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Cuba: ano foi marcado pela manifestação de 11 de julho

Crise económica, falta de alimentos e perda do poder de compra levou o povo às ruas em protesto. Governo reagiu com a repressão, acusando todos os que se manifestaram de serem contrarrevolucionários e mercenários. Por Luis Leiria.
O 11 de julho de 2021 ficará marcado na História de Cuba como o dia em que o povo dos bairros mais pobres saiu às ruas em protesto contra o governo - Foto publicada por Dean Luis Reyes/Facebook
O 11 de julho de 2021 ficará marcado na História de Cuba como o dia em que o povo dos bairros mais pobres saiu às ruas em protesto contra o governo - Foto publicada por Dean Luis Reyes/Facebook

O 11 de julho de 2021 ficará marcado na História de Cuba como o dia em que o povo dos bairros mais pobres saiu às ruas em protesto contra o governo, em Havana e muitas outras cidades. Exasperados pela falta de alimentos e produtos básicos nas lojas, pela falta de dinheiro para comprar nos lugares abastecidos mas que só aceitam divisas, os manifestantes pediam mudanças a um governo que invariavelmente prometera soluções que não cumprira. Gritavam por “Liberdade” e “Pátria e vida”, o lema de uma canção, composta por rappers da Ilha e emigrados, que se tornou muito popular.

Foi o maior protesto jamais visto em Cuba desde a revolução de 1959.

Apanhado de surpresa, o governo reagiu com violência, dando uma “ordem de combate”: “Às ruas, revolucionários!”, exortou o presidente Miguel Díaz-Canel. Foi a senha para desencadear a repressão. Forças do Ministério do Interior, as Forças Armadas, Tropas Especiais, os cadetes das Academias militares e até a reserva foram para a rua acabar com os protestos. Houve choques com grupos de manifestantes que responderam à violência. Pelo menos uma pessoa morreu.

A organização de direitos humanos Justicia 11J documentou 1.271 detenções relacionadas com a explosão social do 11-J. Destas pessoas, pelo menos 659 continuam em detenção, sendo que 42 foram já condenadas a penas de prisão ditadas por julgamentos sumários, sem a presença de advogados.

Para o governo, as manifestações fizeram parte de um plano arquitetado pelo imperialismo para derrubar o governo. Todos os participantes foram considerados contrarrevolucionários, mercenários a soldo de Miami, delinquentes, uma visão que desafia o bom senso.

“Nego-me a acreditar que no meu país, por esta altura, possa haver tanta gente, nascida e educada entre nós, que se venda ou entregue à delinquência. Porque se assim fosse, esse seria o resultado da sociedade que os criou”, reagiu Leonardo Padura, o mais importante escritor cubano da atualidade. Que os círculos cubanos de Miami, através da Internet, tenham incentivado as manifestações é um facto; que o governo Biden não afrouxou nenhuma das medidas de Trump para agravar o bloqueio a Cuba, o que coloca mais dificuldades a todos os cubanos, é igualmente certo. Mas daí a uma “Revolução de veludo” para derrubar o socialismo cubano, como os meios oficiais não se cansam de dizer, vai uma grande distância. Voltemos a Padura:

“A maneira espontânea, sem estar presa a nenhuma liderança, sem receber nada em troca ou roubar nada pelo caminho, com que uma quantidade notável de pessoas se manifestou nas ruas e nas redes, deve ser um alerta e penso que é uma amostra alarmante das distâncias que se abriram entre as principais esferas políticas dirigentes e a rua (e isso até foi reconhecido pelos dirigentes cubanos).”

A crise que exaspera

Esse abismo entre o povo cubano e os dirigentes que controlam partido único e Estado ficou bem evidente no VIII Congresso do Partido Comunista Cubano, em abril de 2021, que consagrou a saída de Raúl Castro da secretaria-geral do partido, ficando Díaz-Canel com ambos os cargos, de Presidente da República e de Primeiro Secretário. Os delegados ao evento maior do partido aprovaram (por unanimidade) cinco resoluções: Informe central; atualização da Conceptualização; estado de implementação dos Lineamientos (Orientações) e a sua atualização para 2021-2026; funcionamento do partido, atividade ideológica e vinculação com as massas; política de quadros e papel do partido. Duas são claramente sobre assuntos internos, enquanto outras estão cheias de formulações abstratas que pouco dizem ao comum dos cidadãos. Termos como atualização, conceptualização, potenciar, contexto complexo...

O congresso que marcou uma transferência final de poderes entre a geração da revolução e a que lhe seguiu (Díaz-Canel tem 61 anos) foi apresentado como o da continuidade, da irreversibilidade do socialismo e do PC no poder. Nada de novo, portanto. Não deixou de ser registada a ascensão ao bureau político de uma pessoa que de certa forma concentra as duas gerações: o brigadeiro general Luis Alberto Rodríguez López-Calleja, genro de Raúl Castro e chefe do conglomerado militar cubano Gaesa (Grupo de Administração Empresarial, SA), que controla os bens económicos mais valiosos do país (por exemplo, os investimentos na hotelaria). A GAESA é propriedade das FAR (Forças Armadas Revolucionárias), o Exército de Cuba.

Mas acima de tudo, o povo cubano exigia obter respostas bem precisas (e não Lineamientos) para questões tão prementes como a crise alimentar, o disparo da inflação, o desabastecimento das lojas e o fracasso do plano económico-financeiro chamado Tarefa Ordenamento, que se propunha acabar com as duas moedas que circulam na ilha, afirmava o objetivo de fechar as lojas exclusivas a quem disponha de divisas e prometia abastecer todas as lojas que só trabalham em pesos cubanos. Nada disso foi cumprido e a inflação decorrente destes fracassos é tão grande que esmaga o poder de compra dos parcos salários dos cubanos. Família que não tenha algum parente a viver no exílio com a possibilidade de enviar-lhe dólares ou euros regularmente, está condenada à miséria.

Foram estas realidades dramáticas que levaram manifestantes do dia 11-J a gritarem “Estamos com fome”, porque a situação em Cuba começa a aproximar-se, em termos de gravidade, ao chamado Período Especial, nos anos 90, quando a União Soviética acabou e a Ilha deixou de contar com o seu apoio financeiro.

As mobilizações do 11 de julho deram origem ao primeiro movimento de oposição amplo, de decisão horizontal e funcionamento pela internet, o Arquipélago, que procurou legalizar uma nova manifestação de protesto e pela libertação dos presos do 11-J. Deveria ser uma manifestação pacífica e autorizada. Mas as autoridades cubanas negaram-se a autorizá-la, dizendo que se propunha a mudar o sistema e que este é irreversível à luz da Constituição. Assim ficamos a saber como a geração da continuidade encara as liberdades de expressão e de manifestação.

Face à proibição, a Arquipélago decidiu arriscar e manter a convocatória. Mas desta vez, as autoridades cubanas tinham tempo para se preparar e montar um esquema de intimidação e repressão com requintes. Ao sufocar o protesto de dia 15 de novembro, o governo cubano comemorou a vitória. Mas há quem veja na sua atitude uma confissão de fraqueza.

Artigo de Luís Leiria

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