Tropas sauditas invadem o Bahrein. Para os xiitas, é guerra

17 de março 2011 - 15:47

Tropas sauditas invadiram o Bahrein. O secretário de Defesa dos EUA, Robert Gates, visitou Manama, capital do Bahrein na 6ª-feira, 11 de Março. Uma cadeia de eventos está a começar, com consequências de longo alcance. Por M K Bhadrakumar.

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Entrada das tropas sauditas no Bahrein

Posso agora apresentar-me como adivinho profissional – mais ou menos. No dia 4 de Março, no post sobre o Bahrain, escrevi: “Como o adivinho disse a Júlio César, tempos de muitos perigos aproximam-se, entre agora e os idos de Março.” Bem, os idos de Março são hoje. Evento tão grave quanto o assassinato de Júlio César parece bater-nos à porta. Tropas sauditas invadiram o Bahrein.

Uma cadeia de eventos está a começar, com consequências de longo alcance.

Os primeiros relatos dizem que o contingente saudita consiste de mil soldados, com 150 tanques blindados, carros de transporte de tropas e veículos auxiliares. A TV Bahrein mostrou cenas do que chamou de “unidades avançadas das forças conjuntas do Escudo da Península” – indicação de que mais soldados estão a caminho. O governo do Bahrein tem um pacto de defesa de segurança mútua com o Conselho de Cooperação do Golfo, Cooperation Council for the Arab States of the Gulf, CCASG; também conhecido como Gulf Cooperation Council, GCC. Com a Arábia Saudita, os Emiratos Árabes Unidos também mandaram 500 soldados. O governo do Bahrein disse que pediu ajuda militar, dados os “infortunados eventos que abalam a segurança do reino e aterrorizam cidadãos e residentes”. O governo saudita disse que “respondeu ao pedido de apoio que lhe fez o Bahrein”.

O movimento acontece depois de violentos confrontos entre manifestantes xiitas e a polícia.

Os manifestantes bloquearam a estrada que leva ao centro da cidade e principal distrito financeiro e grupos de vigia apareceram para guardar os arredores, enquanto aumentam as tensões sectárias entre os xiitas, que são 70% da população, e os sunitas.

O movimento do rei sunita, para trazer tropas sunitas de outros estados do Conselho de Cooperação do Golfo, cria uma situação perigosa. Os grupos da oposição xiita, em declaração, disseram que “Consideramos a entrada de qualquer soldado ou equipamento militar na área do Reino do Bahrein, terra, mar ou ar, como clara acção de ocupação. Essa real ameaça, com tropas sauditas e de outros países do Golfo, para atacar o povo desarmado do Bahrein, põe a população sob grave perigo e é ameaça de guerra não declarada, movida por soldados armados.”

Milhares de manifestantes continuam acampados na Praça da Pérola.

É indispensável acompanhar a reacção do Irão e dos EUA.

Nos EUA

Em Washington, o Departamento de Estado disse: “Conclamamos os nossos parceiros do GCC à moderação, a respeitar os direitos do povo do Bahrein e a agir de modo a mais apoiar que dificultar o diálogo”. Significativamente, nem uma palavra de crítica contra a acção militar dos sauditas.

O secretário de Defesa dos EUA Robert Gates visitou Manama na 6ª-feira, 11 de Março. Pode-se dar por certo que Gates foi informado do movimento do governo do Bahrein de pedir intervenção de soldados do GCC. Pode-se concluir que a prioridade dos EUA é a 5ª Frota (ancorada no Bahrein), e que qualquer preocupação com a democracia aparece longe, no fim da lista. Significativamente, o governo do Bahrein intensificou os ataques contra os manifestantes no fim de semana, imediatamente depois de Gates deixar Manama.

No Irão

A reacção do Irão também foi cheia de nuances. O ministério das Relações Exteriores ridicularizou, retoricamente, a visita de Gates a Manama, mas a reacção à intervenção dos sauditas foi bem discreta no plano do encarregado de assuntos do Médio Oriente e Golfo Persa Amir-Abdollahian. Pode ser apenas uma primeira reacção. Mas, de facto, só disse que a intervenção saudita pode vir a complicar ainda mais a situação. Nada de avisos ou ameaças nem exigências de imediata retirada dos sauditas.

Teerão não questiona a legalidade da acção, como os EUA não questionaram. Mas Teerão, pelo menos, chama atenção para as consequências políticas. Os iranianos preferiram esperar para ver, dado que nada têm a perder; não se cogita intervenção iraniana no Bahrein. O Irão não quer confrontar o GCC. São os parâmetros tradicionais da política regional do Irão. As relações entre Irão, Arábia Saudita, Emiratos Árabes Unidos e Bahrein sempre foram problemáticas; e há boas relações com o Qatar, Omã e Kuwait.

O Irão tem tido muito trabalho para manter laços cordiais com os Estados do Conselho do Golfo.

