Zé Celso (1937-2023): Dramaturgo incontornável e fonte de inspiração para lutas futuras

06 de julho 2023 - 21:48

Ícone do teatro brasileiro, o criador do Teatro Oficina, que contestou a ditadura e levou o tropicalismo para os palcos, morreu esta quinta-feira em São Paulo, aos 86 anos, vítima de um incêndio no seu apartamento.

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Zé Celso no piso subterrâneo do Teatro Oficina. Foto de Lilo Clareto.

O “maior nome da dramatologia nacional”; “criador da linguagem tropicalista no teatro (…) ensinou a folia, a orgia e a anarquia no Teatro Oficina”; autor de “peças que revolucionaram os palcos”;  “o maestro capaz de acender uma luz inspirada e grandiosa num período particularmente difícil - a ditadura militar”; “artista contundente e inovador (...) grande lutador da Reforma Agrária Popular”, um “incansável lutador contra todas as formas de opressão”; “a rebeldia e transgressão que mudaram a história do teatro brasileiro”.

São estas as palavras escolhidas, por medias, políticos, comentadores brasileiros, entre outros, na hora de anunciar a morte do diretor, ator, dramaturgo e encenador brasileiro José Celso Martinez Corrêa, conhecido como Zé Celso.

Zé Celso fundou o Grupo Teatro Oficina, uma das companhias mais antigas do país, na Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, ao lado de nomes como Amir Haddad, Renato Borghi, Fauzi Arap ou Etty Fraser.

Nós chamamos o nosso teatro de Oficina e escolhemos como símbolo a bigorna, porque isso significava trabalho e se pretendia ligar o trabalho teatral a qualquer outro, colocando o ator como um operário, como um simples proletário, para desmistificar certa ideia de que o teatro é uma coisa mítica, dependendo de dom, vocação e até mesmo de um apelo religioso” (Zé Celso em projeto Ocupação, do Itaú Cultural)

A peça do dramaturgo Vento forte pra papagaio subir, a primeira montagem deste grupo, foi apresentada no Teatro Novos Comediantes em 1958.

Eu empinava papagaio num largo muito bonito, que tinha ipês no mês de julho, amarelos e cor de vinho. Um dia, o papagaio voltou molhado, ficou no quintal. No dia seguinte, o Sol o partiu. Fui empinar e aí me veio uma coisa de que eu tinha que sair de Araraquara [SP] e então consegui escrever, em minutos, uma peça chamada Vento Forte Pra Papagaio Subir” (Zé Celso em projeto Ocupação, do Itaú Cultural)

Segue-se A Incubadeira (1959). Assim como Vento Forte para Papagaio Subir, o texto é  autobiográfico. Ambas as peças foram montadas sob a direção de Amir Haddad.

Em 1960, A Engrenagem resultou de uma parceria com Augusto Boal. Em 1963, Zé Celso dirigiu Pequenos Burgueses, de Máximo Gorki. A peça ganhou diversos prémios, mas foi censurada no ano seguinte, quando o Brasil foi assolado pela ditadura militar.

Em 1967, a montagem de O Rei da Vela, de Oswald de Andrade, foi uma pedra no charco. A encenação deste texto, que Zé Celso considerava ser “uma revolução de forma e conteúdo para exprimir uma não revolução”, afrontou a ditadura militar. Em 1968 surge Roda Viva, que estreia Chico Buarque como dramaturgo. A 9 de novembro desse ano, a peça foi alvo do grupo paramilitar Comando de Caça aos Comunistas (CCC), que invadiu o palco, destruiu o cenário e agrediu os artistas.

Depois de Galileu Galilei e Na selva das cidades, de Bertolt Brecht, em 1971, Gracias, Señor, obra de criação coletiva, fez emergir o Oficina. Zé Celso passou então a dedicar-se ao filme O Rei da Vela.

Em 1974 o dramaturgo foi preso.

SOS: texto escrito por Zé Celso, à época de sua prisão

Libertado 20 dias depois, exilou-se em Portugal. Em parceria com Celso Lucas, dirigiu o documentário O Parto, sobre a Revolução dos Cravos, e, posteriormente, 25, sobre Moçambique.

