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Um corpo social em decomposição da Paris revolucionária para os dias de hoje

A Morte de Danton, clássico teatral de Georg Büchner sobre a Revolução Francesa, está em cena no TNSJ no Porto, numa encenação que reflete sobre os paralelos entre a "convulsão e decomposição" do século XVIII e os dias de hoje.
Cena de A Morte de Danton, em cena no TNSJ até 29 de setembro de 2019. Foto: tnsj.pt.
Cena de A Morte de Danton, em cena no TNSJ até 29 de setembro de 2019. Foto: tnsj.pt.

Revolução, luta de classes, liberdade, igualdade, fraternidade, guilhotina — imagens que a Revolução Francesa inscreveu no imaginário universal e Georg Büchner imortalizou no clássico teatral A Morte de Danton, que o encenador Nuno Cardoso transpôs para os tempos de hoje no palco do Teatro Nacional São João (TNSJ), no Porto.

A 5 de abril de 1794, Georges Danton morre aos 34 anos na guilhotina em Paris, num dos episódios icónicos do período do Terror revolucionário. Três meses mais tarde, Maximilien Robespierre teria o mesmo destino, encerrando o período do Terror e inaugurando a reação Termidoriana, ponto em que a burguesia financeira tomou o poder e afastou o povo da linha da frente do processo revolucionário. Quatro décadas depois, em 1835, um jovem escritor e dramaturgo alemão de nome Georg Büchner fixava em A Morte de Danton novos caminhos para a dramaturgia, num texto repleto de citações de discursos políticos e relatos históricos. Büchner morreria apenas dois anos depois, aos 23 anos. O seu texto, publicado originalmente com muitas passagens censuradas, não foi levado a palco até 1902, quando a companhia precursora do atual Volksbühne, farol do experimentalismo teatral, o levou à cena em Berlim.

Mas a "feroz fragmentação da forma teatral tradicional" que Büchner inaugurou, nas palavras de apresentação do TNSJ, lançando "cenas curtas e longas, agitadas e meditativas num entrechocado fluxo narrativo que antecipa a montagem cinematográfica", acabou por fixar a Morte de Danton no cânone teatral ao longo do século XX.

Entre a Paris da Revolução Francesa e os dias de hoje há pontes que instam à reflexão. As ruas de Paris do séc. XVIII, onde Nuno Cardoso vê "um corpo social em permanente estado de convulsão e decomposição, uma orgia de carne humana", são "as mesmas por onde corre agora a revolta dos Coletes Amarelos" e "desaguam nas margens do Mediterrâneo ou do Rio Grande, no regresso dos muros, na potência do ódio, no avanço dos populismos", afirma o texto de apresentação da peça.

Em declarações ao suplemento Ípsilon do jornal Público, Nuno Cardoso elabora sobre a relevância hoje da Morte de Danton, e como materializá-la em cenário e dramaturgia: "Acima de tudo, o que me preocupa é a distância entre as pessoas que exercem o poder e as pessoas a quem o poder efetivamente pertence". Hoje, afirma, "o divórcio é mútuo: os que exercem o poder já só vagamente reconhecem que é o povo, por delegação, que lhes dá mandato, e os que delegaram o poder já não o reconhecem como seu". Daí "a fissura gigantesca, insanável, que está no cenário" de inspiração industrial em betão patente no TNSJ. Fissura por onde entram "os Trump e as Le Pen, os Bannon, os Boris Johnson, os Salvini, os Bolsonaro. Entram para estoirar a base do que é nosso, o que, numa construção como o Estado, que é sobretudo racional, é mortal".

Estreada no passado dia 24, a Morte de Danton segue em cena no TNSJ até 29 de setembro. Mais tarde, terá apresentações em Braga (Theatro Circo, 4 de outubro), Aveiro (Teatro Aveirense, 18 de outubro), e Lisboa (Teatro Nacional D. Maria II, 9 a 19 de janeiro).

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