Uma das polémicas que tem atravessado a campanha é o uso do slogan "Que te vote Txapote" contra Pedro Sánchez, fazendo referência a Francisco Gaztelu, conhecido por "Txapote", o membro da ETA que cumpre pena pelo assassinato dos dirigentes bascos do PP Miguel Ángel Blanco e Gregorio Ordoñez e o socialista Fernando Múgica. A frase foi vista pela primeira vez numa pancarta trazida no ano passado para um comício de Sánchez em Sevilha, mas só ganhou projeção quando foi usada num comício por Isabel Diaz Ayuso.
Eso de “Que te vote Txapote” no nos hace ninguna gracia a los familiares de los asesinados por el etarra Txapote @NNGG_Es @nnggmadrid pic.twitter.com/poNxaGlZei
— Rubén Múgica (@rubenmugica) June 20, 2023
Desde então, é vendida em t-shirts dos jovens do PP e merchandising do Vox e houve quem comprasse espaço em painéis outdoors de publicidade para afixar a frase, o que entretanto foi proibido pela junta eleitoral durante o período oficial de campanha. Nos últimos dias, a frase tem sido cantada em coro nas festas de San Fermin, em Pamplona, e gritada aos microfones dos jornalistas que fazem reportagens em direto nas ruas.
Una cosa es detestar a Pedro Sánchez, y otra bien distinta es meter a un pistolero de mierda en la ecuación pic.twitter.com/fTspsVnuP0
— Rubén Múgica (@rubenmugica) July 10, 2023
Este novo mote da campanha da direita espanhola está a abalar os familiares das vítimas. Consuelo Ordoñez, presidente do Coletivo de Vítimas do Terrorismo e irmã do autarca assassinado em 1995 em Donostia, diz sentir "muita dor" ao ver que o partido do seu irmão "não respeita as vítimas". E chama ao PP e ao Vox a "direita abertzale [patriota] para quem vale tudo pela pátria, até faltar ao respeito às vítimas", numa referência à designação usada para identificar a esquerda independentista basca. A associação juntou-se a dezenas de vítimas do terrorismo para lançar um apelo aos líderes da direita espanhola para que deixem de usar o assassinato dos seus familiares como slogan eleitoral.
COVITE, la @Fundacion_Buesa y una veintena de víctimas del terrorismo a título individual hacen un llamamiento a la clase política y a la ciudadanía para que no se utilice el lema ‘que te vote Txapote’.
Reclamamos que no se banalice el terrorismo.https://t.co/zxyVxFibud pic.twitter.com/zgxUfupMo1
— COVITE (@CovitePV) July 11, 2023
Em comunicado, apelam a que "não se banalize o terrorismo nem os terroristas e que não se utilize de forma partidária a causa das vítimas do terrorismo". E consideram "indigno e cruel" que os familiares das pessoas assassinadas por Txapote "tenham de ouvir o seu nome persistentemente num slogan que diminiu o que foi o assassinato dos seus familiares", além de essa utilização contribuir para o desvirtuar "da memória necessária para a deslegitimização do terrorismo por parte de um amplo consenso social".
A relação entre a associação de vítimas do terrorismo e o PP já não era das melhores, mas esta terá sido "a gota que fez transbordar o copo". Os familiares sentem-se usados por um partido "que sempre usou a vítimas da ETA", quer na oposição quer no Governo. No frente a frente televisivo com Pedro Sánchez, o líder do PP foi questionado sobre o tema, com os moderadores a darem-lhe uma oportunidade de condenar o slogan. Mas Feijóo não o fez e preferiu fugir à questão.
"Sofri campanhas malvadas da esquerda abertzale desde há muitos anos. Quem diria que agora iria sofrer com campanhas ainda mais cruéis do PP e do Vox, desta direita abertzale. Porque a cada tweet que publico ou cada declaração que faço a chamar a atenção dos seus líderes... tenho de as ler e ouvir", queixa-se a líder da associação.
Deputado de Ayuso lança contramanifesto a favor do slogan
Depois da divulgação do apelo da Covite e de dezenas de familiares das vítimas do terrorismo, o deputado do PP em Madrid Daniel Portero, filho de um procurador assassinado pela ETA em 2000 e que encabeça uma associação chamada Dignidade e Justiça, apressou-se a recolher assinaturas em sentido contrário.
"Compreendemos que haja outras vítimas que possam não sentir-se representadas com a frase, mas elas não podem ficar com o monopólio do coletivo. Se elas querem defender o que fez Sánchez, pois que o façam; para nós o comportamento do presidente do Governo foi degradante", afirmou em comunicado citado pelo El Diario.es.
O grupo argumenta que o PSOE governa com o Bildu e que negociou com este partido a política de aproximação dos presos bascos às cadeias no País Basco, além de oferecer "todo o tipo de privilégios e atenções" aos detidos. Argumentos falsos, mas que fazem parte da campanha da direita e da extrema-direita espanhola.
Entre os familiares de vítimas da ETA que subscrevem o slogan da polémica está a ex-líder da Associação de Vítimas de Terrorismo Ángeles Muñoz, que há anos vem ocupando altos cargos da administração do PP na região de Madrid, ou Mari Mar Blanco, irmã de Miguel Angel Blanco e também deputada do PP em Madrid, que Mariano Rajoy nomeou para liderar a Fundação de Vítimas do Terrorismo, abrindo a polémica sobre a partidarização desta organização que pretendia juntar todas as associações ligadas ao tema.