naturais e a ter menos resiliência à elevada aplicação de pesticidas (Kiritani 2006). Os ecossistemas agrários mais complexos, com maiores níveis de biodiversidade serão vantajosos em cenários futuros no que diz respeito ao controlo de pragas e doenças e à redução dos consumos energéticos. A aplicação do conhecimento e das técnicas da agroecologia serão fundamentais, possibilitando a substituição de muitos consumos externos por serviços de ecossistemas locais.

A maioria dos produtos vegetais utilizados para consumo humano a nível mundial provêm de sistemas de produção agrícola que recorrem à monocultura, estando por isso muito dependentes da incorporação de diversos inputs (pesticidas, adubos, energa, etc.) devido à sua elevada homogeneidade. São assim especialmente vulneráveis às alterações climáticas pois a resiliência destes sistemas é muito baixa (Heinmann et al. 2013). Atualmente, as culturas do trigo, milho, arroz e batatas representam 60% dos recursos alimentares vegetais e apenas 14 espécies de animais garantem 90% da proteína animal consumida a nível mundial. Dentro das principais culturas praticadas, há uma homogeneidade genética crescente a nível mundial que em si também é um fator de perda de resiliência pela destruição de diversidade intraespecífica. No século XX, por exemplo, 72% da área de batata cultivada nos Estados Unidos da América era dominada por apenas 4 variedades (Altieri et al. 2015). Historicamente o mundo já enfrentou várias dificuldades que resultaram da perda de biodiversidade e de resiliência dos sistemas agrários, é exemplo a conhecida fome que assolou a Irlanda em meados do século XIX, em consequência de um surto de míldio (Phytophthora infestans) na Europa, um fungo que vulgarmente ataca a batateira. Na época a produção de batata na Irlanda era dominada por uma única variedade, chamada "Lumpers”, motivo pelo qual esta doença destruiu 80% da produção (Robinson 1996).

2.3 Resiliência e eventos extremos

Seguindo o caminho da agroecologia, recorrendo a técnicas como a consociação de culturas, as rotações, a implementação de infraestruturas ecológicas, entre outras que aumentam o nível de biodiversidade e a complexidade do ecossistema agrário, os sistemas agrícolas ganham maior capacidade para se adaptar e resistir às alterações climáticas, tornando-se mais resilientes. Segundo Natarajan e Willey (1986) os sistemas agrícolas onde se praticam consociações são mais capazes de enfrentar períodos de seca do que os sistemas de monocultura, garantindo níveis de produção mais altos. Altieri et al (2015), dão o exemplo de uma região da Colômbia, Valle del Cauca, que sofreu em 2009 a maior seca dos últimos 40 anos (menos 44% da precipitação anual – Fig. 2), onde os sistemas agrícolas industrializados e baseados na monocultura viram as suas pastagens secar e as suas produções de leite descer drasticamente, tendo havido inclusive animais a morrer, enquanto alguns sistemas silvopastoris, com estratégias de gestão agroecológicas, com um pequeno ajuste dos suplementos energéticos não só não foram afetados como ainda conseguiram aumentar a sua produção em 10%.

Figura 2 – Fotos retiradas após uma seca extrema, em 2009, na Colômbia, em Valle del Cauca. À esquerda:  sistema industrializado com monocultura para alimentação de gado; À direita: sistemas silvopastoril, regido pelos princípios da agroecologia (Fonte: Altieri et al. 2015).

 

Segundo um estudo realizado em Nicarágua, depois de um violento furacão, as explorações agrícolas com práticas baseadas nos princípios da agroecologia demonstraram estar mais adaptadas, tendo sofrido menos erosão, menos destruição de vegetação e menos perdas económicas. Os autores do estudo afirmam que as áreas com práticas agroecológicas tendem a ser mais vantajosas com o aumento da intensidade dos furacões (Holt-Gimenez 2002). As explorações agrícolas geridas segundo os princípios agroecológicos apresentam ainda uma maior capacidade de recuperação após os eventos extremos. Segundo Altieri et al (2015) as vantagens acima referidas resultam da incorporação de biodiversidade e da maior complexidade das áreas cultivadas segundo uma estratégia agroecológica, que além da vegetação permanente e da consociação de espécies e variedades locais promotoras de sinergias diversas, ainda garante níveis de matéria orgânica e de micro-organismos benéficos no solo mais elevados e, consequentemente, solos com maior capacidade de drenagem e de armazenamento de água e nutrientes disponíveis para as plantas.

