As tecnologias que ligam bilhões de pessoas em todo o mundo estão, na verdade, nas mãos de pouquíssimos super-ricos. Segundo o novo relatório da Oxfam, lançado neste domingo (19) durante o Fórum Económico Mundial, seis bilionários controlam nove das dez maiores plataformas de redes sociais do planeta, enquanto três bilionários concentram quase 90% do mercado global de chatbots de inteligência artificial. A organização alerta que esse poder digital acumulado por uma minoria gera não só lucros bilionários, como também está a ser usado para restringir liberdades, vigiar opositores e manipular o debate público.
Para a Oxfam, o avanço da inteligência artificial e das plataformas digitais não está a promover mais liberdade ou inclusão. “Essas tecnologias, quando controladas por uma elite bilionária, deixam de ser ferramentas democráticas para se tornarem mecanismos de concentração de riqueza e poder”, afirma o relatório Resistindo ao domínio dos ricos.
A diretora-executiva da Oxfam Brasil, Viviana Santiago, classifica esse processo como uma ameaça concreta à democracia. “É urgente pensar na posse das redes sociais e das ferramentas de IA, porque está em curso uma tentativa de controlo de narrativa, de reinterpretação da história e de limitação do acesso à informação”, disse ao Brasil de Fato. Segundo ela, a ausência de regulação nos setores de tecnologia e IA cria um ambiente ideal para a ampliação das desigualdades. “São setores altamente lucrativos, altamente poluentes e com poder de censura e vigilância”, afirma.
Vigilância, censura e desinformação
O relatório destaca que os bilionários que controlam as maiores redes sociais também controlam o que é visto, dito e ouvido por milhares de milhões de pessoas. A Oxfam chama atenção para o papel das plataformas na monitorização e na repressão de opositores políticos, como no caso do Quénia: durante protestos contra leis fiscais, autoridades quenianas usaram o X (antigo Twitter) para rastrear manifestantes.
A plataforma, que pertence a Elon Musk, é citada no documento como exemplo de como o poder privado pode ameaçar direitos coletivos. Um estudo da Universidade da Califórnia, mencionado no relatório, concluiu que o discurso de ódio aumentou 50% após a aquisição do X por Musk, em 2022.
A Oxfam também denuncia o uso das plataformas para espalhar desinformação, intimidar críticos e manter privilégios. “Essas redes, sob o controlo de bilionários, não são apenas empresas. Elas se tornaram agentes políticos com capacidade de reprimir, censurar e distorcer o debate público”, resume o relatório.
Três bilionários controlam a IA
Além das redes, o domínio da inteligência artificial se concentra em um número ainda mais reduzido de pessoas: três bilionários controlam quase 90% do mercado global de chatbots – programas que simulam interações humanas e estão presentes em serviços de atendimento, plataformas de busca e redes sociais. A Oxfam alerta que essa concentração aumenta o risco de manipulação em larga escala, especialmente diante da ausência de regras claras para a atuação dessas ferramentas.
Para Viviana Santiago, a captura dessas tecnologias por grandes fortunas serve a uma estratégia de longo prazo: moldar o imaginário coletivo e proteger estruturas de dominação. Ela critica o facto de esses setores operarem em grande parte sem regulação e alerta para o impacto ambiental de seus modelos de negócios.
“Esses setores concentram poder, produzem desigualdades e têm uma pegada de carbono gigantesca. Não podemos tratar como neutro o facto de que bilionários detenham essas ferramentas e os meios de comunicação”, disse.
Fórum de Davos silencia sobre concentração de poder digital
O relatório da Oxfam foi divulgado em paralelo à abertura do Fórum Econômico Mundial, que ocorre entre os dias 19 e 23 de janeiro, em Davos, na Suíça. A edição de 2026 reúne cerca de 400 líderes políticos de alto nível e 850 CEO de grandes empresas, além de quase 100 grandes unicórnios e pioneiros da tecnologia. O tema oficial do evento é “Um espírito de diálogo”.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva não participa do fórum neste ano. O Brasil é representado pela ministra do Planeamento, Simone Tebet, que deve integrar um painel sobre crescimento na América Latina. Desde o início do terceiro mandato de Lula, em 2023, o país tem sido representado por ministros em Davos.
Rodrigo Chagas é jornalista do Brasil de Fato. Artigo publicado em Brasil de Fato. Adaptado para português-pt pelo Esquerda.net