“União Europeia foi o acelerador de partículas” para o crescimento das forças xenófobas

01 de setembro 2018 - 0:16

A sessão de abertura do Fórum Socialismo 2018 discutiu a austeridade, o Brexit e a responsabilidade das políticas da União Europeia no avanço da extrema-direita.

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Sessão de abertura do Fórm Socialismo, qe decorre até domingo, 2 de setembro, na Escola Superior de Educação e Ciências Sociais de Leiria

O Fórum Socialismo arrancou na noite de sexta-feira em Leiria com intervenções das eurodeputadas Marisa Matias e Martina Anderson, do Sinn Féin, e do dirigente bloquista Luís Fazenda. Até domingo, vão decorrer mais de 50 debates na Escola Superior de Educação e Ciências Sociais de Leiria.

A austeridade e a xenofobia na Europa eram o tema da sessão e Marisa Matias foi a primeira a destacar a forma como “o discurso da invasão [de migrantes e refugiados] começa e entrar no discurso oficial da União Europeia”, que aprova em documentos oficiais “a criação de campos de internamento para refugiados”, com o aval de Merkel. “Bastou um veto de Salvini para que todos os governos aceitassem estes campos de internamento para refugiados”, recordou Marisa, acrescentando que “todos os países têm direito de veto, incluindo o português que acabou por assinar o decreto”. E tudo aconteceu no momento em que se regista uma “redução drástica da chegada de migrantes à Europa”, que corresponde a uma queda de 95% desde 2012.

“O programa que une estas forças é restaurar sociedade branca, heterossexual e patriarcal”, apontou Marisa, para quem essa política populista “é uma política de sarjeta, do quanto pior melhor”.

Com programas económicos que “têm pouco em comum” entre as forças da extrema-direita dos vários países, “o programa que une estas forças é restaurar a sociedade branca, heterossexual e patriarcal”, apontou Marisa, para quem essa política populista “é uma política de sarjeta, do quanto pior melhor”.
 
Marisa apontou ainda como exemplo dessa política a aliança entre o ministro italiano Salvini e o primeiro-ministro húngaro Órban: “um quer que os países da UE acolham os migrantes, o outro não quer receber nenhum. Quer para um quer para outro, seria melhor que os migrantes morressem no Mediterrâneo ou nem sequer lá chegassem”.

A imposição da austeridade por parte do centro da Europa à sua periferia, com o caso grego a servir de exemplo, foi o pretexto para recordar a mensagem de Mário Centeno ao povo grego. “Não foi Centeno que entrou no Eurogrupo, foi o Eurogrupo que entrou em Centeno. Ou melhor, o Eurogrupo nunca saiu de Centeno”, sublinhou Marisa, lembrando que “o seu programa sempre foi o da austeridade” e só não foi aplicado por causa das “imposições da esquerda e em particular às imposições do Bloco”. “Se dependesse do programa de Mário Centeno estaríamos ainda em ajustamento permanente”, concluiu, antes de defender uma “recuperação da soberania que seja progressista” e que passe pelo reforço das democracias e dos direitos sociais.

“Não podem neutralizar o papel da União Europeia no crescimento da extrema-direita”

O tema do avanço da extrema-direita foi retomado por Luís Fazenda, que respondeu aos que afirmam que o fenómeno da emergência desse campo político não é exclusivo da União Europeia. Para o dirigente bloquista, os elementos que prepararam o terreno ao crescimento do fascismo na Europa, como o empobrecimento, as privatizações, o desmantelamento dos serviços públicos ou o desemprego, foram aprofundados com as receitas prescritas por Bruxelas.

“A estrutura da União Europeia foi o acelerador de partículas disto tudo”, resumiu Fazenda, apontando o dedo à UE por ter “uniformizado políticas independentemente das condições internas de cada estado membro”.

“A União Europeia não é a mãe da extrema-direita, mas é o acelerador das suas políticas”, prosseguiu o dirigente bloquista, insistindo que não se pode tentar agora “neutralizar o papel da UE” no crescimento da forças mais reacionárias.

