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Stratfor: Por dentro de uma CIA privada

Até recentemente, parte significativa da atividade da empresa era cercada de mistério. Mas, em dezembro último, hackerativistas do coletivo Anonymous invadiram o sistema de comunicações da empresa. Por Yazan al-Saadi, Al-Akhbar, Líbano.
Para o presidente da empresa, só as empresas de informações/espionagem tratariam do que “está prestes a acontecer e acontecerá” e do “por quê”. Foto de xrrr

A divulgação de mais de 5 milhões de e-mails de uma empresa privada de informações/espionagem com escritórios nos EUA, a Stratfor, incluindo detalhes de cartões de crédito, de senhas e de identidade das fontes, lança nova luz sobre a realidade, em rápida transformação, do mundo da coleta de informações de informações/espionagem e expõe pessoas e interesses por trás daquela realidade. O jornal Al-Akhbar recebeu os dados obtidos e publicados pela WikiLeaks, que incluem material sensível sobre o Médio Oriente.

Clique para ir diretamente aos e-mails aqui comentados (em inglês).

A Strategic Forecasting Inc., mais conhecida como Stratfor, é uma empresa privada que opera no lucrativo negócio da coleta e análise de informação de informações/espionagem.

Fundada em 1996, a empresa tornou-se globalmente conhecida durante o bombardeamento da NATO contra o Kosovo, em 1999, quando as análises publicadas pela Stratfor, consideradas bem informadas e aprofundadas, foram divulgadas por várias agências de notícias. Mas foram os eventos do 11 de setembro e a subsequente “guerra ao terror” que inflacionaram o prestígio da empresa, convertendo-a em fonte sempre procurada pelas grandes redes e conglomerados da imprensa comercial, como a Bloomberg, a Associated Press, a Reuters, o The New York Times e também a BBC.

Descrita muitas vezes como uma “CIA privada”, a empresa Stratfor repete que as informações que vende são obtidas de grande número de fontes públicas acessíveis, como serviços de notícias online, fóruns de discussão e outros tipos de páginas da Internet e estudos e pesquisas governamentais não sigilosos, além do que lhe dizem as suas próprias fontes, sempre bem localizadas em todo o mundo. A empresa diz ter cerca de 300 mil assinantes, além dos dois milhões de interessados que recebem gratuitamente uma Newsletter, por correio eletrónico.

Até recentemente, parte significativa da atividade da empresa Stratfor permanecia cercada de mistério. Mas, em dezembro último, hackerativistas do coletivo Anonymous invadiram o sistema de comunicações da empresa, na campanha chamada “LulzXmas”, concebida para chamar atenção para as condições desumanas em que estava preso o cabo Bradley Manning, acusado pelo governo dos EUA de fornecer informações secretas à organização WikiLeaks.

Contacto inicial com os e-mails agora distribuídos começa a lançar luz, afinal, sobre como a empresa está estruturada, sobre o processo de atrair, alistar e construir fontes e sobre o estranho modo de relacionamento que liga os empregados da empresa entre si. Em contraste flagrante com a imagem que a Stratfor tenta projetar dela mesma, o que se vê nos e-mails é uma empresa com inúmeros problemas de organização, com empregados muitas vezes surpreendentemente desinformados e super dependentes de determinadas fontes para fabricar previsões e diagnósticos que, não raras vezes, não têm qualquer fundamento factual ou de investigação ou pesquisa.

O que é a empresa Stratfor?

A Stratfor foi fundada há mais de dez anos em Austin, Texas, por George Friedman, ex-professor de ciência política. Friedman é o principal agente de informações/espionagem, o gerente financeiro e o presidente executivo da empresa.

Auto-apresentado como “autor de livros best-seller” na página “Sobre nós” do site da empresa, Friedman tem longo currículo de serviços prestados aos militares norte-americanos nas áreas de segurança e defesa, e trabalhou também com a conhecida RAND Corporation.

Friedman também é autoproclamado discípulo de ícones dos neoconservadores, como Leo Strauss; e sempre enfatiza nas suas análises, a “ameaça jihadista” da Al-Qaeda. De facto, o relatório de prognóstico publicado pela empresa Stratfor para a década 2005-15 trata, predominantemente, do posicionamento dos EUA como potência hegemónica global e do conflito com a Al-Qaeda1.

