A breve atenção mediática que a guerra civil entre os militares sudaneses despertou em meados de abril passado deixou de existir há muito. Mas o conflito persiste. Os dois homens fortes que esmagaram as mobilizações democráticas, Abdelfaftah al-Burhan, chefe do Exército e presidente do Conselho Soberano do Sudão e Mohamed Hamdan Dagalo, que lidera as Forças de Apoio Rápido e é conhecido como Hemedti, comandam fações agora desavindas e que se continuam a digladiar.
Entretanto, morreram mais de 12.000 pessoas, metade dos 48 milhões de habitantes necessitam ajuda humanitária urgente e o país vive a maior crise de refugiados do mundo com 7,1 milhões de pessoas a terem sido obrigadas a deixar as suas casas de acordo com ONU.
No Darfur vive-se mesmo uma “limpeza étnica massiva”, diz Jan Egeland, diretor do Conselho Norueguês para os Refugiados em entrevista à ARD citada pela Deutsche Welle. O que parece ser uma repetição do que aconteceu há vinte anos: “está a acontecer novamente o mesmo em Darfur – centenas de milhares de pessoas estão a ser deslocadas, milhares já foram massacradas – e ninguém parece ter consciência disso”, diz aquele responsável que trabalha com as Nações Unidas. E remata: “entristece-me que o mundo esteja a ignorar um dos maiores desastres humanitários da nossa geração. Sim, há a guerra na Ucrânia, a crise em Gaza. Mas como é que o mundo pode esquecer, em apenas alguns meses, que mais seis milhões de pessoas tiveram de fugir daqui? As mulheres estão a ser violadas, os hospitais estão a ser bombardeados, os campos de refugiados estão a ser bombardeados!”
Cólera e limpeza étnica
Do outro lado, da fronteira a situação é considerada dramática. Há pelo menos 800.000 refugiados do Sudão no Chade e as organizações de ajuda humanitária não conseguem acudir, explica Pierre Honnorat do Programa Alimentar Mundial: “precisamos urgentemente de financiamento para esta crise. É urgente porque primeiro temos de comprar os alimentos e trazê-los para o Chade e depois transportá-los até aqui, para a fronteira, para que as pessoas aqui recebam pelo menos uma refeição por dia.”
No interior do país, a todas as outras preocupações soma-se um surto cólera. O Gabinete da ONU para a Coordenação de Assuntos Humanitários publicou há dois dias o último relatório sobre a disseminação da doença que mostra que, desde final de setembro, houve pelo menos 8.267 casos de suspeita de cólera com 224 mortes associadas, espalhados por 46 localidades de nove estados do país.
E o último ponto da situação feito pela Human Rights Watch, no final do mês passado, corrobora os abusos das Forças de Apoio Rápido e das milícias suas aliadas no Darfur Ocidental. De acordo com a organização, no início de novembro, estas mataram “centenas de civis” em ataques na região que visaram especificamente a população massalite e que incluíram pilhagens, agressões, violações e detenções ilegais.
Mohamed Osman, investigador do Sudão que trabalha com a HRW, defende que o Conselho de Segurança das Nações Unidas reforce urgentemente a presenta da ONU no Sudão para prevenir mais atrocidades e proteger melhor os civis no Darfur da “campanha organizada de atrocidades” contra os civis massalites.
Os ataques do início de novembro em Ardamata terão morto entre 1.300 e 2.000 pessoas, com 8.000 outras a fugir, calcula-se.