Desigualdade

Aumento dos salários dos CEO foi 20 vezes superior ao dos trabalhadores em 2025

06 de maio 2026 - 10:45

Enquanto a remuneração dos líderes das principais empresas mundiais aumentou 11% em termos reais no ano passado, a média dos trabalhadores ficou-se pelos 0,5% de aumento real, denunciam a Oxfam e a Confederação Sindical Internacional.

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Foto de frankieleon/Flickr

Numa análise a 1.500 grandes empresas de 33 países que divulgaram o salário dos seus presidentes executivos (CEO) no ano passado, a Oxfam International e a Confederação Sindical Internacional (ITUC) chegaram à conclusão de que um trabalhador com salário na média global teria de trabalhar 490 anos para ganhar os 8,4 milhões de dólares que os CEO receberam em média em salário e bónus em 2025, mais 800 mil dólares do que em 2024.

Quatro destas empresas, incluindo a Blackstone, a Broadcom e a Goldman Sachs, revelaram ter pago aos seus CEO mais de 100 milhões de dólares em 2025. Os dez mais bem pagos auferiram, no total, mais de mil milhões de dólares.

Comparando com o ano de 2019, quando a média destas remunerações era de 5,5 milhões de dólares, o aumento dos CEO foi de 54% em termos reais. Já os trabalhadores viram os seus salários reais sofrerem uma queda de 12%. Nestas 1.500 empresas, a disparidade salarial de género é de 16%, o que significa que a cada dia 4 de novembro as mulheres trabalham de borla até ao fim do ano em comparação com os colegas homens.

A análise da Oxfam e da ITUC estendeu-se aos acionistas destas empresas. Quase mil bilionários receberam no ano passado 79 mil milhões de dólares em dividendos, ou seja, 2.500 dólares por segundo. Em média, cada um destes bilionários recebeu em dividendos durante duas horas mais do que o trabalhador médio ganha num ano. Aqui destacam-se nomes como o de Bernard Arnault, proprietário da marca de luxo LVMH, que embolsou 3,8 mil milhões de dólares, e Amancio Ortega, proprietário da Inditex (Zara), que recebeu 3,7 mil milhões de dólares. Ou outros que usam a sua fortuna para atacarem os direitos dos trabalhadores ou a democracia, como o do fundador da Oracle, Larry Ellison, que adquiriu a Paramount, proprietária de estações de televisão, ou o francês Vincent Bolloré, simpatizante da extrema-direita que passou a controlar o canal CNews e o transformou numa Fox News à francesa.

“Esta análise põe a nu o golpe dos bilionários contra a democracia e os seus custos para os trabalhadores. As empresas prometem-nos um ciclo virtuoso, mas o que vemos é um ciclo vicioso liderado pelas megacorporações — estas minam a negociação coletiva e o diálogo social, enquanto os CEO bilionários se apropriam da riqueza gerada pelos ganhos de produtividade. Os super-ricos utilizam então recursos enormes para financiar projetos políticos antidemocráticos”, afirmou o Secretário-Geral da ITUC, Luc Triangle.

E esses projetos “atribuem a culpa pelo aumento da desigualdade a grupos marginalizados, como migrantes, mulheres e minorias, com o objetivo de desviar a atenção dos verdadeiros culpados: os seus benfeitores ricos”, prossegue o sindicalista, concluindo que estes projetos políticos e mediáticos “dividem os trabalhadores, ao mesmo tempo que desmantelam e minam as instituições democráticas e promovem políticas que permitem que os super-ricos fiquem ainda mais ricos, em detrimento dos direitos, da segurança e dos meios de subsistência dos trabalhadores. Atacam organizações democráticas como os sindicatos e bloqueiam quaisquer vias para reformas populares, garantindo que o ciclo vicioso anti-laboral continue.”

Dos 400 novos bilionários surgidos no ano passado, 45 devem a sua fortuna ao negócio da Inteligência Artificial. O diretor executivo da Oxfam, Amitabh Behar, defende que os governos devem definir tetos salariais para os CEO, taxar os super-ricos e assegurar que os salários mínimos pelo menos acompanham a inflação e permitem uma vida digna.

“E os trabalhadores devem poder exercer, sem medo nem obstáculos, os seus direitos de se organizarem, de fazer greve e de negociar coletivamente. São eles que geram a riqueza da sociedade; devem poder reivindicar, por uma questão de justiça, o que lhes é devido”, acrescenta o diretor da Oxfam.