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Afeganistão: Rosas, chá e saber estar. Ou não!

Bem sei que a política e as relações internacionais desenvolvem-se com base no interesse nacional mas então calem-se com o paleio da democracia e dos Direitos Humanos. Façam as guerras e os negócios que quiserem mas deixem essa retórica de lado e assumam que a vida é mesmo assim. Por José Manuel Rosendo em meu Mundo minha Aldeia.
Montagem de duas fotos. Uma de José Manuel Rosendo com um candidato presidencial afegão, outra de um aviso colocado nos carros militares dos EUA a proibir aproximação de carros afegãos.
Montagem de duas fotos. Uma de José Manuel Rosendo com um candidato presidencial afegão, outra de um aviso colocado nos carros militares dos EUA a proibir aproximação de carros afegãos.

O Ocidente (que já foi, em tempos, onde é o “Crescente Fértil), ou os países do Ocidente, para ser mais objectivo, têm a obrigação de parar por um momento e reflectir sobre a relação e a atitude perante outros povos. Em relação ao Médio Oriente nem é preciso falar de tudo o que as antigas potências europeias fizeram – e depois também os Estados Unidos – mas, caramba, depois do desastre no Iraque e no Afeganistão, não pensar por um momento em rever comportamentos e atitudes será, no mínimo, de uma cegueira incompreensível.

Bem sei que a política e as relações internacionais desenvolvem-se com base no interesse nacional dos actores envolvidos, mas então calem-se de uma vez com o paleio da democracia e dos Direitos Humanos. Façam as guerras e os negócios que quiserem mas deixem essa retórica de lado e assumam que a vida é mesmo assim.

O interesse dos Estados e o interesse dos povos

O desastre em que o Afeganistão está mergulhado, há muito tempo e não apenas agora com o regresso dos Taliban ao poder, é o exemplo mais recente que demonstra a necessidade dessa mudança de atitude. E não, não são os afegãos os culpados. Por muito que o Presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, assim diga, à falta de melhor argumento para justificar o caos associado à retirada norte-americana. E por que motivo Joe Biden continuou o acordo de retirada assinado por Donald Trump? Lá está: prevaleceu o interesse nacional dos Estados Unidos, para quem agora existem outras prioridades e o Afeganistão deixou de entrar nas contas.

Quanto aos líderes políticos europeus, foi triste seguirem quase de “olhos vendados” a narrativa norte-americana, embora aqui e ali, com uns salpicos de crítica à forma como os Estados Unidos decidiram sair do Afeganistão, sem consultarem os aliados. Para quem tanto se preocupou com os direitos das mulheres e, em geral, com os Direitos Humanos no Afeganistão, os líderes europeus rapidamente passaram a ter como primeira preocupação uma eventual vaga de refugiados.

A culpa não é dos afegãos

Por muito que me atirem com números, não consigo imaginar quanto custa manter um esforço militar com a dimensão daquele que foi feito no Afeganistão, durante 20 anos, com muitos milhares de soldados no terreno e recursos múltiplos. Quanto a vidas humanas, perderam-se aos milhares, mas também neste caso foram os afegãos as maiores vítimas. E se, como disse Biden, os militares afegãos recusaram-se a enfrentar e combater os Taliban, a culpa, mais uma vez, não é deles (noutro contexto, lembram-se da fuga do exército iraquiano perante o avanço da organização Estado Islâmico? Pois…), é de quem os formou – ou teve a ilusão de que o estava a fazer.

E se juntarmos o colapso do exército afegão, a um sistema político que, também ele, nunca funcionou, porque impróprio para a realidade afegã, temos parte da explicação para o caos dos últimos dias e para as imagens de desespero no aeroporto traduzidas em afegãos – pessoas – a caírem de um avião que levantava voo de Cabul. Não foram apenas dois afegãos que caíram daquele avião. O que caiu daquele avião representou, da forma mais dramática possível, a arrogância e inépcia de muitos países e dirigentes políticos ocidentais para lidarem com povos que têm uma cultura e tradição diferentes. Nem melhores nem piores do que as nossas, apenas diferentes.

