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Tráfico de animais selvagens coloca em perigo a saúde mundial

É urgente exigir a proibição de comércio e consumo de animais selvagens em todo o mundo. Por Roser Garí.
Mercado de espécies selvagens em Myanmar. Foto de Foto de Dan Bennet/wikimedia commons.
Mercado de espécies selvagens em Myanmar. Foto de Foto de Dan Bennet/wikimedia commons.

A pandemia da Covid-19 vai marcar um antes e um depois em todos os países afetados. As consequências psicológicas, sociológicas, económicas e políticas vão ser de grande envergadura e vão colocar em evidência as carências que temos como pessoas, os problemas das nossas sociedades e os limites dos Estados para responder às necessidades da população. Mas nos debates que surgem e surgirão não podemos esquecer as causas biológicas e materiais da epidemia.

A Covid-19 pertence aos coronavírus, vírus zoonóticos, que provêm dos animais, que se transmitem ao ser humano pela ingestão destes. Neste caso, relaciona-se o Covid-19 com morcegos, mas estima-se que possa existir um animal intermédio como o pangolim. Há ainda que ter presente que nas análises realizadas na China nos últimos meses em pangolins vítimas de tráfico estão-se a encontrar vírus muito similares ao corona. De qualquer maneira, a Covid-19 parece estar diretamente relacionada com a ingestão humana de carne de pangolim em certas zonas do planeta, apesar da rapidez da extensão da pandemia pelo contágio entre pessoas só ser explicável através multiplicação das viagens internacionais, particularmente aéreas.

O pangolim é o animal mamífero não humano mais traficado do mundo; as oito espécies de pangolins estão consideradas em perigo de extinção pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN nas suas siglas em inglês) e, portanto, o seu tráfico é ilegal desde 2017. No entanto, o seu comércio nos mercados asiáticos, especialmente nos da China e Vietname, continua a crescer. Este animal, cujo habitat natural se encontra distribuído pelos continentes asiático e africano e que tradicionalmente proporcionou carne e medicina às populações locais, há muitos anos que é vítima de grandes redes mafiosas internacionais. Praticamente extinto já em toda a Ásia, as suas escamas são muito valorizadas por umas supostas propriedades curativas, o que provocou que redes africanas que antes traficavam com marfim agora trafiquem também as suas escamas. Desconhece-se quantas toneladas se movimentam anualmente, mas num estudo feito por Sarah Stone, diretora de investigação da Wildlife Justice Comission, e a sua equipa concluiu-se que só entre os anos 2016 e 2019 foram intercetadas 228 toneladas de escamas destas rede de crime organizado, pelo que se acredita que o número real do comércio ilegal seja de dezenas de milhares de toneladas.

Mas os pangolins não são os únicos animais cuja extinção está diretamente relacionada com o apetite por espécies selvagens. No chamado Triângulo de Ouro, uma zona económica especial entre Laos, Myanmar, Tailândia, Vietname e China, abundam as máfias que negociam com espécies selvagens de animais. Há um século viviam nas selvas uns 100 mil tigres, hoje este animal está praticamente extinto no regime de liberdade na maioria dos países do sudoeste asiático, com uns 4 mil exemplares repartidos nesses territórios que estão a ser dizimados por caçadores furtivos; o seu habitat sofre de uma intensa e rápida degradação. Ainda não se sabe com exatidão quantas quintas de tigres existem nestes países, os cálculos variam entre 200 e 400 e estima-se que existem uns 8 mil tigres nelas que são explorados nas instalações onde se trafica com as suas peles, faz-se um vinho com supostas propriedades curativas com os seus ossos e vendem-se os corpos dissecados para decoração. Nestas quintas também se encontram ursos-malaios cuja bílis é usada para a medicina tradicional.

Tigre enjaulado. Foto de Braden Kowitz/Flickr.

Tigre enjaulado. Foto de Braden Kowitz/Flickr.

Estes produtos podem-se encontrar tanto em lojas como na internet. Qualquer pessoa que tenha ido a uma loja de medicina natural asiática pode ver os produtos que se vendem já processados nos comprimidos, pós e xaropes, assim como enormes jarras de produtos para cada um fazer os seus próprios medicamentos. Jarras cheias de cavalos marinhos, estrelas do mar e pepinos marinhos, cobras, escorpiões, escamas do pangolim e um longuíssimo e triste et cetera.

