Mário Crespo diz-se alvo de perseguição do Governo

02 de fevereiro 2010 - 3:42
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Mário Crespo soube da conversa dos membros do Governo e não gostou."Definiram-me como 'um problema' que teria que ter 'solução'", escreveu o jornalista da SIC sobre a conversa que lhe foi relatada entre Sócrates, Lacão, Silva Pereira e um "executivo da TV". O JN recusou publicar a sua crónica e o Bloco quer um inquérito da ERC para se saber o que realmente se passou.

 

Mário Crespo diz que o encontro entre os três governantes e "um experiente executivo de TV" teve lugar no dia da apresentação do Orçamento de Estado, num restaurante de hotel em Lisboa. "Fui o epicentro da parte mais colérica de uma conversa claramente ouvida nas mesas em redor. Sem fazerem recato, fui publicamente referenciado como sendo mentalmente débil (“um louco”) a necessitar de (“ir para o manicómio”). Fui descrito como “um profissional impreparado”", escreve o jornalista naquela que seria mais uma das suas habituais crónicas no Jornal de Notícias.



À meia noite de domingo, o director do JN ligou a Mário Crespo para lhe dizer que não publicaria o texto por não ser "um simples texto de opinião", e por conter "referências a factos que suscitavam duas ordens de problemas: por um lado necessitavam de confirmação, de que fosse exercido o direito ao contraditório relativamente às pessoas ali citadas; por outro lado, a informação chegara a Mário Crespo por um processo que o JN habitualmente rejeita como prática noticiosa; isto é: o texto era construído a partir de informações que lhe tinham sido fornecidas por alguém que escutara uma conversa num restaurante", explica a nota da direcção do Jornal de Notícias. A conversa terminou com Crespo a decidir não voltar a escrever no Jornal dirigido por José Leite Pereira.



O Sindicato dos Jornalistas (SJ) também reagiu em comunicado, afirmando a sua solidariedade com Mário Crespo. "A ser comprovado o seu teor, a conversa referida é profundamente condenável, não apenas pelas expressões desprimorosas para a pessoa e para o profissional, mas também por alimentar a suspeita de que o Governo persegue os jornalistas, os serviços noticiosos e os órgãos de informação que não são do seu agrado", diz o SJ.



O Sindicato quer que haja uma "retractação pública" por parte dos autores das "expressões susceptíveis de atentarem contra a honra e a dignidade dos visados ou que constituam uma ameaça – mesmo velada – ao seu futuro profissional".



Já Catarina Martins recusou-se a tirar conclusões antes que a Entidade Reguladora da Comunicação tome medidas para apurar o que se terá passado. "Parece-nos que esse será o mecanismo mais normal, mais útil, mais transparente. A existência da possibilidade de algum acto que se possa parecer com censura exige investigação. Não se devem tirar conclusões antes de uma investigação que deve ser a ERC a fazer", defendeu a deputada bloquista.



Da parte do executivo, a reacção é o silêncio sobre este episódio. Uma fonte do ministério de Jorge Lacão apenas afirmou à agência Lusa que "o Governo não se ocupa de casos fabricados com base em calhandrices".