A Ucrânia entre os seus oligarcas e os imperialismos “protetores”

07 de abril 2014 - 23:36

A Rússia aumenta os preços do gás; o FMI oferece uma “ajuda” acompanhada de exigências socialmente insustentáveis. A população irá pagar o preço desta rivalidade, a menos que se levante de novo. Por Catherine Samary.

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As potências dominantes temem que os “de baixo” fujam ao controlo diante de políticas socialmente agressivas. Foto de spilt.exile, FlickR

A Gazprom anunciou na sexta 28 de março a anulação unilateral de todos os descontos concedidos à Ucrânia, que se encontra à beira de cessar os pagamentos. A “ajuda” do FMI – sobre a qual se apoia a UE – é acompanhada de exigências socialmente insustentáveis. Será a população a pagar esta rivalidade das “proteções” envenenadas, a menos que se levante de novo, encontrando a sua unidade contra todas as relações de dominação, num processo de autodeterminação respeitoso da sua diversidade e de uma igualdade dos direitos sociais e culturais.

A mobilização militar russa e o referendo precipitado na Crimeia foram impostos por Putin em nome da urgência de uma “proteção” contra um “putsch fascista” em Kiev, supostamente ameaçador para todas as populações russófonas. Por trás das rivalidades e dos falsos jogos de poker geopolíticos, há interesses comuns que aproximam as potências dominantes, entre as quais o medo de que os “de baixo” fujam ao controlo diante de políticas socialmente agressivas. E foi uma situação largamente descontrolada pelos “de cima”, e não um “putsch”, que marcou o fracasso dos compromissos negociados em 21 de fevereiro em Kiev, produzindo a fuga do presidente e a mudança de posição de uma parte substancial do aparelho e dos oligarcas, e portanto dos deputados do Partido das Regiões.

O “governo de União” muito provisório foi escolhido sob pressão de Maidan, sem clareza nem representatividade do conjunto do país: a sua democratização passa por uma verdadeira Assembleia Constituinte e pelo confronto dos programas. É portanto na incerteza constitucional e na opacidade política das mudanças de etiqueta superficiais que vão ocorrer as próximas eleições presidenciais previstas para 25 de maio.

Mutação da extrema-direita?

Os diplomatas ocidentais, muito contentes de exibir o seu apoio hipócrita a “Maidan”, apontada simplesmente como “pró-europeia”, sem se dissociarem da extrema-direita e das suas práticas, confrontam-se hoje com formações que se tornaram embaraçosas. Algumas procuram transformar-se num sentido “respeitável”, tendo em vista as alianças e as cadeiras no parlamento1, enquanto certas componentes ou membros se mantêm refratários a estas institucionalizações. A extrema-direita diferencia-se também (como à escala internacional) em função do “inimigo principal” do momento e da grelha ideológica que funda a “nação”.

Na prática, o Pravy Sektor (Setor de Direita), cujos membros não hesitam em exibir as siglas SS, transformou-se em partido político e o seu comandante-em-chefe, Dmitry Iarosh, declarou-se candidato à Presidência do país. Para contrariar a propaganda de Moscovo dirigida às populações russófonas, ele põe a tónica, nas regiões do Leste, na independência da Ucrânia e na sua neutralidade, contra qualquer a reaproximação à UE2 (“decadente”), assim como à Rússia. O outro partido de extrema-direita, Svoboda, que tem mais de 10% das cadeiras do Parlamento, tomou posição contra os russófonos “asiáticos”, a favor da Ucrânia “europeia”, custando-lhe essa posição a rutura com o Front National [francês], do qual era próximo. A tese do complot judeu internacional, supostamente infiltrado em todas as formações “pró-europeias” domina na Internet as análises da direita russa contra o “golpe fascista” de Kiev.

