Está aqui

Ximenes Belo acusado de abusos sexuais

Duas vítimas denunciaram os casos ocorridos na década de 1990 e exigem pedido de desculpas. Em Portugal, oito jesuítas abusaram de crianças em colégios na segunda metade do século XX.
Ximenes Belo em 2016. Foto José Fernando Real/Wikimedia/CC BY-SA 4.0

O semanário neerlandês De Groene Amsterdammer publicou os depoimentos de duas vítimas de abusos sexuais do antigo bispo de Díli e Nobel da Paz, ocorridos nos anos 1990 quando tinham entre 14 e 16 anos. A investigação afirma que os abusos podem ter feito mais vítimas e terão começado na década anterior, quando o então padre comandava os Salesianos de Dom Bosco, em Fatumaca.

As vítimas, identificadas como Roberto e Paulo, dizem que o bispo os tentou silenciar a troco de dinheiro. O jornal diz que os casos já eram conhecidos entre “membros do Governo, políticos, funcionários de organizações da sociedade civil e elementos da Igreja”. Ambos afirmam que em Díli havia um carro que os levava à residência do bispo.

“O que eu quero é um pedido de desculpas d[o bispo] Belo e da Igreja”, diz Roberto, que espera que a divulgação da sua história motive otras vítimas a quebrar o silêncio. “Temos de falar sobre [os abusos sexuais] e gritá-lo mais alto ao mundo”, afirma Paulo.

Segundo o portal 7Margens, as suspeitas de abusos sexuais remontam a 2002, quando houve uma denúncia.

Em novembro desse ano, Ximenes Belo renunciava ao cargo, invocando problemas de saúde. Atualmente a residir em Portugal, Ximenes Belo não  reagiu às novas denúncias.

Em comunicado citado pela Lusa, a Província Portuguesa da Sociedade Salesiana diz ter recebido  as notícias “com profunda tristeza e perplexidade” e ressalva que Ximenes Belo “deixou de estar dependente da Congregação Salesiana” quando assumiu funções na diocese de Díli. No entanto, “a pedido dos seus superiores hierárquicos”, acolheu o antigo bispo em Portugal “como hóspede durante os últimos anos”. Os salesianos acrescentam que desde que se encontra em Portugal, Ximenes Belo "não tem tido quaisquer cargos ou responsabilidades educativas ou pastorais ao serviço da nossa Congregação”,

Segundo a Renascença, nos últimos 20 anos não houve qualquer investigação judicial ao antigo bispo e o reresentante diplomático do Vaticano em Timor-Leste também não confirma se há investigações, adiantando que o caso está entregue aos órgãos competentes da Santa Sé.

Oito jesuítas abusaram de crianças entre 1950 e os anos 1990

Em comunicado divulgado na segunda-feira, a Província Portuguesa da Companhia de Jesus (PPCJ) afirma que oito jesuítas, todos já falecidos, cometeram abusos sexuais sobre crianças dos 9 aos 16 anos, de ambos os sexos, entre 1950 e os anos 1990. O padre José Maria Brito, diretor do gabinete de comunicação da Companhia de Jesus em Portugal, disse ao 7Margens que "o processo não está terminado".

Os abusos por parte de padres e irmãos da instituição religiosa ocorreram “em ambiente escolar, envolvendo alunos dos colégios da Companhia, tanto em contexto de grupo (sala de aula) como em contacto individual”. Há abusos que ocorreram uma vez, outros de forma recorrente, em contexto de grupo nas salas de aula ou de acompanhamento individual. "Quanto às formas de abuso, caracterizam-se na generalidade por toques em zonas íntimas, embora haja registos de formas mais invasivas", refere o comunicado.

A revelação surge após uma investigação interna dos arquivos da Companhia de Jesus, mas "a informação sobre estes casos é muito escassa e pouco objetiva, sendo, por isso, muito difícil, sem relatos concretos das vítimas, perceber com clareza em que circunstâncias se deram os abusos, se foram ou não denunciados, e quais as diligências que foram tomadas em relação aos abusadores e às vítimas".

A PPCJ acrescenta não ter encontrado informação "de que tenham existido processos judiciais ou canónicos" e entregou a informação recolhida ao Grupo de Investigação Histórica (GIH) da Comissão Independente para o Estudo dos Abusos Sexuais contra as Crianças na Igreja Católica, que está neste momento a fazer o apuramento dos casos de abusos sexuais junto das dioceses e congregações religiosas.

"A estas pessoas, bem como às suas famílias, pedimos perdão pelos abusos sofridos e por não termos sido capazes, enquanto organização, de as proteger. Conscientes de que só a transparência e a verdade podem trazer luz e esperança ao futuro, reconhecemos ainda que possam existir outras pessoas sofridas, cujas histórias não conhecemos, e a quem também nos dirigimos", afirma o comunicado da PPCJ.

Termos relacionados Sociedade
(...)