Está aqui

Que impacto da pandemia no mercado imobiliário?

Nos últimos dias começam a sair as primeiras notícias do impacto que a Covid19 está a ter no mercado imobiliário. Já não há dúvidas: o preço das casas vai cair e as rendas vão baixar. Artigo de Ricardo Moreira.
Foto de Paulete Matos.

O setor imobiliário já deu conta do problema que está a enfrentar nas últimas semanas. Já ninguém está a ir ver casas para comprar, os grandes investidores desapareceram (há notícias de perdas internacionais entre os 60% e os 90%), até há dificuldade em manter as escrituras que estavam marcadas, “não está a acontecer rigorosamente nada” diz o presidente da Associação dos Profissionais e Empresas de Mediação Imobiliária de Portugal (APEMIP). A Associação de Proprietários está com tanto medo que já pediu ao governo que requisite hotéis para alojar as famílias que não consigam pagar a renda.

Os profissionais do Alojamento Local estão em pânico. As reservas que tinham foram canceladas e não há previsão para voltarem. Nos próximos meses não terão clientes, mas terão os custos do investimento que fizeram. Aliás, toda a indústria do turismo e da restauração está parada e já começaram os despedimentos selvagens, principalmente dos trabalhadores precários (ver aqui).

Ainda há duas semanas este cenário era impossível. Vendiam-se 500 casas por dia em Portugal, o preço médio do metro quadrado em Lisboa era de 3.205 euros, duas vezes mais do que no Porto e três vezes mais do que no resto do país. O mercado de arrendamento era ainda pior, com um T2 em Lisboa a custar 900 euros por mês e com pessoas a depositarem seis meses de sinal para poderem ficar nas casas.

Os preços das casas e os valores das rendas eram especulativos, os grandes negócios imobiliários estavam a fazer milhões e os cidadãos comuns enfrentavam uma crise sem precedentes. O sobreaquecimento do mercado imobiliário era fruto de decisões políticas erradas: Lei do Arrendamento do CDS, Vistos Gold, alojamento local desregulado, venda de património público a preços especulativos, falta de casas para arrendamento público.

Sem querer fazer futurologia, há coisas que já podemos antever. Se o investimento estrangeiro, incluindo vistos gold, parou então os preços especulativos vão descer. As avaliações vão reduzir o valor das casas, até porque as imobiliárias já não vão poder vender casas para o negócio do Alojamento Local. As casas que houver para vender primeiro vão ficar paradas e depois vão começar a reduzir o valor, até porque os únicos possíveis compradores serão as famílias, que também foram afetadas pelo vírus porque já há notícia de uma vaga de despedimentos.

Para além disso, há no país mais de noventa mil casas em alojamento local, vinte mil só em Lisboa, e se estes negócios não conseguirem reservas nos próximos meses vão começar a procurar alternativas. Se tentarem a venda da casa enfrentarão a queda dos preços, mas se optarem por disponibilizar a casa no mercado de arrendamento poderão usufruir dos benefícios que foram criados pelo último orçamento de Estado. Ainda assim, a prazo, o preço das rendas vai cair.

A forma como os bancos se vão comportar ainda é uma incógnita. As quedas nos mercados de capitais podem implicar que o Estado e os contribuintes são obrigados a salvar novamente os bancos e o Banco Central Europeu não poderá baixar muito mais as taxas de juro, que antes da Covid19 já se encontravam a valores negativos.

É vital que o governo garanta que quem tem casa não a perde por causa da pandemia. Por isso, foi muito importante a suspensão da caducidade dos contratos de arrendamento e a moratória aos despejos que foi aprovada pela Assembleia da República por proposta do Bloco de Esquerda e é também importante apoiar as famílias que não consigam manter as prestações aos bancos. Sem isso a crise que aí vem vai ficar ainda pior.

O Covid19 vai criar uma situação totalmente nova que atinge em cheio o mercado imobiliário porque era totalmente especulativo. Neste quadro, há novas responsabilidades para o Estado. As câmaras municipais podem realizar um programa de compra das casas que estavam em alojamento local reforçando o stock de habitação pública. Já o governo tem uma responsabilidade neste momento, deve apoiar as famílias para não perderem a casa e avançar com um programa público de habitação para evitar que a situação de crise habitacional se repita. Só assim se prepara o futuro para o dia depois de amanhã e se garante que as casas são para as pessoas viverem.