Crescem as tensões entre o ministro do Interior Arsen Avakov e os grupos de extrema-direita: o Parlamento exigiu o desarmamento destes grupos e o Pravy Sektor acusa Avakov de dar cobertura ao assassinato de um outro dirigente da sua organização, Alexander Muzychko. Este foi encontrado no dia 24 de março crivado de balas. Era, como Dmitri Iarosh, acusado por Moscovo e havia um mandado de prisão internacional contra ele, pelo alegado papel na tortura e no assassinato de prisioneiros russos durante a primeira guerra da Chechénia de 1994 a 1996, suspeito de instigar os atentados antirrussos na Chechénia para evitar o intervencionismo russo na Ucrânia.

O que está realmente em causa?

Outros jogos opacos não se desfazem com a proximidade das eleições: são os oligarcas que controlam o poder ucraniano e os partidos, o que dá ao país um certo pluralismo, inclusive mediático, diferente de uma Rússia onde o Estado putiniano controla os oligarcas. Segundo as estimativas do sociólogo Volodymyr Ishchenko, em Kiev “o candidato mais sério às eleições presidenciais de 25 de maio não é outro senão Petro Porochenko, o 'rei do chocolate', um dos homens mais ricos do país...”3 em benefício do qual acaba de desistir o antigo boxeador Klitschko. A impopularidade dos presumidos “dirigentes” de Maidan arrisca confirmar-se, incluindo a da adversária do antigo presidente, Iulia Tymochenko, porta-voz da “Revolução Laranja” de 2004 e que a UE esperava que mantivesse a popularidade.

Em todo o caso, a Ucrânia está confrontada, como em novembro, aos conflitos geopolíticos e energéticos entre grandes potências e interdependentes, tendo entretanto afirmado a sua relação de forças. O primeiro-ministro russo, Dmitri Medvedev, indicou à Gazprom que as ofertas feitas em dezembro último ao presidente deposto Ianukovich tinham caducado. Para além de ter posto em causa o empréstimo russo de 15 mil milhões de dólares “sem condições”, a Ucrânia terá de comprar o seu gás russo não à tarifa de 268 dólares por mil metros cúbicos, mas sim à de 485 dólares por metro cúbico. Contas feitas ao atraso do pagamento, Moscovo avalia em 11 mil milhões de dólares as dívidas da Ucrânia em relação à Rússia.

“Um dos aspetos mais chocantes da ajuda russa é que ela permitiria ao poder de libertar-se de um programa do FMI”, dizia o Figaro de fim de fevereiro4, nada chocado por um tal programa. Um mês mais tarde, o mesmo jornal, porém, anuncia: “O resgate do FMI será doloroso”. O Fundo concederá entre 14 e 18 mil milhões de dólares, negociando a dois anos outras possíveis parcelas, chegando ao total de até 28 mil milhões. “Em contrapartida, a empresa pública Naftogaz anunciou um aumento de 50% dos preços do gás a partir do 1.º de maio. Os salários e as reformas dos funcionários serão congelados”.

Se neste contexto a Rússia oferece – como na Crimeia – tarifas preferenciais e direitos sociais às populações russófonas, isso irá afetar, mais do que através do seu exército, a unidade do país. Moscovo utiliza esta ameaça para preconizar uma federalização da Ucrânia e para afastá-la de qualquer aliança com a NATO. A armadilha seria de assumir um contraponto “unitarista” e euro-atlantista, em lugar de transformar estas propostas em real processo democrático de Assembleia Constituinte sob o controlo popular, ancorado nos direitos sociais e culturais igualitários, dirigidos nomeadamente às populações tártaras da Crimeia. O trunfo da Ucrânia é a popularidade da sua independência na diversidade das culturas. É preciso consolidá-la contra todas as relações de dominação.

5 de abril de 2014

Catherine Samary

Publicado em Europe Solidaire Sans Frontières

Tradução de Luis Leiria para o Esquerda.net

1 Ver Le Monde «Les nationalistes ukrainiens, du treillis au costume », 28/03.

3 Monde Diplomatique de Abril, « l’Ukraine, d’une oligarchie à l’autre », de Jean-Arnault Dérens et Laurent Geslin http://www.monde-diplomatique.fr/2014/04/DERENS/50334

4 «FMI, Union européenne : qui va payer pour l’Ukraine?» 28/02/2014