Sentar no chão e beber chá ou manter os afegãos à distância

Aqui chegados, à forma como nos devemos relacionar com outros povos e outras culturas, os acontecimentos recentes “atiraram-me” para o mês que passei no Afeganistão em 2009. Foi o tempo da reeleição de Hamid Karzai para um segundo mandato presidencial e do primeiro ataque suicida Taliban contra o comando da NATO na zona mais bem guardada de Cabul. Peço-vos um olhar para as fotografias que ilustram este texto e como elas ilustram diferentes formas de estar. Não tenho o hábito de publicar fotografias minhas em reportagem, porque penso que isso não é importante, nem pretendo ser pedante dando-me como exemplo seja do que for, mas esta foto, sentado no chão, ao lado do candidato presidencial Mullah Abdul Salam Rockety (pode parecer um Taliban, mas não é, e se fosse, num mesmo contexto, a minha atitude provavelmente não seria diferente) revela a atitude que, num cenário como o do Afeganistão, me parece a mais correcta. Foi antes de uma entrevista ali mesmo (não me lembro se antes ou depois do chá), local escolhido pelo entrevistado. Não teria sido bem visto que eu tivesse recusado o convite para me sentar no chão ou que recusasse a fotografia. Aquilo que pode parecer uma grande intimidade entre jornalista e protagonista político é apenas o resultado da forma calorosa de receber que o estrangeiro tem de entender como sendo parte da cultura afegã. Quem é bem recebido e retribui com respeito, é bem tratado.

Por esta altura (Verão de 2009) a NATO (Internacional Security Assistance Force, mandatada pelas Nações Unidas) já tinha percebido que as coisas não estavam a correr bem. Assim, tentou introduzir aquilo a que chamou de “Compreensive Approach”, algo que se pode traduzir pelo envolvimento de entidades governamentais e sociedade civil, em conjunto com as forças de segurança, para responder às necessidades das populações. A intenção pode ter sido boa, mas houve uma dificuldade nunca ultrapassada: os militares nunca – talvez raramente – se aproximaram da população. A fotografia da traseira de um carro militar com o aviso para que os carros não se aproximem, é um exemplo da relação que (não) existia. O invasor não fez um esforço de aproximação, antes pelo contrário. Muito provavelmente a maioria dos militares da NATO que estiveram no Afeganistão, nunca pisaram uma rua do país sem ser nas missões fora das bases e, ainda assim, com a segurança inerente. Transformaram-se num corpo estranho, uma instituição completamente à parte no Afeganistão, para além de nem sequer permitirem que os afegãos se aproximassem. Muitos militares estiveram meses no Afeganistão, alguns estiveram anos, e regressaram a casa quase sem sair dos quartéis, enquanto outros apenas viram as ruas de Cabul através das janelas dos carros blindados. Não conheceram os afegãos.

Não há rosas para a arrogância

Para além disso, quando põem o “pé no chão”, nem sempre – muitas vezes – têm atitudes correctas. Um exemplo: numa das saídas de Cabul, dois jornalistas portugueses com barba de muitos dias, dentro de um carro afegão, com motorista afegão, são mandados encostar na berma para que possa passar um comboio militar norte-americano. O comboio transporta o que resta de carros blindados meio desfeitos que tinham levado “porrada da grossa”. Imagina-se de quem. Os dois jornalistas fotografam. Um deles baixa a janela para uma melhor imagem. Um militar norte-americano desce de uma das viaturas e, sem uma palavra, enfia uma mão dentro do carro e arranca bruscamente a máquina das mãos de um dos jornalistas. Quando o militar vira costas, o jornalista abre a porta do carro para tentar recuperar a máquina. Nem chegou a pôr um pé no chão porque o militar apontou-lhe a arma que trazia a tiracolo. Nem uma palavra. Não sabia se éramos afegãos ou estrangeiros. Simplesmente tinha uma arma não mão e isso dava-lhe poder para fazer o que quisesse. Arrogância absoluta. Quem assim age não pode esperar que o Afeganistão lhe ofereça rosas.

Bem sei que uma missão militar com as características daquela que decorreu no Afeganistão tem regras apertadas e os constrangimentos que essas regras provocam não são da responsabilidade dos militares no terreno, mas essa é precisamente uma das questões a rever. E bem sei, também, que os jornalistas gozam de outra liberdade e correm riscos por sua própria conta. Ainda bem.

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