Tornar as casas um negócio criou crise da habitação, diz criador do Housing First

08 de novembro 2023 - 22:33

Sam Tsemberis defende que investimentos na habitação para ganhar dinheiro “estão a colocar o mercado imobiliário além do alcance dos salários das pessoas comuns”. Pensa que é preciso regular o mercado e construir mais habitação pública.

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Sam Tsemberis. Foto de ANTÓNIO PEDRO SANTOS/LUSA.
Sam Tsemberis. Foto de ANTÓNIO PEDRO SANTOS/LUSA.

Em Lisboa para um congresso sobre o modelo Housing First, o seu criador, Sam Tsemberis, foi entrevistado pela Lusa. Nessa conversa, passou a mensagem que a crise da habitação decorre da transformação das casas em negócio.

Tsemberis é psicólogo, professor de Psiquiatria e Ciências Bio-comportamentais na Universidade de Los Angeles e fundou em 1992 a Pathways to Housing, um programa de habitação para pessoas com doenças mentais graves, historial de abuso de substâncias e em situação de sem-abrigo de longo termo. É a partir desta experiência que surge a ideia do housing first, modelo assente no princípio que o primeiro passo para resolver os problemas das pessoas em situação de sem-abrigo é dar-lhes casa para depois começar a lidar com o resto das questões.

Este psicólogo identifica a crise de habitação global como "um dos maiores problemas” que vivemos e critica os “investimentos na habitação como um negócio, para ganhar dinheiro” que “estão a colocar o mercado imobiliário além do alcance dos salários das pessoas comuns”. Isto num mercado que “não é controlado nem regulado na maior parte dos lugares” faz subir preços e coloca o preço das habitações “fora do alcance de muitas pessoas”.

Dada a situação, revela simpatia por propostas como a implementada no Canadá de “regulamentar o investimento estrangeiro” e também a aplicada em Berlim que impõe “limites às rendas durante cinco anos, sem aumentos”. Para ele, “qualquer coisa que possamos fazer para regular ou controlar o mercado de arrendamento e a venda de habitação como mercadoria é um passo na direção certa”.

Para além disto, defende que é preciso “construir muito mais habitações sociais ou habitações públicas porque nem todos poderão pagar as rendas de mercado”.

Sobre o housing first, ideia que se vai espalhando pelo mundo, calcula que “dezenas de milhares de pessoas já tenham beneficiado dos seus programas”. Mas tem consciência de que falta muito por fazer. Isto apesar de não considerar utópico “acabar com as pessoas em situação de sem-abrigo nas ruas porque se trata de um número muito, muito pequeno”.

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