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Vox: dinheiro de grupo iraniano sustentou extrema-direita espanhola

Dizem-se nacionalistas mas foi o dinheiro de um obscuro grupo oposicionista iraniano, que chegou a ser considerado terrorista pelos EUA, que permitiu a sua fundação. Até os seus dois dirigentes máximos viveram destas verbas durante meses enquanto não tinham outros rendimentos.
Manifestação contra a extrema-direita em Espanha.
Manifestação contra a extrema-direita em Espanha. Fonte: Anticapitalistas.

65 mil euros durante oito meses. Foi o que o que Santiago Abascal e Iván Espinosa, os dois principais rostos do principal partido da extrema-direita espanhola, receberam em salários através de fundos provenientes do “Conselho Nacional da Resistência do Irão” durante o ano de 2014.

A investigação a estes pagamentos foi publicada esta terça-feira no jornal El País. Mas a revelação é apenas só mais um pormenor sobre o financiamento deste grupo ao Vox. Já era conhecido que, durante o ano de fundação do partido neofranquista, em 2013, mais de um milhão de euros lhe foi destinado por este grupo.

O CNRI é desconhecido do grande público mas não o é dos meandros da política internacional. Nas suas ações públicas estiveram já presentes, para além de dirigentes do Vox, outras figuras políticas espanholas como os ex-primeiros-ministros José María Aznar e José Luis Rodríguez Zapatero, para além de políticos do Partido Republicano dos EUA, como John McCain, Newt Gingrich, ou o anterior ministro dos Negócios Estrangeiros francês Bernard Kouchner. Giuliani, o advogado de Trump, ex-Mayor de Nova Iorque e figura de visada no processo de destituição do presidente norte-americano, foi também estrela de um comício.

Fundado em 1965, chegou a ter um braço armado que constava da lista de organizações terrorista do Reino Unido até 2008 e dos EUA até 2012. Feitos alcançados através de uma campanha de lóbi, com amplos montantes investidos, segundo mostrou uma investigação do jornal The Guardian.

Para financiar o Vox, explica o El País, o grupo iraniano espalhou 35 angariadores de financiamento em cerca de 15 países, tendo contribuído à volta de mil pessoas, de forma anónima e não contabilizada devidamente pelo partido. O financiamento parou antes das eleições europeias de 2014. Mas os fundos que a financiaram foram quase exclusivamente iranianos: à conta criada para estas eleições apenas chegaram dois donativos não provenientes desta fonte, não chegavam a dois mil euros.

O agente de ligação entre Abascal e os iraniano foi Vidal-Quadras que tinha já ligações a este grupo criadas quando foi eurodeputado do Partido Popular entre 1999 e 2014. Vidal-Quadras confirmou a origem do dinheiro e fez saber que Abascal não foi ao engano: sabia perfeitamente do onde ele vinha. Este ex-eurodeputado deixou o Vox em 2015.

O dinheiro permitiu sustentar Abascal num período em que deixou de ter salário. Depois de se demitir do Partido Popular, o dirigente da extrema-direita perdeu o lugar de diretor da Fundação para o Mecenato e Patrocínio Social, uma polémica instituição, acusada de não ter atividade e de ser um lugar feito à sua medida pela sua colega de partido, a presidente da Comunidade de Madrid. Ainda antes tinha, sempre à boleia do PP, sido dirigente da Agência de Proteção de Dados e, no País Basco, ocupado vários cargos locais.

O salário do Vox/CNRI foi, assim, o primeiro fora da esfera pública e do beneplácito do PP. Abascal cobrou 3570 euros líquidos mensais, num total de 40 mil. Espinosa de los Monteros, que acumulava este salário com a sua atividade privada, recebia 2300 euros líquidos mensais.

Esta não é a única polémica de financiamento associada ao Vox. Em março do ano passado, ex-dirigentes do partido desavindos com a direção, denunciaram um esquema de financiamento através de testas-de-ferro. O que cumpria várias funções: permitia que alguns empresários financiassem o partido sem dar a cara pela extrema-direita e podia desta forma contornar-se a lei que limita os montantes de financiamento dados por cada um.

As ordens para proceder desta maneira vieram de cima, do então responsável financeiro e vice-Presidente que, curiosamente, se encontrava impedido por sentença judicial de administrar bens alheios e de “representar ou administrar para qualquer pessoa”, segundo uma sentença do Supremo Tribunal na sequência de “irregularidades relevantes” na empresa Marmolería Leonesa que detinha e de que era administrador.

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