Na passada quinta-feira, o Senado argentino impôs uma pesada derrota ao ultra-liberal presidente do seu país. Por 59 votos a nove, com três abstenções, o veto que este tinha imposto a um projeto que obrigava o governo a atribuir mais recursos às províncias foi derrubado.
A lei que agora será aplicada faz com que os recursos federais sejam distribuídos automaticamente através de um mecanismo denominado Contribuições do Tesouro Nacional. Tinha consenso dos 23 governadores de província e do chefe do governo autónomo de Buenos Aires que com ela procuravam escapar à atribuição discricionária de verbas consoante a fidelidade política e os congelamentos.
Milei tinha considerado tratar-se de uma armadilha para ultrapassar os seus cortes orçamentais.
No dia anterior, tinha sido a Câmara dos Deputados a rejeitar outros dois vetos presidenciais. O veto ao projeto para aumentar investimento nas universidades foi chumbado com 174 deputados contra, 67 a favor e duas abstenções.
O veto ao projeto de atribuir mais recursos ao Hospital Pediátrico de Garrahan, em Buenos Aires teve 181 votos contra, 60 a favor e uma abstenção.
As votações ocorreram no mesmo dia em que milhares de pessoas se manifestavam em Buenos Aires contra Milei. O destaque na manifestação foi dado aos trabalhadores do hospital Pediátrico em questão na votação mas também lá estiveram trabalhadores de outros setores, oa despedidos por Milei, estudantes e reformados. Todos contra a política da motosserra e as suas pesadas consequências sociais. Na altura das votações, houve festa na praça em frente ao Congresso.
Para estas duas anulações de vetos se concretizarem, terão ainda que ser ratificadas no Senado. Mas aí o partido presidencial ainda está mais em minoria.
Estes reveses ocorrem num contexto em que Milei tinha já saído vencido das eleições legislativas da Província de Buenos Aires, a maior do país e na qual tinha prometido esmagar a oposição. Acabou claramente derrotado pelos peronistas de centro-esquerda do Força Pátria.
Do ponto de vista financeiro, os resultados também são maus com o Banco Central a ser obrigado a intervir no mercado cambial, vendendo 53 milhões de dólares em reservas porque o dólar argentino subiu acima do preço limite que tinha sido acordado com o Fundo Monetário Internacional. Os títulos em dólares argentinos caíram até 3%. Estes indicadores estão ser vistos ainda como sinais do fim da lua de mel entre fundos de investimento e especuladores e o governo.
Ao mesmo tempo, um caso de corrupção atinge a sua irmã, Karina Milei, figura da qual o presidente não só é muito próximo mas que também é a sua Secretária Geral da Presidência.
As eleições nacionais intercalares que acontecerão a 26 de outubro serão um teste decisivo.