Mas os pangolins e as cobras, junto com outros muitos animais, também se consomem nos chamados mercados húmidos que se encontram em toda a Ásia oriental, salvo algumas exceções. Nestes, os animais selvagens e não selvagens, porcos e galinhas assim como cães e gatos chegam vivos e são sacrificados ali mesmo após a compra. Enquanto se espera pela venda, os animais recolhidos em jaulas minúsculas, vivem entre as suas fezes e salpicam-se com o sangue dos que ali são assassinados. Não é de estranhar que estes mercados sejam o foco de doenças e infeções; a chegada de um vírus tão perigoso como a Covid-19 era só uma questão de tempo.

Também há um florescente mercado internacional de animais selvagens para os zoos privados, animais para circo e aquários. Famosas são as fotos dos xeques árabes conduzindo acompanhados de um tigre. Zoos e aquários com animais de duvidosa origem, aparecem com muita frequência nas notícias pelo estado lamentável dos seus animais. É comum ver nas zonas mais turísticas de Ásia animais explorados e/ou drogados com os quais os turistas interagem. Seja a montar, nos falsos santuários de proteção animal de Laos e Tailândia, elefantes supostamente resgatados de trabalhos penosos na indústria madeireira, ou fazendo festas nos tigres nos mosteiros tailandeses ou vendo shows de macacos na rua como os tristemente famosos macacos dançarinos da Indonésia ou a nadar em piscinas com cloro de todo o mundo com golfinhos capturados no mar.

Este tráfico de espécies selvagens, tanto vivas como mortas, alcança anualmente um total de 26 mil milhões de dólares americanos em todo o mundo. Estes dados têm em conta só as espécies terrestres. Se se somasse o mercado da barbatana do tubarão ao de cavalos-marinhos, pepinos e estrelas de mar, este número certamente duplicaria. As redes que os, vendem são redes internacionais que se aproveitam das necessidades de muita gente que se vê obrigada a caçar e transportar os animais; gente, que com frequência, é detida pelas autoridades, enquanto os seus superiores atuam com impunidade e cumplicidade da polícia e das autoridades.

Ainda que em fevereiro a China, por culpa da Covid-19, tenha proibido temporariamente os mercados húmidos e o tráfico de animais selvagens terrestres de importância ecológica, científica e com valor social, e o Vietname queira começar a tomar medidas a partir de abril, é provável que pouco mude em ambos países. A China após o surto de SARS do ano 2013 também proibiu o tráfico de civetas, o animal que passou o vírus ao ser humano, e por um curto período de tempo também proibiu o tráfico de cobras, pouco depois o seu comércio voltou a florescer e continuam-se a vender nos mercados de todo o país. Mas se alguma coisa deixou claro a recente atuação contra a epidemia o governo chinês de Wuhan, é que se realmente tivesse a vontade de proibir esses mercados, não lhe faltariam meios de controlo para acabar com a comercialização desses animais e de dificultar o seu abastecimento. Essa atuação sobre a oferta iria influenciar, sem dúvida, a descida da procura.

Civeta de palmeira asiática. Foto de Xevi V/Flickr.

Civeta de palmeira asiática. Foto de Xevi V/Flickr.

No entanto a falta de vontade governamental chinesa e vietnamita fica refletida na própria regulação normativa da proibição, permitindo o tráfico de animais para fins médicos, os mesmos fins com os quais se justifica o tráfico de pangolins. Não precisando de ir mais longe, a administração chinesa está a promover a bílis do urso-malaio como cura para o coronavírus. Noutro país com inúmeros mercados húmidos, como é o caso da Indonésia, as autoridades estão a queimar colónias de morcegos em vez de fechar mercados.

É importante não cair em ideias racistas xenófobas e ter em conta que a China tem o maior movimento animalista do mundo e existem centenas de ONGs e ativistas de outros países afetados a trabalhar, a lutar e a arriscar a sua vida diariamente, como é o exemplo indonésio Jakarta Animal Aid Network, que com a colaboração das autoridades locais, têm um programa pioneiro com cães pisteiros em Sumatra e Java para detetar a vida selvagem recém capturada antes de que passe para a mãos das redes mafiosas.

Ao mesmo tempo é urgente e fundamental que a comunidade internacional reclame ao governo chinês uma atuação imediata e permanente para proibir o comércio e consumo dos animais selvagens, não só as que estão em perigo de extinção, senão todas, terrestres e marinhas. E isso temos que prolonga-lo por todo o mundo e com um conjunto de espécies ou esta crise que está a deixar o mundo de joelhos não será mais que uma mais das que ainda faltam.

Roser Garí é ativista do movimento animalista. Artigo publicado em 28 de março pelo Viento Sur. Tradução de Diego Garcia.

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