Travar juros e regular rendas é "prioridade política absoluta", diz Marisa

09 de setembro 2023 - 0:48

Na abertura do Fórum Socialismo 2023, que reunirá centenas de pessoas em mais de 50 painéis temáticos ao longo do fim de semana em Viseu, o combate ao neofascismo foi o tema da sessão com intervenções de três eurodeputadas da esquerda europeia.

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Marisa Matias
Marisa Matias na Sessão Internacionalista "Combater o neofascismo". Foto Nuno André Ferreira/Lusa

Começou esta sexta-feira à noite em Viseu a edição anual do fórum de ideias do Bloco de Esquerda. Dedicada ao combate ao neofascismo, a sessão de abertura do Fórum Socialismo 2023 foi internacionalista, com intervenções da eurodeputada bloquista Marisa Matias e de Ana Miranda e Manon Aubry, eurodeputadas do Bloco Nacionalista Galego e da França Insubmissa, do grupo parlamentar europeu A Esquerda.

Para discutir os riscos que a extrema-direita coloca à democracia, alertou Marisa Matias, "temos de discutir os estragos que o grande centro já provocou à democracia nas últimas décadas". E dessa forma poder compreender melhor "as alianças estratégicas que por essa Europa fora, e também aqui em Portugal, se vão fazendo entre liberais e extrema-direita".

E foi um desses estragos provocados pelo "grande centro" - a crise "há muito anunciada" da habitação - que ocupou boa parte da intervenção da eurodeputada do Bloco de Esquerda. Marisa diz temer "o pior" da próxima reunião do Banco Central Europeu (BCE), com a ameaça de novos aumentos das taxas de juros e os povos europeus na expectativa "para saber se esta espécie de Imperadora dos tempos modernos, Lagarde, vai ceder ao bom senso ou continuar a esmagar os salários com a austeridade".

Mais do que saber o que decidirá o BCE, para Marisa "a grande questão é a de saber como é que a Europa permitiu que este poder ficasse de fora da democracia" e assim continuar livremente a "empobrecer os povos europeus, a destruir emprego e a encarecer os custos de financiamento do tecido produtivo do nosso país".

A independência do BCE é ainda hoje defendida pelos socialistas europeus, lembrou Marisa, incluindo António Costa, que "chora agora lágrimas de crocodilo pelas decisões do BCE, mas quando o BCE defendeu a ideia disparatada de que aumentar salários faria subir a inflação, nessa altura António Costa defendeu o BCE". Na mira da eurodeputada esteve também o governador do Banco de Portugal, Mário Centeno, por "insistir na obsessão ideológica de achar que não pode haver vida além da folha de Excel" e não ver que há milhares de famílias a cortar até nas despesas com a alimentação das crianças para poderem cumprir o pagamento dos empréstimos à banca.

"Só a redução dos juros, a regulação dos preços das rendas e a prioridade de casas a residentes pode inverter este ciclo", concluiu Marisa, a par de uma política de aumento de rendimentos e de reforço do Estado Social, que é "a base que pode garantir a democracia, o respeito e a dignidade".

Ana Miranda, Manon Aubry e Marisa MatiasMatias Ana Miranda, Manon Aubry e Marisa Matias. Foto de Ana Mendes

Ana Miranda: "Na Galiza não há deputados da extrema-direita, estão no PP"

A eurodeputada Ana Miranda, do Bloco Nacionalista Galego, começou por destacar a proximidade do seu partido com os bloquistas portugueses; "somos irmãos, amigas e amigos de muitos anos, grandes companheiros no Parlamento Europeu" no combate ao neofascismo na Europa. Recordando a altura em que foi relatora de uma resolução no Parlamento Europeu sobre a ameaça da extrema-direita, Miranda afirmou que "agora já não são ameaças nem riscos: há a senhora Mussolini, a Frente Nacional ou o Vox", que não perdeu a esperança de governar Espanha ao lado do PP.

"Há que impedir que governe a direita com a extrema-direita", afirmou a eurodeputada, dando os exemplos de várias autonomias espanholas onde esses acordos foram firmados após as eleições de maio, ajudando a "branquear" as políticas de extrema-direita. E concluiu não ser por acaso que "na Galiza não há deputados da extrema-direita, estão no PP",  também graças ao trabalho constante do BNG, que nas últimas eleições confirmou a sua recuperação eleitoral.

Manon Aubry alerta para formação dum novo "bloco reacionário" em França

Dirigindo-se a Marisa Matias e José Gusmão, a eurodeputada da França Insubmissa começou por manifestar o seu "enorme orgulho em trabalhar com dois eurodeputados que trazem a voz do povo a uma casa que não está habituada a ouvi-la". Em seguida, falou da atualidade política do seu país, onde "em vez de se discutir o problema da falta de professores ou do aumento do custo de vida, o nosso Presidente lança o debate sobre a roupa que as jovens estão a vestir". Para Manon Aubry, "isto é fazer o trabalho da extrema-direita" e não é uma novidade nos governos sob o mandato presidencial de Emmanuel Macron, poucos meses depois de nem ele nem nenhum responsável do governo terem admitido a existência de violência policial após o assassinato de um jovem de 17 anos, assumindo dessa forma "o discurso de Le Pen". Não surpreende por isso a recente proposta do ex-presidente Sarkozy: "uma aliança que vá de Macron a Zemmour. Em França temos à nossa frente um novo bloco reacionário", afirmou Manon Aubry.

A eurodeputada da França Insubmissa defende que "o crescimento da extrema-direita resulta do falhanço da governação da social-democracia", dando o exemplo da presidência do socialista Hollande: "cinco anos depois o PS teve 1,7% nas presidenciais, é o que acontece quando se engana as pessoas". Para vencer a extrema-direita, "não basta dizer que se quer combater a extrema-direita, é preciso estar na luta para aumentar salários, para taxar os lucros e a riqueza" e dessa forma ganhar no terreno popular num contexto em que "os liberais tentam normalizar a extrema-direita e demonizar a esquerda".

A abrir a sessão, Lúcia Vilhena, deputada municipal bloquista em Viseu deu as boas vindas à primeira edição desta iniciativa na cidade. O Fórum Socialismo decorre este fim de semana e o programa está disponível aqui.