“A União Europeia não é a mãe da extrema-direita, mas é o acelerador das suas políticas”, prosseguiu o dirigente bloquista, insistindo que não se pode tentar agora “neutralizar o papel da UE” no crescimento da forças mais reacionárias. “Os direitos inscritos nos tratados podem travar esse avanço? A resposta é não”, sublinhou.

“A UE não tem servido para nada no sentido de ser um freio à extrema-direita. E está à beira da auto-desintegração”, defendeu Fazenda, lembrando que em 2000, quando Portugal ocupava a presidência da UE, António Guterres procurou impor sanções quando a extrema-direita chegou ao governo na Áustria. Para além da agitação política dos primeiros meses, nada aconteceu, e  “aquilo era uma brincadeira quando comparado ao que temos hoje na Hungria, Polónia ou Áustria”.

Se “o Brexit foi um momento de confrontação da UE consigo própria”, o risco de desintegração pode surgir “do conflito dos nacionalismos” que levem a que “os instrumentos parafederais da UE possam entrar em default”, previu Luís Fazenda.

Para combater o avanço das forças que “já lideram quase metade dos países da UE, os democratas têm de ouvir o apelo de unidade”, defendeu Fazenda, criticando quem tenta “erguer muralhas” entre os sectores mais críticos e mais entusiastas da UE: “é necessária a aliança de todos os democratas, mais à esquerda ou mais ao centro” no combate a um fenómeno que “é sempre um prenúncio de conflito bélico”.
   
Por isso, “o que temos pela frente não é a discussão do Orçamento do Estado a quatro anos ou o destino dos fundos europeus”, mas sim “saber onde queremos repousar a democracia, a Constituição e o futuro do povo português”, concluiu Fazenda.

“Brexit é incompatível com os acordos de paz na Irlanda do Norte”

A convidada internacional desta sessão foi a eurodeputada irlandesa Martina Anderson, que procurou estabelecer a ligação entre o Brexit, a xenofobia, a austeridade e o nacionalismo.

“O Brexit nasceu para legitimar a xenofobia”, defendeu Martina Anderson, sublinhando que foram as forças mais xenófobas que se empenharam na campanha pela saída do Reino Unido da UE. E lembrou a deputada trabalhista Jo Cox, assassinada aos gritos de “Britain First” por um elemento da extrema-direita. “Este ‘Britain First’ é o mesmo que o ’Europe First’ ou o ‘Refugees Out’ que transforma o Mediterrâneo num cemitério, que constrói o ódio xenófobo”, acusou.

“Houve muita gente, como eu, libertada da prisão por causa desse acordo. Nós sabemos por o que passámos e não vamos deixar os defensores do Brexit porem em causa a paz que conseguimos”, acrescentou a eurodeputada que foi presa política durante mais de 13 anos.

Para Martina Anderson, “o Brexit é um desastre absoluto no que toca à Irlanda e é incompatível com os acordos de paz na Irlanda do Norte”. A questão do regresso da fronteira que divide a Irlanda é um dos pontos de discórdia das negociações do Brexit, com implicações no processo político “que ainda estamos a atravessar”, prosseguiu. “Houve muita gente, como eu, libertada da prisão por causa desse acordo. Nós sabemos aquilo por que passámos e não vamos deixar os defensores do Brexit porem em causa a paz que conseguimos”, acrescentou a eurodeputada que foi presa política durante mais de 13 anos.

Sobre o avanço da extrema-direita na Europa, Martina Anderson atribuiu uma parte da responsabilidade às organizações de esquerda que, ao contrário do Sinn Féin, não reclamam o nacionalismo progressista como bandeira política. “A esquerda não fez o suficiente para impedir que as pessoas que lutavam começassem a culpar os migrantes, os refugiados, o outro pelos problemas, em vez de culparem os seus governos”, apontou Martina, contrapondo que “a razão para que a extrema-direita não cresce na Irlanda é o Sinn Féin”, por não ter abandonado o espaço político nacionalista aos xenófobos.