A gente aflorou em Portugal durante algum tempo. Depois veio o 25 de novembro e fomos para Moçambique; daí para França, na base da paciência revolucionária, porque lá realmente não tem trabalho nenhum, já está reprimido. É uma ditadura de classe fodida, uma ditadura pesadíssima, não é patrulha ideológica, não. É coisa organizada, tecnologicamente, com computador” (Zé Celso em projeto Ocupação, do Itaú Cultural)

Zé Celso voltou para São Paulo em 1978 e retomou o trabalho à frente do Oficina que, em 1984, passa a chamar-se Associação Teatro Oficina Uzyna Uzona. No mesmo ano, teve início a reforma da sede deste teatro, com o projeto de Lina Bo Bardi (1914 -1992) e Edson Elito, a ser concluído em 1994 e inaugurado com o nome de Terreiro Eletrônico.

Em 1991, a peça As boas, escrita por Jean Genet e dirigida por Zé Celso, mobiliza a comédia para retratar a relação entre uma excêntrica “madame” e as suas empregadas.

A primeira montagem de Zé Celso após a reabertura do reformado Teatro Oficina, Ham-let, inspirada na obra de William Shakespeare, conferiu-lhe uma série de prémios: “O Brasil é o país referido por Cláudio para a expulsão de Hamlet, e é ao som do relato da chacina do Carandiru que os atores representam a pantomima para a corte”, lê-se na descrição da peça feita pelo projeto Ocupação, do Itaú Cultural.

Em 1995, Zé Celso dirige Bacantes, que refaz a tragédia sobre a morte e ressurreição de Dionísio, e, em 1998, a partir da vida pessoal e artística da atriz Cacilda Becker, é idealizada Cacilda!.

Os Sertões traz, de acordo com o projeto Ocupação, "a discussão sobre as consequências do capitalismo financeiro, sobre os conflitos de um mundo globalizado". Na peça, Zé Celso levantou a questão: "qual é o Brasil que queremos?".

Em 2008, Zé Celso adaptou o texto de Friedrich Schiller na peça Os Bandidos.

Zé Celso não se coibiu de criticar ferozmente o governo de Jair Bolsonaro. Em entrevista à Rede Brasil Atual, foi perentório: “é um governo imbecil”.

"Não tem pé nem cabeça, esse governo. Não é um governo de direita moderna, mas de direita arcaica. Botar a embaixada em Jerusalém, esse alinhamento com Trump, que está para ter um impeachment. É um governo imbecil, desde o primeiro momento, até a posse, antes da posse, tudo"

Questionado sobre a extinção do ministério da Cultura, Zé Celso respondeu:

“Só o Ministério da Cultura que foi extinto? Ele já declarou o fim da reforma agrária, entregou tudo nas mãos da ministra da Agricultura (Tereza Cristina). Se tivesse Ministério da Cultura, ele ia botar um desses caras, como o do Itamaraty (Ernesto Araújo), ou o da Educação (Ricardo Vélez Rodriguez). Eu sou a favor do Ministério da Cultura, sim. Mas não na mão desse cara. (…) se você quiser entregar um ministério da Cultura a esses fascistas, vai ser um horror. Eles vão ter, aliás, uma secretaria de Cultura para substituir o ministério. Talvez até mantenham a Lei Rouanet. Mas eu acho que a atual situação está fascista mesmo, péssima”.

O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) lembra que “o artista contundente e inovador”, foi um “grande lutador da Reforma Agrária Popular através da arte e da cultura, como instrumentos formativos e de diálogo com as massas”.

“Até o final de sua vida Zé Celso permaneceu como um incansável lutador contra todas as formas de opressão. Ele permanecerá vivo em nossas memórias, em nossos sentimentos e, principalmente, em nossas lutas”, escreve o MST.

Lula da Silva refere que Zé Celso foi um artista que procurou "a inovação e a renovação do teatro”. “Corajoso, sempre defendeu a democracia e a criatividade, muitas vezes enfrentando a censura”, acrescentou. O presidente brasileiro lamenta a morte de “um dos maiores nomes da história do teatro brasileiro, um dos seus mais criativos artistas”.

“Vá em paz, meu amigo! A rebeldia e transgressão que mudaram a história do teatro brasileiro. Viva a arte eterna de Zé Celso! Viva, Zé!”, assim se despede Guilherme Boulos de Zé Celso.

Zé Celso morreu na manhã desta quinta-feira, num hospital de São Paulo. O dramaturgo foi hospitalizado na terça-feira na sequência de um incêndio no seu apartamento. O seu marido, e companheiro há 37 anos, o diretor Marcelo Drummond, também foi hospitalizado devido ao incêndio, mas já teve alta.

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