Syriza faz comícios em simultâneo nos bairros de Atenas

14 de junho 2012 - 15:00

Relato da eurodeputada Alda Sousa na campanha da Syriza, onde participou no início da semana num comício em Atenas com Manolis Glezos, o herói da resistência ao nazismo que apoia a constituição de um governo de esquerda formado a partir do apoio popular ao programa da esquerda radical grega.

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Os comícios e sessões de debate da Syriza nos bairros de Atenas juntam centenas de pessoas interessadas em saber o que irá fazer um governo de esquerda se a troika for derrotada na Grécia.

O último dia em Atenas havia de me reservar momentos inesquecíveis.

 

Ao fim da manhã, Yiannis Bournous, responsável pela política europeia do Synaspismos, o maior partido da coligação Syriza, vem-me buscar para uma entrevista na radio RedNotebook (o portal que há uma semana transmitiu em direto de Atenas o comício com Slavoj Zizek e Alexis Tsipras). Vai ser ele a traduzir. A entrevista dura cerca de 30 min. Perguntam-me sobre a situação em Portugal, sobre as resistências e sobre a importância das eleições gregas.

 

Em seguida, Yiannis e eu encontramo-nos com Natasa Theodorakopoulu, uma das 4 pessoas da equipa que desde o dia 6 de Maio, trabalha 12 e 14h por dia no atendimento e ligação aos media internacionais. É ela que conta que não se cansa de lhes perguntar se não sabiam da existência da Syriza antes do 6 de Maio…

 

Almoçamos numa esplanada, à sombra, mas o calor é imenso. Peço-lhes para me fazerem uma avaliação da situação e da evolução das posições das várias forças políticas desde o 6 de Maio. Tentando resumir uma longa conversa, dizem-me que nos primeiros tempos os partidos do “arco da governação”, Pasok e Nova Democracia, tentaram seduzir a Syriza com apelos para um governo de unidade nacional. Dizem que Tsipras respondeu claramente que só discutiria com eles depois de eles rasgarem e renunciarem ao memorando com a troika, essa seria uma pré-condição. E falam-me também do tom crescentemente agressivo que tem sido adotado pelas várias forças políticas. A Aurora Dourada (partido neonazi) diz nos tempos de antena que a Syriza quer acabar com a polícia de choque (é verdade que há uma proposta de democratização das forças policiais) e que a Syrisa vai permitir que a Grécia se encha de imigrantes que vão “roubar” os postos de trabalho aos gregos. A Nova Democracia, que disputa com a Syrisa o 1º lugar nestas eleições, começou a usar alguns dos argumentos da extrema-direita. E procura explorar o medo das pessoas e a sua insegurança. Para além do argumento  estafado que a Syrisa vai retirar a Grécia da Zona Euro (argumento também usado pelo Pasok), a ND vem agora pôr nos seus tempos de antena um video com Zizek apelidando-o de anarquista e apelando aos eleitores para não votarem na irresponsabilidade da Syriza.

 

Entretando vamos caminhando pela rua e vejo um cartaz do KKE (Partido Comunista Grego). Peço para me traduzirem, porque percebo que há uma linha sobre a Syriza. O cartaz diz (cito de cor): “O Pasok e a Nova Democracia colapsaram, não confiem na Syriza, votem KKE”. Confesso-lhes o meu choque. Mas Alexis Tsipras ainda hoje reafirma que é fundamental contar com o KKE para um governo de esquerda.

 

Mais ao fim da tarde, Yiannis vem-me de novo buscar para mais um comício-debate. Desta vez é em Ilion, no Noroeste da Grande Atenas. Há 10 ou 12 sessões semelhantes a decorrer ao mesmo tempo nos vários bairros da capital. Ilion é um bairro que tradicionalmente votava Pasok, mas o descalabro da sua governação fez com que cada vez mais pessoas se aproximassem da Syriza, que teve aqui 24,5% em 6 de Maio (em 2009 tinha tido cerca de 7%)

 

A sessão é de novo numa praça pública, aberta. Estão um pouco mais de 200 pessoas. Mas o mais importante desta sessão é que nela participa Manolis Glezos, velho resistente anti-fascista, o jovem que em 1943, sob a ocupação, retirou a bandeira nazi da Acrópole e içou a bandeira grega. Com quase 89 anos, parece o mais novo de todos em energia e entusiasmo. É uma referência, um herói da resistência. As pessoas vêm cumprimentá-lo, querem que os filhos o conheçam. Ele é de um simplicidade comovente, mas ao mesmo tempo muito firme nas suas convições. Tem muito humor.

 

Começo a minha intervenção por declarar a honra e o privilégio que é falar no mesmo comício que Manolis Glezos, de quem ouvi falar desde miúda, quando o meu pai me contava histórias da resistência ao nazismo.

 

E volto a falar da importância das eleições gregas para a democracia e que o povo grego tem nas suas mãos o futuro da Europa. E da solidariedade que se desenvolve em Portugal. O ambiente é muito caloroso e fraterno. Spiros Panagiotoy, dirigente da Syriza, fala da destruição premeditada dos serviços públicos de educação e saúde, resultante das escolhas políticas dos últimos anos. Diz que a Grécia é um dos países europeus que apresenta maior despesa nos hospitais privados. E apresenta as propostas de reforma fiscal da Syriza de forma a taxar as grandes fortunas, impedir a evasão fiscal e conseguir dinheiro suficiente para relançar a economia e os serviços públicos.

 

Manolis Glezos é o último orador. Avisa que os ataques à Syriza vão continuar e intensificar-se até ao dia 17. Membro da Comissão de auditoria à dívida, explica que cada empréstimo da troika apenas serve para pagar o anterior. E fala da história das dívidas na Grécia: conta que o primeiro empréstimo foi contraído a um banco francês em 1824, depois do fim do império otomano… e que esse empréstimo só acabou de ser pago há cerca de 12 anos, ou seja, a Grécia pagou muitas e muitas vezes a dívida inicial! Depois diz que do mesmo modo que lutou contra o nazismo, luta agora com a mesma força/veemência contra os especuladores financeiros, que são o inimigo de hoje. E fala ainda no incumprimento da Alemanha em relação à Grécia no que diz respeito às indemnizações de Guerra. Diz que é fundamental relembrar isso à Alemanha, e que um povo que não tem memória não existe e não tem futuro. Segundo ele, é o povo e as suas mobilizações que estão a empurrar a Syriza para o Governo, e que vai ser necessário ter a opinião do povo para cada medida que venha a ser tomada.

 

Em seguida abre-se o debate. É espantoso como tanta gente fica, de pé, a fazer perguntas e a dar opinião. O debate é vivo e Manolis e Spiros não se cansam. Vários temas emergem: se a Syriza terá deputados como ministros ou se vai fazer a separação entre o poder legislativo e o executivo; que reforma para a administração pública; que reforma fiscal; como vai a Syriza combater o desemprego e criar postos de trabalho; se haverá de novo centros de saúde locais com médicos de família; como vai a Syriza lidar com as pequenas dívidas de muitos e muitas devido ao aumento de impostos nos últimos anos, ao desemprego,

 

É cerca de uma hora e meia de debate. Uma onda de esperança, solidariedade, coragem percorre a assistência.

 

No fim, Manolis está rodeado de pessoas. Aguardo para me despedir. A dada altura faz-me sinal para avançar. Oferece-me o Livro Negro da Ocupação (saído este ano e escrito em grego e em alemão), que coordenou, com uma dedicatória. Despedimo-nos com um forte e caloroso abraço. É mesmo difícil conter as lágrimas.