Mas o Irão tem tudo a ganhar, em termos políticos, se a intervenção saudita detonar a ira dos xiitas na Arábia Saudita e no Kuwait, ou se a situação se converter em pântano que ameace tragar os sauditas no Bahrein. Ao mesmo tempo, Teerão não quer sobre si a acusação de ter despertado sentimentos xiitas sectários. Toda a propaganda de Teerão está centrada no “despertar islâmico” do povo árabe. Divisões sectárias, nesse momento, absolutamente não interessam ao Irão, que não quer ver-se arrastado por um dos lados dessas divisões, o que diminuiria o seu prestígio regional.

Outra vez, Teerão entende que as tensões sectárias no Bahrein interessam aos governos sunitas no Golfo Persa, para subjugar as populações maioritariamente xiitas. Pode-se antever que os EUA também têm interesse em deter a revolta popular a favor da mudança de regime. Sobretudo, o Irão está firmemente decidido a agir como potência regional “responsável”, o que reforça a diplomacia iraniana noutras frentes no relacionamento com o ocidente.

Feitas todas as contas, um complexo conjunto de equações está em movimento – um banquete para qualquer observador que estude a política do Médio Oriente. (...)

O cenário mais provável é que as tensões no Bahrein, Arábia Saudita e Iémene – o “Triângulo Xiita”, pode-se dizer – se retro-alimentem umas às outras nas próximas semanas ou meses, processo sempre exacerbado pela “luta de baixa intensidade” – pelo menos por enquanto – em Omã e no Kuwait.

Enquanto isso, um quadro intrigante apareceu no plano geopolítico: os EUA parecem estar a testar a profundidade do lago, com vistas a abrir um canal de alta confiança com Teerão.

A Jordânia anunciou que o rei Abdullah teria manifestado interesse em encontrar-se com Mahmoud Ahmedinejad em Amã ou em Teerão, para “discutir vias que reforcem laços bilaterais em bases claras, de tal modo que sirvam aos interesses dos povos, questões islâmicas, de segurança e sobre a estabilidade na região”. Bravo!

Os laços entre Teerão e Amã estão em estado de congelamento profundo. Para Teerão, Abdullah não passa de lacaio dos EUA. Por outro lado, Abdullah é o negociador preferido, que Washington sempre usa quando precisa, em missões delicadas. Abdullah é craque nessa função. Tem credenciais inigualáveis: conversa e negocia com Israel e sobrevive, por causa do apoio dos EUA (e dos sauditas); e o rei Abdullah adora o facto de que a Jordânia goze de prestígio muito superior ao que corresponderia ao peso que teria na política regional. Tudo isso considerado, o que estará a acontecer? O mais provável é que os EUA estejam a avaliar as reais probabilidades de virem a ter “um diálogo” com Ahmedinejad.

Não há dúvida de que os EUA já perceberam que, no torvelinho que varre o Médio Oriente, o comportamento do Irão tem sido de perfeita contenção, confinado só à retórica. Isso deve ter encorajado os EUA a testar as possibilidades de um novo modus vivendi com o Irão, de tal modo que os dois lados consigam avaliar melhor o quanto podem confiar um no outro, na abordagem do torvelinho regional.

Falando em termos amplos, os EUA sabem perfeitamente (a) que o Irão é hoje um dos pilares da estabilidade regional; (b) que a influência do Irão na região cresceu muitíssimo; e (c) que, em termos regionais, Israel foi empurrado para absoluto isolamento.

Evidentemente, no interior do governo iraniano com as suas muitas divisões e subdivisões, há muitos grupos poderosos que se oporão ao diálogo com Abdullah nesse momento e que acusarão Ahmedinejad por essa “traição”. Olharão com muita suspeita a possibilidade de que a força de Ahmadinejad aumente, no caso de se iniciarem contactos EUA-Irão.

Sem dúvida, para quem observe o Irão, aí está uma rara oportunidade para sondar a personalidade enigmática de Ahmedinejad, a qualidade das suas relações com o Supremo Líder Ali Khamenei e o poder que tem para fazer calar os seus detractores e levar avante a ideia de um encontro com Abdullah. Até aqui, Ahmadinejad enfrenta só algumas críticas do Parlamento. Como reagirá a Guarda Revolucionária? E o establishment religioso xiita? São questões pertinentes. Noutras ocasiões, os da linha dura conseguiram deter quaisquer simpatias de Ahmadinejad em relação aos EUA.

Mas se Ahmadinejad se encontrar com o rei Abdullah da Jordânia, sem dúvida alguma haverá mudança massiva na correlação de forças na Região.

Artigo de M K Bhadrakumar, Saudi troops enter Bahrain, Shi’ites call it “war”, traduzido pelo colectivo da Vila Vudu e disponível em redecastorphoto.blogspot.com

M K Bhadrakumar foi diplomata de carreira; embaixador que serviu no Ministério de Relações Exteriores da Índia.