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União Europeia olha atónita como o pânico se estende a Itália e Espanha

Só quando se entender que nenhum governo à face da terra pode dar-se ao luxo de pagar juros de 30%, as autoridades monetárias da UE chegarão à idade da razão. Até esse momento, as pedras do dominó europeu vão continuar a cair. Por Marco Antonio Moreno.
Valor dos CDS da Itália

Com o destino da moeda única cada vez mais incerto, os líderes europeus viram como ontem os mercados abalaram novamente as bolsas, derrubando os principais indicadores. A Itália moveu-se a uma velocidade alarmante colocando-se no epicentro do contágio, com a agravante de que a sua dívida é equivalente ao dobro das dívidas combinadas de Grécia, Irlanda e Portugal. O resgate da terceira economia da Eurozona é algo impossível e poderia provocar o fim da moeda única muito antes de qualquer prognóstico.

Culparão os italianos de serem frouxos, bêbados e corruptos, como tende a ser feito habitualmente com os gregos? Empregar-se-ão esses mesmos adjectivos quando a crise bater fundo na Espanha? Como adverti em numerosos artigos, a situação financeira é ingovernável, dado que toda a estrutura financeira foi sequestrada pelo fraudulento esquema 'ponzi' de criar dinheiro a partir do nada. Como adverti, esta crise só terminará quando colapsar todo o actual sistema financeiro.

A incapacidade da UE, do BCE e do FMI para criar uma estratégia comum de contra-ataque à crise, despertou todos os medos nos investidores e especuladores que vêem a total e inevitável vaporização dos seus capitais. Este autêntico tsunami da crise de crédito não faz mais que levar a um maior desemprego e a um menor crescimento, dada a redução dos fluxos financeiros que os próprios governos induzem com os seus planos de austeridade.

O diferencial dos títulos de dívida pública italianos elevou-se ao maior nível desde a criação da moeda única. O Intesa SanPaolo, o maior banco de Itália em activos, caiu 7,7%, enquanto o UniCredit, o segundo banco da península, perdeu 7,9%. Estes dois bancos perderam cerca de 30% do seu valor de mercado nos últimos três meses, ao verem-se afectados pelos altos níveis de crédito mal parado.

Ao contrário dos bancos alemães e franceses, os bancos italianos têm uma alavancagem de 18 para 1 (os bancos alemães têm quase o dobro de alavancagem), mas o núcleo de negócios dos bancos italianos centra-se em clientes de toda a vida, um modelo que se encontra sob forte pressão pela dificuldade global de cumprir os pagamentos.

A dívida italiana chega a 120% do PIB, uma situação que o governo poderia gerir perfeitamente se as taxas de juro fossem baixas e se os títulos de dívida via CDS se mantivessem em níveis razoáveis. Mas (ainda que seja um lema que já se tornou piada pelo evidente pulsar nervoso desta crise) a avareza dos mercados é mais forte.

Uma coisa que os humoristas económicos ainda não entendem é que até a Grécia, um país que tem ainda de pagar pelas armas que os governos anteriores compraram à França e à Alemanha, poderia muito bem pagar a dívida se os juros dos títulos soberanos tivessem uma taxa mais reduzida. Mas nada se pode fazer com juros que superam os 30%, dado que esse crescimento exponencial tira a dívida de qualquer equação real. Só quando se entender que nenhum governo à face da terra pode dar-se ao luxo de pagar estes juros, as autoridades monetárias da UE chegarão à idade da razão. Até esse momento, as pedras do dominó europeu continuarão a cair. A escalada destas taxas usurárias para Itália e Espanha estão no seu começo. Quanto tardará a UE e o BCE a terminar com os CDS?

Artigo de Marco Antonio Morenopublicado em El Blog Sálmon,traduzido por Carlos Santos para esquerda.net

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