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Uma nova era de escravidão digital

O sociólogo brasileiro Ricardo Antunes enviou ao X.º Encontro Nacional do Trabalho do Bloco de Esquerda, que decorre neste sábado, uma mensagem onde se debruça sobre “a expansão do que podemos denominar como uberização do trabalho”.
Robôs industriais - Foto de 2015, wikimedia

Impossibilitado de estar presente no X.º Encontro Nacional do Trabalho do Bloco de Esquerda, por motivo de saúde, o sociólogo brasileiro Ricardo Antunes enviou, como mensagem ao encontro, o texto, que publicamos abaixo. Nele, escreve sobre "o advento de uma nova era de escravidão digital, que se combina com a expansão explosiva dos intermitentes globais" e assinala que parece expandir-se no mundo “os precários, os intermitentes globais, os supérfluos que compreendem uma parcela importante do novo proletariado, especialmente nos serviços”.

Uma breve nota” de Ricardo Antunes*

Estamos em uma fase tão destrutiva do capitalismo financeiro que a exigência que sua lógica tenta nos impor, em escala planetária, é a do trabalho cada vez mais flexível, sem jornadas pré-determinadas, sem espaço laboral definido, sem remuneração fixa, sem direitos, nem mesmo o direito de organização sindical. É desse modo que o capitalismo informacional, digital e financeiro vem aprimorando sua engenharia da dominação.

É por isso que estamos presenciando a expansão do que podemos denominar como uberização do trabalho, que se tonou um leitmotiv do mundo empresarial. Como o trabalho on line fez desmoronar a separação entre o tempo de vida no trabalho e fora do trabalho, floresce uma nova modalidade de trabalho que combina mundo digital com sujeição total ao ideário e à pragmática das corporações. O resultado mais grave desta processualidade é o advento de uma nova era de escravidão digital, que se combina com a expansão explosiva dos intermitentes globais. Contra a rigidez vigente nas fábricas do século do automóvel, durante o longo século XX, nas últimas décadas os capitais vêm impondo uma nova trípode destrutiva em relação ao trabalho: a terceirização, a informalidade e a flexibilidade, partes inseparáveis do léxico das empresas corporativas e suas novas cadeias produtivas de valor.

E tudo isso, em nosso entendimento (como apresentamos em nosso livro O Privilégio da Servidão, no prelo pela Ed. Boitempo) tende a se acentuar e se agravar com a denominada Indústria 4.0. Propositura que nasceu na Alemanha, em 2011, concebida para gerar um novo e profundo salto tecnológico no mundo produtivo, estruturado a partir das novas tecnologias de informação e comunicação que se desenvolvem celeremente, ela significará a intensificação dos processos produtivos automatizados, em toda a cadeia geradora de valor, de modo que a logística empresarial será toda controlada digitalmente. Pode-se imaginar, no Brasil em plena fase de contrarrevolução, com mais de 13 milhões de desempregados, o que isso significará...

Em nossa opinião, sua principal consequência para o mundo do trabalho será a ampliação do trabalho morto, tendo o maquinário digital – a “internet das coisas”- como dominante e condutor de todo processo fabril, e a consequente redução do trabalho vivo, através da substituição das atividades tradicionais e mais manuais por ferramentas automatizadas e robotizadas, sob o comando informacional-digital.

Tendo sido concebida pelos países capitalistas centrais, mais robôs e máquinas digitais invadirão definitivamente a produção, tendo as tecnologias da informação e comunicação como comandantes desta nova fase de subsunção real do trabalho ao capital, que converteu também o setor de serviços como potencialmente produtivo e, portanto, capaz de valorizar o capital.

