São cada vez mais os portugueses sem médico de família e cada vez menos os jovens médicos que concorrem a um lugar nos concursos abertos pelo Estado. Desta vez, ficaram preenchidas 291 das 459 vagas a concurso, o que representa uma queda face a 2020 - 319 médicos recrutados em 435 vagas - e a 2019 - 305 em 398 vagas. Ou seja, apesar do número de vagas abertas a concurso ter sido o maior dos últimos três anos, o número de candidatos foi o mais baixo deste período. No sentido inverso, o número de utentes sem médico de família estava a baixar até 2018, mas voltou a aumentar desde então, voltando a ultrapassar a fasquia de um milhão de utentes.
Em entrevista á SIC, a ministra da Saúde confirmou os números e destacou o padrão diferente da resposta dos médicos consoante a região. Enquanto no Norte todas as vagas abertas foram preenchidas, no Centro ficaram seis vagas por ocupar. Mas na região de Lisboa e Vale do Tejo mais de metade das vagas ficaram por preencher e no Alentejo e Algarve cerca de 40% das vagas não tiveram candidatos. Marta Temido explicou esta discrepância com a maior concentração de unidades de saúde familiar no Norte e também a "um padrão de formação dos especialistas que é concentrado na região Norte”.
Citado pelo Público, o presidente da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar diz que “o que aconteceu era o que se esperava, mas este ano ainda foi um bocado pior do que o habitual”. Para Nuno Jacinto, o problema está na falta de atratividade destas vagas para os especialistas acabados de formar, mas na sua maioria já com família constituída. Estes preferem ir trabalhar à tarefa ou no setor privado enquanto esperam por uma vaga perto do local de residência. “Alguém que fez a sua formação [internato de cinco anos] no Porto, vai de repente para 300 ou 400 quilómetros de distância? Alguém está disposto a ir para um local desorganizado, onde faltam médicos, não há condições, instalações físicas adequadas, equipamentos?”, pergunta Nuno Jacinto.
Para a Federação Nacional dos Médicos (FNAM), a responsabilidade é do Governo, “que insiste em não apoiar devidamente o SNS e os seus médicos de família, completamente assoberbados com listas de utentes sobredimensionadas, num contexto em que é necessário conciliar o acompanhamento habitual aos seus utentes com a recuperação da atividade que não se realizou em 2020 e 2021, o atendimento e rastreio de casos suspeitos de covid-19 nas Áreas Dedicadas a Doentes Respiratórios e o apoio nos centros de vacinação”.
Em comunicado citado pela agência Lusa, a FNAM diz que o défice na fixação de médicos de família no SNS vai deixar mais 200 mil utentes sem um profissional dedicado ao seu acompanhamento. Para inverter esta situação, a federação sindical defende que se deve “investir diretamente em condições de trabalho adequadas” para os médicos no setor público da Saúde e assim evitar a perda de profissionais altamente qualificados.