A célebre venda do prédio dos CTT de Coimbra que no mesmo dia foi vendido duas vezes não é a única operação sob suspeita. Em 2003, outro prédio da empresa foi vendido sem a obrigatória autorização do governo. A maioria dos 52 arguidos tem ligações ao PSD.
O Jornal de Notícias conta hoje a história atribulada da venda de um prédio dos CTT na Avenida da República, em Lisboa. A administração da empresa liderada por Horta e Costa decidiu a venda na reunião de 10 de Dezembro de 2003 e a escritura foi assinada no dia 30 do mesmo mês. O facto que causou estranheza aos investigadores foi a ausência da necessária autorização do governo para a operação, que só chegou no último dia do ano.
A assinatura que viabilizou a venda, já com a escritura assinada, pertence ao secretário de Estado adjunto da Economia Franquelim Alves, que mais tarde transitou para a administração da Sociedade Lusa de Negócios. O facto da administração dos CTT ser composta por elementos indicados pelo governo PSD/PP está a levantar suspeitas de financiamento partidário em vários actos da gestão de Horta e Costa. O JN diz que dos 52 arguidos no processo, a maioria tem ligações ao PSD.
O desfecho da venda do prédio de Lisboa foi pelo menos tão polémico quanto a escolha do comprador, que segundo a Inspecção Geral das Obras Públicas foi feito sem qualquer anúncio no jornal. Foi aceite a proposta da empresa Demagre, já envolvida no negócio do prédio de Coimbra meses antes e que pertence a duas sociedades off-shore. Mas o cheque da Demagre, no valor de 12,5 milhões, não tinha cobertura. Em vez de accionar os mecanismos legais, a administração dos CTT deu à Demagre a possibilidade de venda do prédio a terceiros por um preço superior, dividindo a mais valia entre as duas empresas.
A Demagre serve de fachada à TramCrone, em cuja sede a polícia apreendeu notas pessoais dos administradores Júlio Macedo e Pedro Garcês, que lhe permitiram reconstituir o esquema de distribuição de comissões por vários dos intervenientes no processo. Segundo o Correio da Manhã, uma das linhas de investigação sobre o rasto do dinheiro teve como destino operações financeiras no BPN Cayman e Banco Insular. A alienação da frota automóvel dos CTT a uma empresa do universo SLN/BPN, originando 2,7 milçhões de prejuízo, é um dos actos de gestão suspeitos. O Diário de Notícias também refere uma carta de José Vaz de Mascarenhas, na sequência do cheque sem cobertura para pagar o prédio de Lisboa, assegurando que o negócio seria apenas uma simulação para retirar o imóvel do património dos CTT "no contexto da transferência do seu fundo de pensões para a Segurança Social".
Outra das suspeitas dos investigadores levaram à constituição de Paulo Miraldo como arguido. Quando era chefe de gabinete de António Mexia, então ministro das Obras Públicas do governo Santana Lopes/Paulo Portas, Miraldo fez avultados depósitos em numerário nas suas contas pessoais. Segundo o Correio da Manhã, estes depósitos totalizaram mais de 57 mil euros em 2004 e pelo menos 36500 em 2005. Para além das notas depositadas, a polícia assinalou a entrada de dois cheques emitidos por dois conhecidos empreiteiros, Américo Santo e Emídio Mendes, num total de 125 mil euros.
Apesar da investigação ter apurado outros depósitos de milhares de euros nas contas de dezenas de arguidos na altura da transacção do prédio dos CTT em Coimbra, e ter as iniciais de alguns desses nomes nas notas dos administradores da TramCrone, não existem provas concretas de influência sobre os CTT ou as entidades públicas que arrendaram espaços no prédio após a venda. Por isso, diz o JN, a acusação sobre estas pessoas deverá cingir-se à fraude fiscal em vez de corrupção e tráfico de influências.
A presidente do PSD reagiu a esta investigação que envolve nomes importantes do seu partido, dizendo que a época pré-eleitoral "é propícia a este tipo de notícias". Manuela Ferreira Leite procurou desvalorizar as notícias, dizendo que "não há desenvolvimentos" na investigação em relação ao que já era conhecido.