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As Utopias Piratas na emergência do capitalismo

Um livro de Peter Lamborn Wilson resgata a curiosa história dos mouros renegados que se aventuraram nos mares e criaram “zonas autónomas temporárias” a partir do século XVI. Por Raíssa Araújo Pacheco.

Sereias, navios, corsários, bebedeiras e músicas intermináveis; motins, insurreições, revoltas e batalhas podem-nos lembrar os alucinantes e empolgantes filmes de piratas que construíram o nosso imaginário acerca destas figuras tão conhecidas na cultura pop.

No entanto, quais eram as histórias reais destes personagens? Será que os piratas eram apenas mercenários com sede de sangue e pilhagem? Ou talvez seres exóticos e incultos que beiravam o irracionalismo?

É a história renegada desses que viviam à margem que Peter Lamborn Wilson busca resgatar na sua obra Utopias Piratas: a revolta de mouros, hereges e renegados na emergência do capitalismo.

Lançado pela primeira vez em 1995, o livro agora ganha uma segunda edição em português, lançada no ano passado, através de uma parceria de peso entre as editoras Autonomia Literária e Veneta.

“A história tem tido a tendência de ver a história dos Renegados como sem sentido, como apenas um percalço no progresso suave e inevitável da cultura europeia na direção da dominação do mundo. Os piratas eram incultos, pobres e marginalizados – e portanto (presume-se) não poderiam ter tido ideias ou intenções de verdade. São vistos como partículas insignificantes varridas da corrente principal da história por um redemoinho caprichoso ou um turbilhão de irracionalidade exótica. Nem um dos textos que li sobre o assunto sequer menciona a possibilidade de intencionalidade e resistência […] Mas a experiência deles não foi sem sentido, nem merece ser enterrada no esquecimento.”

Assim escreve Peter na sua obra, convocando-nos a debruçar-nos com um novo olhar sobre a história dos Renegados. Quem são eles? Mouros e intelectuais europeus hereges que do século XVI ao XIX ter-se-iam revoltado e resistido à imposição “de um cristianismo presunçoso baseado na escravatura, na repressão e no privilégio da elite”, doutrina essa que já preparava o terreno para lançar as bases do que viria a ser a cultura e a ideologia opressora do sistema capitalista.

Nas margens do rio Bou Regreg, em Marrocos, os piratas teriam constituído todo um construto como a(s) República(s) Corsária(s) Moura(s) do Bou Regreg, que seria uma estrutura planeada para uma sociedade corsária, além de um ponto de encontro e porto seguro de piratas – uma “utopia pirata”.

A República de Salé ou República do Bou Regreg, era uma cidade-estado marítima independente construída por Renegados expulsos de Espanha a 9 de abril de 1609 pelo Rei Filipe III. Estes Renegados nada mais eram do que espanhóis muçulmanos convertidos à força ao cristianismo pela política pragmática dos Reis Católicos espanhóis Dona Isabel de Castela e Dom Fernando II de Aragão. A medida dominou a região a partir de 1502 e foi responsável por arrancar dessas pessoas o uso da língua árabe em troca do castelhano, além de lançarem a prática dos seus ritos e o conhecimento dos seus dogmas na ilegalidade.

Também chamados de mouriscos, estes Renegados fugiram desta opressão e estabeleceram na margem sul do rio uma comunidade do que hoje chamamos de piratas. Os Piratas de Salé prosperaram através de ataques a navios e logo ficaram conhecidos em todo oo mundo. A história autobiográfica (fictícia) de Daniel Defoe, As Aventuras de Robinson Crusoé, incorpora todo o imaginário que cercava as histórias de pirata à época e que rodou o mundo.

Assim como em As Aventuras de Robinson Crusoé, no livro de Peter temos “que usar a imaginação mais do que um historiador “de verdade” aprovaria”, afinal, imaginação é indissociável do estudo da pirataria. Ainda assim, ele serve-nos uma investigação inovadora, interessante e instigante da cultura dos Renegados, dos seus modos e da sua ética pirata. Através de uma obra que passeia pelo real e o imaginário, pela escrita teórica e pelo romance, Peter conta-nos “uma história ainda mais inusitada do que as fábulas que ela inspirou”.

Peter Lamborn Wilson foi um historiador especialista na história das heresias e da pirataria, conhecido pelo pseudónimo de Hakim Bey, também foi escritor e poeta, investigado do Sufismo e da organização social dos Piratas do século XVII. Além disso, o investigador é conhecido como um dos teóricos anarquistas que mais influenciou o movimento nas últimas décadas do século XX e início do século XXI. A sua obra T.A.Z: Zona Autónoma Temporária, escrita em 1985 e registada em copyleft, descreve a criação e propagação de espaços autónomos temporários. Essas “T.A.Z”, seriam táticas sócio-políticas que criam espaços temporários que escapam às estruturas formais de controle, como uma forma de resistência e esvaziamento de poder do establishment. Como uma organização para o desenvolvimento de atividades comuns, sem o controle de hierarquias opressivas.

Por isso, os piratas são a fonte de investigação e inspiração de Peter e a sua “utopia” de resistência. É bom ressaltar que o autor pondera sobre a eficácia dessas sociedades desenvolvidas pelos piratas e reconhece o seu fenecimento; no entanto, reafirma a importância do exemplo histórico dos Renegados para inspirar aqueles e aquelas que desejam adentrar os “pesadelos da civilização”. Além disso, a obra ajuda a construir uma historiografia a contrapelo, que permita visualizar os silenciamentos e as desfigurações históricas empreendidas por uma tradição historiográfica pautada pelo olhar das classes dominantes.


Texto publicado originalmente no Outras Palavras. Editado para português de Portugal pelo Esquerda.net.

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