Uma multidão manifestou-se contra o governo polaco de extrema-direita

05 de junho 2023 - 14:50

A manifestação deste domingo foi convocada pela Plataforma Cívica, de direita, mas toda a oposição se juntou. A promulgação a semana passada de uma lei sobre a “influência russa” que poderá permitir afastar opositores ao governo trouxe ainda mais gente para as ruas.

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Foto de @ikatarasinska/Twitter.

Terão sido mais de 500 mil as pessoas que saíram às ruas da Varsóvia este domingo contra o governo de extrema-direita do PiS, segundo os números da Câmara Municipal local. Muitas outras nas várias cidades da Polónia para onde estavam marcadas marchas. Um mar de gente que trouxe cartazes e palavras de ordem como “estamos fartos”, “PiS deixa-nos em paz”, “União Europeia sim, PiS não”, “Polónia livre”, “era melhor a democracia” ou “se quisesse viver na Bielorrússia, mudava-me”.

Os manifestantes criticam a incapacidade do governo polaco em reagir à subida da inflação, mas também a sua ofensiva ultra-conservadora contra os direitos das mulheres e da comunidade LGBTI+. Outra das suas preocupações é com os vários ataques ao estado de direito. O Partido da Lei e da Justiça tem atacado a independência do sistema judicial e as vozes dissonantes na academia e a sua última ofensiva é a lei sobre a “comissão sobre a influência russa”, um órgão extra-judicial com poderes amplos. A oposição teme que o expediente da acusação de estar sob a alçada do Kremlin e o carácter vago do princípio nela consignado de “agir em detrimento dos interesses da República da Polónia” sejam utilizados para cercear liberdades e impedir candidatos de concorrer nas eleições que se avizinham ou afastar quem já esteja eleito em vários órgãos. As críticas internacionais fizeram-se sentir e Andrzej Duda, o presidente da República, acabou por promulgar a lei, mas anunciou na passada sexta-feira que seria preciso emendá-la.

A jornada deste domingo tinha sido convocada pelo partido Plataforma Cívica, de direita, e pretendia assinalar o aniversário das eleições ganhas pelo Solidariedade em 1989. Mas ultrapassou em muito esse âmbito, com os vários partidos da oposição e muitos sindicatos a juntaren-se. À esquerda, a coligação Lewica Razem foi uma das formações que marcou presença, vendo no protesto sinais de esperança na mudança dos destinos do país.

O líder da Plataforma Cívica, Donald Tusk, ex-primeiro-ministro e ex-presidente do Conselho da Europa, procura assumir-se como a figura principal da oposição e os seus apoiantes dizem que a lei sobre a “influência russa” se lhe dirige, procurando torná-la conhecida como a “lei Tusk”. Este aproveitou o sucesso da mobilização para se apresentar como o campeão da luta democrática, declarando que “estamos prontos para lutar pela democracia e liberdade outra vez, como fizemos há 30, 40 anos”.

Do lado do atual poder, o PiS declarou tratar-se de uma “marcha do ódio”. O primeiro-ministro, Mateusz Morawiecki, disse que “as velhas raposas estão a organizar uma marcha antigovernamental e a apresentá-la como uma manifestação espontânea”. E o presidente do partido do governo dramatiza as próximas eleições, afirmando que uma vitória da oposição nas próximas eleições seria “o fim da Polónia”.

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