2.4 Lidar com a escassez de água e prevenir a erosão dos solos

Em zonas áridas e semiáridas, as previsões de redução de precipitação e sua imprevisibilidade representam um enorme desafio para a agricultura. A prática de consociações e rotações com o incremento da biodiversidade nas áreas agrícolas tem provado ao longo da história ser uma boa opção estratégica em situações onde há escassez de água, garantindo também uma melhor proteção do solo contra a erosão, no entanto, os programas de melhoramento de plantas não têm direcionado esforços para esta realidade, estando essencialmente focados em sistemas de monocultura, dependentes da incorporação de elevados níveis de “inputs” e que acabam por destruir as variedades locais (Nkonya 2015).

Vários estudos já demonstraram que a gestão integrada do solo (incorporação de resíduos orgânicos, implementação de enrelvamentos, promoção da biodiversidade, aplicação controlada de adubos de síntese, etc.) aumenta a produtividade agrícola e reduz os riscos associados às alterações climáticas e meteorológicas (Nkonya 2015). Segundo esta perspetiva os serviços dos ecossistemas agrários que garantem o fornecimento de nutrientes e a manutenção da humidade do solo devem prevalecer ao fornecimento de fatores de produção externos, reduzindo desta forma as necessidades de rega e adubação. Uma exploração agrícola regida pelos princípios da agroecologia não dispensa a captação de água e a implementação de sistemas de rega em muitas situações, mas são desta forma mais resilientes à seca e têm menos necessidades de rega.

A incorporação de biodiversidade, com a diversificação de plantas e a maior cobertura do solo pela vegetação, do ponto de vista espacial e temporal, representam uma mais valia no combate à erosão, garantindo uma maior retenção de sedimentos e melhor estrutura do solo. Comparando a retenção de sedimentos de vários sistemas culturais e avaliando o valor económico relativo de cada um, Runk et al. (2014) verificaram que a inclusão de uma cobertura de solo com uma planta da família das brassicáceas, a Thlaspi arvense (pennycress), entre uma cultura de milho (corn) e uma de soja (soy), não só garante uma maior proteção do solo contra a erosão, com maiores níveis de retenção de sedimentos, como também possibilita um maior valor económico relativo ao conjunto das culturas (Fig. 3).

Figura 3 – Relação entre a Retenção Relativa de Sedimentos e o Valor Económico Relativo de vários sistemas culturais. Seta 1: Acréscimo da retenção relativa de sedimentos, numa situação de igual valor económico relativo, aquando da passagem de um sistema de produção em rotação entre milho (corn) e soja (soy) para um sistema de produção que incluí uma cobertura verde com a planta Thlaspi arvense (pennycress) entre as duas culturas. Seta 2: Mesmo numa situação de maximização do valor económico relativo, a inclusão da nova planta garante um substancial aumento da retenção de sedimentos.


2.5 Redução de inputs

Em solos com fraca disponibilidade de fósforo para absorção pelas plantas, a consociação de culturas pode permitir a presença de espécies cujas raízes libertam ácidos orgânicos que permitem a mobilização do fósforo. É possível aumentar a disponibilização de azoto para as culturas através da utilização de plantas leguminosas, que têm a capacidade de captar azoto da atmosfera através de simbiose com uma bactéria. A combinação entre plantas de raízes profundas e raízes superficiais, no espaço (consociações) e no tempo (rotações), pode permitir capturar azoto lixiviado, transportando-o das camadas mais profundas do solo para a superfície. Esta combinação otimiza também os consumos de água pelas culturas. A promoção de simbioses entre fungos do solo, como as micorrizas, e as raízes das plantas, permitem aumentar bastante o volume de solo explorado pelas culturas, possibilitando uma maior captura e aproveitamento da água e nutrientes do solo, reduzindo as perdas por lixiviação. Estes mecanismos são essenciais e prioritários na perspetiva da agroecologia e possibilitam uma redução do consumo de fertilizantes orgânicos e de síntese exteriores ao sistema de produção e a manutenção ou aumento dos níveis de produção, como se pode verificar na imagem seguinte (Wade 2015, Snapp 2014).

