Venezuela: Principal ministro económico de Chávez sai do governo

20 de junho 2014 - 11:17

Jorge Giordani, ministro da Planificação da Venezuela, saiu do governo de Nicolas Maduro. Em texto divulgado publicamente, Giordani aborda a crise económica, mostra sérias divergências com o atual presidente e com o rumo seguido pelo governo.

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Jorge Giordani diz que “é doloroso e alarmante ver uma Presidência que não transmite liderança, e que parece querer afirmá-la na repetição, sem a devida coerência” de considerações como as formuladas por Chávez - Foto de Chávez e Jorge Giordani

Jorge Giordani, nome importante na construção da política económica do falecido presidente Hugo Chávez, já não faz parte do gabinete do presidente Nicolás Maduro. Ministro de Planificação, ele foi substituído pelo então responsável pela pasta de Educação Universitária e ex-ministro de Indústria, Ricardo Menéndez.

A saída gerou repercussão, não somente por Giordani ter estado com Hugo Chávez em quase todo o seu mandato, ou por ser um dos ideólogos da sua política de maior controle estatal sobre a economia, mas por um texto, publicado no site Rebelión, no qual faz duras críticas sobre o rumo do atual governo.

Ao anunciar a mudança, na noite desta terça-feira (17/06), Maduro agradeceu todos os anos no qual Giordani esteve ao lado de Chávez, e afirmou que é “um homem entregue com honestidade absoluta”. O presidente afirmou que ele certamente se incorporará em novas tarefas da “revolução”, e também anunciou mudanças nos ministérios de Alimentação, Transporte Aéreo e Aquático e Educação Universitária.

Apesar de Maduro ter pedido que os substituídos assumam a mudança com “humildade” e “tranquilidade”, o texto de Giordani mostra divergências internas. Nele, diz que “é doloroso e alarmante ver uma Presidência que não transmite liderança, e que parece querer afirmá-la na repetição, sem a devida coerência” de considerações como as formuladas por Chávez, “e no outorgamento de recursos massivos a todos os que solicitam sem um programa fiscal enquadrado num planeamento socialista que dê consistência às atividades solicitantes”.

Sobre o comportamento de instituições como a PDVSA (Petróleos da Venezuela) e o Banco Central do país, Giordani fala que “começaram a aparecer sinais de independência”, ao mesmo tempo em que eram tomadas decisões de gasto público alheio a controle orçamental, o que agravou a situação financeira do país “submetido a uma campanha desestabilizadora” internamente, e de isolamento externamente.

O ex-ministro afirma ter tido preocupações como a de travar a corrupção com um novo controle de fundos estatais, e a introdução de mecanismos de administração do gasto público. Apesar de admitir que Maduro adotou a medida de criar um comité para aprovar o uso de divisas a preços privilegiados para importações básicas, diz que quanto à despesa pública real, “iniciou-se uma nova onda de grandes gastos (...) decididos sem estudo prévio, de facto improvisado”.

O texto classifica a política sobre agentes privados como “confusa” e afirma que as pressões dos mesmos “parecem abrir caminho à reinstalação de mecanismos financeiros capitalistas”. “À luz destes factos surge uma clara sensação de vazio de poder na Presidência da República, e concentração noutros centros de poder, destruindo a tarefa de instituições como o ministério de Finanças e o Banco Central, e dando como facto consumado a independência da PDVSA do poder central”, expressa.

O autor questiona ainda a ingerência de “assessores franceses” e “improvisação de quadros sem experiência e designações pouco adequadas para a administração de grandes fundos do Estado”. “O que não posso fazer é ser partícipe de outras circunstâncias e decisões nas quais não se atuou de acordo com minha consciência e minhas mais profundas convicções”, escreve, no fim do texto.

Crise económica

O afastamento do ministro dá-se no meio de uma crise económica, na qual a Venezuela enfrenta uma falta de abastecimento intermitente de produtos básicos e uma inflação que supera os 60% no ano. Em entrevista à emissora Globovisión, o economista Pedro Palma disse que Giordani vinha perdendo protagonismo nos acontecimentos económicos do país, que seriam na verdade administrados pelo vice-presidente da Área Económica e presidente da PDVSA, Rafael Ramírez, o ministro de Finanças Marco Torres, e o presidente do BCV, Nelson Merentes.

“Acho que o governo neste momento está muito preocupado com essa série de distorções e de profundos desequilíbrios que vieram a acumular-se ao longo destes últimos anos, em matéria fiscal, monetária, cambial, de atividade real, petrolífera, inflacionária, e agora estão a perguntar o que têm que fazer para corrigir esta série de problemas tão profundos que temos e não encontram uma resposta simples”, disse Palma.

Com uma onda de protestos da oposição, que se desenrolaram principalmente em fevereiro e março, o governo aproximou-se do empresariado, anunciou o pagamento de parte das dívidas pendentes ao setor privado considerado prioritário e deu início a uma nova ofensiva económica para identificar potenciais e problemas na produção do país.

Artigo de Luciana Taddeo, publicado por Opera Mundi. Texto revisto para português de Portugal por esquerda.net

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