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Veneza resiste contra a turistificação e as inundações

Milhares de habitantes de Veneza protestaram contra os efeitos da entrada massiva de cruzeiros de grandes dimensões na cidade e contra a incompetência política em lidar com as cheias que atingiram a cidade.
Manifestantes em Veneza pelo ambiente e contra os efeitos da turistificação. Novembro de 2019.
Manifestantes em Veneza pelo ambiente e contra os efeitos da turistificação. Novembro de 2019. Foto de No Grandi Navi

Os grandes cruzeiros que entram em Veneza estão a contribuir para as cheias ao erodir as fundações da cidade. É isto que clama o coletivo No Grande Navi e, com ele, os dois a três mil venezianos que se manifestaram este domingo na cidade dos canais.

Na sequência das cheias que inundaram a cidade, tendo a água atingido o nível mais alto desde 1966, 1,87, entre duas a três mil pessoas decidiram voltar a um protesto que já leva alguns anos.

Uma das suas exigências é que este tipo de embarcações seja banido de entrar na cidade. A pressão para afastar os grandes cruzeiros do centro da cidade tinha já levado o ministro dos Transportes, Danilo Toninelli, no início do ano, a anunciar que iriam ser tomadas medidas para desviar os navios para outros portos mas os manifestantes pensam que se vive um estado de emergência e querem mais. Não se contentam, nomeadamente, com o facto dos terminais que se apresentam como alternativos se situarem também no interior da lagoa de Veneza.

“Veneza resiste”, foi a palavra de ordem encontrada para expressar a frustração contra a turistificação da cidade e a raiva pela inépcia política nas tentativas de travar as cheias. A demissão de Luigi Brugnaro foi também exigida, na medida em que é acusado de incapacidade de lidar com a gravidade das cheias. O seu projeto milionário de criação de uma barreira que proteja a cidade de marés altas, nascido em 2003, continua a ser adiado e envolvido em escândalos.

Aos habitantes locais juntaram-se também vários movimentos ecologistas, uma vez que o protesto tinha como objetivo também o combate às alterações climáticas. O Fridays for Future de Veneza foi um dos que marcaram presença. Na convocatória da manifestação, diz-se que estão “enraivecidos e enraivecidas não contra o destino mas contra um modelo de desenvolvimento bem preciso que atinge a nossa cidade e o mundo inteiro.” Salientam ainda que a sua cidade se tornou um “símbolo mundial dos efeitos das alterações climáticas. Por isso, exigem o abandono dos combustíveis fósseis e uma inversão das políticas locais.

O comité No Grandi Navi – Laguna Bene Comune está na linha da frente. Tem como objetivo fazer uma “batalha participada”, que envolva o máximo de movimentos e cidadãos, pela interdição dos grandes navios e não descura o lado ambiental da questão.

O objetivo político que colocaram é o de “salvar Veneza” do Mose, o projeto da barreira, de Brugnaro, o presidente da Câmara que é o seu principal defensor, e das alterações climáticas.

Mas, no imediato, vivendo a cidade ainda uma situação de emergência, o coletivo esta envolvido na organização de grupos de solidariedade que intervêm na limpeza da cidade e na ajuda às vítimas mais carenciadas.

Sobre o polémico projeto MOSE, dizem que “é o problema e não a solução”, que “nasceu não para salvar a cidade mas para fazer enriquecer alguns.” Custou já 5,3 milhões de euros, 1,5 dos quais desaparecidos de forma corrupta. Os técnicos dizem que “não funciona nem funcionará”. Querem assim uma moratória ao projeto e a sua substituição por outras medidas ambientais que recomponham as defesas naturais da lagoa e a manutenção permanente dos canais.

Este sábado, antes da manifestação, houve uma assembleia. Na segunda-feira depois dela, rumaram a Roma para voltarem a ser ouvidos.

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