Figura 4 – a prática de consociações(sp-intercrop) e rotações (SP-rotation) entre a produção de cereais e uma cultura de leguminosas, na áfrica do sul, levou a um aumento da eficiência do usos de fertilizantes (fertilizer eficiency), a um aumento do rácio valor/custo (VCR) e da produção proteica (protein yield), mas também a uma melhor cobertura do solo (cover) que garante maior protecção contra a erosão (Fonte: Snapp 2014).


A prática de consociações e rotações, ao diversificarem os padrões culturais, no espaço e no tempo, têm um efeito dissuasor para as diversas pragas das culturas, que terão mais dificuldade na identificação de hospedeiros. Por outro lado, possibilitam ainda albergar maior quantidade e diversidade de inimigos naturais de cada praga, fortalecendo desta forma os mecanismos de controlo natural e reduzindo os consumos externos em forma de pesticidas (Altieri et al. 2005). A maior complexidade dos sistemas agrícolas regidos pelos princípios da agroecologia permitem uma maior resiliência dos mesmos às alterações climáticas, necessitando de menos consumos energéticos para a sua manutenção (Altieri et al. 2015).

2.6 Maior capacidade de resposta e adaptação por parte dos agricultores

Segundo Altieri and Nicholls 2013 os impactos das alterações climáticas sobre a pequena agricultura, a “agricultura campesina”, localizada em alguns dos sítios onde as alterações climáticas serão mais prementes, poderão ser desastrosos, dado que a alteração de uma tonelada por hectare na sua produtividade poderá fazer a diferença entre a vida e a morte, no entanto, as previsões conhecidas pecam por não considerar a elevada heterogeneidade destes sistemas de produção, não considerando a grande diversidade de estratégias de ação que permitem uma grande capacidade de adaptação por parte dos respetivos agricultores. Por lidarem com sistemas ecológicos mais complexos, o leque de possíveis respostas sociais a uma perturbação do sistema também é maior, em oposição aos sistemas agrícolas baseados na monocultura. Os autores argumentam que o facto dos agricultores optarem por estratégias de manutenção da diversidade genética, recorrendo à policultura e ao uso de espécies e variedades locais, assim como de preservação da água e dos solos, associada à capacidade de aprendizagem e transmissão de conhecimentos entre agricultores, no espaço e no tempo, lhes confere uma grande capacidade de adaptação, reduzindo riscos. É necessário considerar a capacidade de resiliência do sistema de uma perspetiva socio-ecológica, isto é, considerando a sua capacidade de manter uma estrutura organizativa e simultaneamente a sua produtividade após uma perturbação.

Conclusão

Identificados os principais impactos das alterações climáticas sobre a agricultura, ao nível do ecossistema agrário, assim como a necessidade de adaptação, encontramos respostas fundamentais no domínio da agroecologia, que nos indicam que é possível e desejável delinear estratégias de adaptação às alterações climáticas suportadas pelos seus princípios na transformação e gestão dos ecossistemas agrários. A aplicação de uma estratégia agroecológica, delineada em função das especificidades locais, demonstra conseguir aumentar a resiliência do sistema de produção agrícola. Neste trabalho, encontrámos exemplos dessa capacidade ao nível do aumento ou manutenção da produtividade, do controlo de problemas fitossanitários, da resposta aos eventos extremos e da proteção e gestão do solo. É percetível também, que a via da agroecologia possibilita a redução de inputs no sistema de produção pela promoção do serviço de ecossistemas, o que terá certamente um impacto positivo para a mitigação das alterações climáticas.

O sucesso das estratégias de gestão agroecológicas radicam maioritariamente na grande capacidade de conciliar as práticas agrícolas com a incorporação e preservação de biodiversidade no sistema de produção, como fator de resiliência. Este facto é indicador da fragilidade dos sistemas de monocultura e da sua fraca capacidade para lidar com as diversas perturbações a que os sistemas agrários estão submetidos, algumas delas com tendência para se tornarem mais relevantes no futuro.

A magnitude das transformações necessárias para a adaptação dos sistemas agrários ultrapassa largamente a fronteira do sistema de produção. É necessário considerar também, por exemplo, os sistemas de distribuição e conservação de alimentos, assim como os modelos de consumo, que necessitarão de transformações, para a adaptação e mitigação das alterações climáticas e que terão, certamente, repercussões nos ecossistemas agrários conexos.



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Sobre o/a autor(a)

Engenheiro agrónomo. Deputado do Bloco de Esquerda
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