"Já lá vai o tempo em que a esquerda pensava estar a bordo do comboio da História, e que a questão era saber qual a melhor direcção que ele deveria tomar", disse o filósofo esloveno Slavoj Zizek. "Hoje sabemos que o comboio está a ir a caminho da catástrofe, e a nossa única opção é detê-lo", defendeu, acrescentando que o que o mundo precisa é de uma revolução cultural, não no sentido maoísta da expressão, mas no de uma mudança cultural radical. Slavoj Zizek foi o principal orador do primeiro dia do "1001 Culturas".
Galeria de fotos de André Beja.
Para Zizek, há 30 anos debatia-se qual seria a forma social do futuro, se capitalista, se socialista, e que tipo de socialismo, mas aceitava-se que a vida do planeta iria continuar. Hoje debatem-se as catástrofes que ameaçam o mundo num futuro não muito distante, mas já ninguém fala do fim radical do capitalismo. Num estilo acutilante e provocador, Zizek disse que enquanto a esquerda dos países desenvolvidos parece erigir como tópico principal a cultura e não o capitalismo, este desenvolve-se cada vez mais na direcção do capitalismo cultural.
"O capitalismo cultural não é só o facto de se assistir ao fenómeno de 'marketização' da cultura", defendeu, apontando que há o outro lado do mesmo fenómeno: "a culturalização dos próprios bens de consumo, não só no sentido de produtos culturais, como o cinema e a cultura popular, mas num sentido mais lato, de coisas que associamos à cultura, como o sentido da vida, a filosofia... tudo isto está a tornar-se uma mercadoria para vender".
Para ele, "mesmo os próprios bens de consumo são cada vez mais vendidos não apenas como bens de consumo ou símbolos de 'status' mas como coisas para nos fazerem sentir bem culturalmente".
Um exemplo é a rede de cafés da cadeia norte-americana Starbucks, que anuncia que os seus copos de café são recicláveis, revelando preocupações ambientais, e promove campanhas segundo as quais 5% do valor pago pelo café será canalizado para educar os pobres da Guatemala".
Na intervenção de abertura do fórum, Miguel Portas destacou que "em tempo de crise, a cultura não pode ser algo residual", e definiu o evento "1001 culturas" como um espaço de encontro entre públicos, artistas e técnicos e programadores e produtores. "Não há muitos encontros assim, com este tipo de informalidade, com tempo para a palavra, a conversa e o debate sobre o 'estado da arte'", disse.
Francis Wurtz, presidente da Esquerda Unitária Europeia - Esquerda Verde Nórdica no Parlamento Europeu, evocou Jean Monnet para dizer que para encontrar uma identidade para a Europa é preciso começar pela cultura. "A economia não é suficiente para se criar essa identidade. Mas que cultura?", questionou, defendendo que esse é um dos principais debates que a esquerda precisa fazer.
O jantar, preparado por um grupo de dedicados voluntários sob a orientação de Rudolf El Kareh, sociólogo libanês, autor, entre outros, de um livro sobre a mezée (as entradas) sírio-libanesa, trouxe os sabores do Líbano, do taboulet, do keeb (ou quibe), entre outras delícias da cozinha do Levante (mais especificamente do Líbano, da Síria e da Palestina). No final, El Kareh dialogou com Cláudio Torres e ambos ouviram perguntas e intervenções do público. A terminar a noite, o concerto "Grândolas", em que os pianistas Mário Laginha e Bernardo Sassetti interpretaram músicas célebres de Zeca Afonso reescritas para dois pianos.
O 1001 Culturas foi organizado pelo Grupo da Esquerda Unitária do Parlamento Europeu na Fábrica de Braço de Prata, em Lisboa.