Os intermitentes globais (camada do proletariado que se expande celeremente) tendem a se ampliar ainda mais, em seus polos mais qualificados informacionalmente, ao mesmo tempo em que o processo tecno-informacional-digital eliminará de forma crescente uma quantidade incalculável de força de trabalho que se tornará supérflua e sobrante, sem empregos, sem seguridade social e sem nenhuma perspectiva de futuro. Só para dar dois exemplos, Portugal e Brasil com suas abissais diferenças, encontram-se na lista dos mais prejudicados.

Isso porque a Indústria 4.0, significa, segundo seus formuladores, uma nova fase da automação que se diferencia da Revolução Industrial do Século XVIII, do salto dado pela indústria automotiva do século XX, e também da reestruturação produtiva que se desenvolveu a partir da década de 1970. A estas três fases anteriores, sucederá uma nova, que consolidará, sempre segundo a propositura empresarial, a hegemonia informacional-digital no mundo produtivo, com os celulares, tablets, smartphones e assemelhados controlando, supervisionando e comandando esta nova fase da cyber-indústria do século XXI.

Não é difícil antecipar que a divisão internacional do trabalho entre Norte e Sul, centro e periferia, tenderá a se aprofundar ainda mais, seguindo um movimento que, sendo desigual e combinado, atingirá de forma diferenciada a totalidade dos países, aprofundando a expulsão de força de trabalho em um patamar ainda maior que o atual. E aqui, Portugal, sendo uma metrópole periférica e o Brasil, constituindo-se como do uma periferia que já quis ser (sub)império, não estarão da fila dos países beneficiados por essa nova pragmática.

Para amenizar a tragédia social ainda maior que se avizinha, o novo dicionário “corporativo” não faz outra coisa senão ressignificar (em verdade adulterar) o autêntico conteúdo das palavras, tornando-as corriqueiras no dialeto empresarial: “colaboradores”, “parceiros”, “sinergia”, “resiliência”, “responsabilidade social”, “sustentabilidade”, “metas”.

E, quando entram em cena os enxugamentos, as reestruturações, as “inovações tecnológicas da indústria 4.0”, enfim, as reorganizações comandadas pelos que fazem a “gestão de pessoas” e os que formulam as tecnologias do capital, o que temos é mais precarização, mais informalidade, mais subemprego, mais desemprego, mais intermitentes, mais eliminação de postos de trabalho, menos pessoas trabalhando com os direitos preservados. Para tentar “amenizar” esse flagelo, se propaga em todo canto um novo subterfúgio: o “empreendedorismo”, onde todas as esperanças são apostadas e nunca se sabe qual será o desfecho final. E o trabalho “voluntário” torna-se consolo imposto de modo quase compulsório. Duas imposturas, quando se pensa em uma sociedade de novo tipo, ainda que perfeitamente compreensíveis para aquele/as que os praticam.

As contradições, então, na param de aflorar: ao mesmo tempo em que se amplia o contingente global de trabalhadores e trabalhadoras qualificados e flexíveis, digitalizados e intermitentes, nativos e imigrantes, há, simultaneamente, uma redução monumental dos empregos.

E aquele/as que os que se mantêm empregados presenciam a corrosão cada vez maior de seus direitos sociais e do trabalho. Seja nos call center, telemarketing, hotelaria, hipermercados, fast food, grande comércio, fábricas flexíveis e empresas em geral, estamos longe daquilo que o ideário dominante pomposamente denomina como “nova classe media”. O que de facto parece se expandir explosivamente pelo mundo são os precários, os intermitentes globais, os supérfluos que compreendem uma parcela importante do novo proletariado, especialmente nos serviços. E que, exatamente por estas condições, também se rebelam. E aqui há um desafio crucial para a esquerda.


* Ricardo Antunes é professor Titular de Sociologia do Trabalho na UNICAMP. Foi em 2017 Visiting Professor na Universidade Ca’Foscari (Veneza, Itália). É autor, entre outros livros, de Os Sentidos do Trabalho (Ed. Almedina, publicado também no Brasil, Argentina, EUA, Holanda/Inglaterra, Itália e Índia.

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