Artigo publicado no Jornal Económico, 23 de março de 2020.

Sobre o/a autor(a)

Engenheiro e mestre em políticas públicas. Dirigente do Bloco.
(...)

Resto dossier

"Em cada esquina um amigo"

Respostas à crise na habitação

A pandemia do coronavirus provocou o colapso do turismo e a paralisação de muitos setores da economia. Para já, o importante é travar os despejos e assim evitar que as pessoas fiquem sem teto. Mas o regresso da crise global exige uma resposta que passa pela defesa do direito à habitação e pelo controlo dos preços especulativos. Dossier organizado por Luís Branco.

Bairro da Bouça, no Porto

Mais habitação social: imprescindível, mais que nunca

São completamente erradas as ideias que ainda persistem na sociedade portuguesa contra a habitação social, entendida como habitação “para os mais pobres” e “sem qualidade”. Para a OCDE, habitação social é a que é disponibilizada com rendas abaixo do mercado e atribuída fora dos mecanismos de mercado.  Artigo de José Castro.

Casas sim, despejos não!

Habitação há. Não há é vontade política

No momento que todas nos refugíamos do perigo de um vírus em casa, compreendemos também o problema que a crise habitacional representa na saúde pública. Artigo de Maria Manuel Rola.

Que impacto da pandemia no mercado imobiliário?

Nos últimos dias começam a sair as primeiras notícias do impacto que a Covid19 está a ter no mercado imobiliário. Já não há dúvidas: o preço das casas vai cair e as rendas vão baixar. Artigo de Ricardo Moreira.

Altbau por renovar e renovado. Até finais dos anos 1990, grande parte do centro de Berlim tinha o aspeto da esquerda. Hoje, tem o aspeto da direita. A par da renovação, veio a especulação. Foto: Kaspar Metz/Flickr.

Berlim: a capital "pobre mas sexy" radicaliza-se contra a especulação

Berlim acabou de congelar e impor tetos às rendas. Uma vitória para os movimentos de moradores, cuja mobilização despertou um debate que vai mais longe, chegando a ideias de expropriar os grandes senhorios. A história da cidade ajuda a compreender como se encontra hoje na dianteira das lutas pela habitação. Por José Borges Reis.

Habitação: uma questão europeia?

Embora as crises da habitação que se espalham pela Europa fora, inclusive a portuguesa, tenham as suas raízes históricas nas dinâmicas específicas de cada Estado, podemos concluir que a Europa pouco fez para preveni-las; antes pelo contrário. Artigo de Simone Tulumello.

Porto

Porto: muito mercado, pouca escolha

A pressão turística sobre o imobiliário e a escassez de resposta pública agravou a crise da habitação para quem vive no Porto. Os alertas deixados em 2016 pela Relatora Especial das Nações Unidas para o direito à habitação condigna não foram ouvidos e a situação nas "ilhas" e bairros camarários agravou-se ainda mais. Artigo de Daniela Alves Ribeiro.

Crise do coronavírus exige congelamento de rendas e moratória aos despejos

É indefensável que as pessoas devam recear ser despejadas durante uma crise de saúde pública. A crise do coronavírus exige um controlo de emergência do mercado da habitação. Artigo de Peter Gowan, na Jacobin.

 

A finança e a habitação no capitalismo

Houve períodos históricos, como agora, em que os custos da habitação como meio de reprodução da força de trabalho foram deixados exclusivamente sobre os ombros dos trabalhadores. Nesses momentos, eles foram explorados como trabalhadores que produzem mercadorias a serem vendidas no mercado e como pessoas que precisam garantir a sua própria reprodução através de dívidas. Excerto da brochura sobre financeirização da habitação, lançada pela European Action Coalition for the Right to Housing and to the City e Fundação Rosa Luxemburg.

Habitação em Lisboa: um problema coletivo

A crise financeira que se aproxima não pode ser uma crise novamente paga pelos de sempre. O acesso a uma habitação é a garantia de um direito fundamental. Cabe aos poderes públicos não deixar ninguém para trás. Artigo de Catarina Silva.

Vende-se imóvel: ótimo investimento para visto gold

A crise anterior deu-nos uma lição: colocar direitos fundamentais, como a habitação, à mercê das elites é perigoso; colocar a responsabilidade da crise nos mais fracos é injusto, violento e, como ficou provado, má política económica. Artigo de Vasco Barata.