 

 

As fontes são indispensáveis para a empresa Stratfor. São como a linha de abastecimento para o think tank, sejam apenas amigos ou conhecidos de empregados da empresa, ou indivíduos em altos postos políticos ou empresariais. A esposa de Friedman, Meredith, tem envolvimento ativo nas operações da empresa. É a principal gerente internacional e vice-presidente de comunicações. A julgar pelos e-mails, parece ter a missão de expandir a rede de relações públicas de Stratfor, marcar entrevistas e participação em eventos públicos, sempre com contacto com os média, para o marido e para outras personalidades do mundo académico e político. Além disso, Meredith é encarregada de organizar o braço internacional de Stratfor (empregados da empresa são enviados ao exterior, para conferências).

Fred Burton, vice-presidente de Stratfor para questões de segurança empresarial e contraterrorismo, é o terceiro na cúpula dirigente da empresa/think tank. Foi agente especial do Serviço Diplomático de Segurança dos EUA, indicado por Washington para investigar o assassinato do primeiro-ministro israelita Yitzhak Rabin; o assassinato do rabino Meir Kahane e inúmeros casos de explosões atribuídas à al-Qaeda antes do 11 de setembro.

Burton é apoiante visível e empenhado pró-Israel e faz a ligação com os setores militares e de informações/espionagem de Israel. Na discussão que se lê num dos e-mails, sobre a Flotilha “Liberdade para Gaza”, Burton, abraçando a narrativa israelita, argumenta que a Flotilha seria financiada por fontes questionáveis.

As fontes: espadas de dois gumes

Há, sem dúvida, algum tipo de relacionamento entre a empresa Stratfor e agências oficiais de segurança, sobretudo nos EUA. Vários e-mails internos contêm, como documentos anexados, publicações (não sigilosas) do FBI e de outras agências2. Pesquisa mais aprofundada nos e-mails agora publicados poderá trazer à tona mais provas desse laço direto.

A empresa tem organização piramidal. No topo, como já se comentou, estão os Friedmans e Burton, que tomam todas as decisões. Abaixo deles, ficam os WOs [Watch Officers, aproximadamente “encarregados da vigilância/busca”], que peneiram as várias fontes à procura de qualquer informação significativa. Em seguida vêm os analistas, às vezes também chamados “handlers” [“operadores”], que discutem e examinam os informes de informações/espionagem, com a tarefa de encontrar e construir relacionamentos com indivíduos, para explorar/aprofundar informações. Na base da pirâmide, afinal, ficam as fontes.

As fontes são classificadas em escala: “A” para as melhores e “F” para as piores3. Também são codificadas segundo a região ou o tópico, e recebem um número4.

Contudo, os e-mails internos de Stratfor sugerem certo nível de frustração, às vezes de confusão, quando se trata de os empregados apenas obedecerem a regras5. Até que em abril aconteceu um processo de completa revisão/reavaliação das fontes. Nos grupos de e-mails em que se discute essa revisão, vê-se bem evidente a frustração dos que receberam a missão de reunir as listas de fontes. Num caso, uma lista de fontes escapou, erradamente, para a lista de “Fonte Aberta” [Open-Source (OS)].

Há desconexão total entre os factos e as vastas complexidades em campo nas regiões, e os tópicos em que são classificados. Numa troca de e-mails entre Anya Alfano, que trabalha como relatora [briefer], e Meredith Friedman, Alfano esboça uma avaliação geral do processo de revisão das fontes6. Essa avaliação geral sugere que a Stratfor não é tão bem informada como gostaria de fazer crer. Muitas fontes são ligadas a determinados países e questões específicas, não têm como cobrir questões regionais nem questões menos específicas. Uma das principais fontes da Stratfor no Médio Oriente, nome de código ME1, é um exemplo disso.

Segundo vários emails, ME1 trabalha ativamente com a Stratfor desde 2006, talvez desde antes. Parece que é militar do exército libanês; fala/escreve bom inglês; e fornece à Stratfor informações também de várias outras fontes, entre as quais parece haver membros do Hamas e vários diplomatas árabes no Líbano, entre outros.

A importância de ME1 é destacada, também, porque, em outubro de 2011 recebeu aumento de salário (passou a receber 6.000 dólares mensais)7. A lista de transferências [de dinheiro] de 2011 mostra que ME1 é o terceiro mais alto salário entre as fontes remuneradas8.

Em dois e-mails vê-se o quanto a empresa confia em ME1. O primeiro mostra que membros da Stratfor acreditam ter “jornalistas-contactos (editores) para praticamente todas as agências significativas de média no Líbano, via ME1”9. O segundo – e talvez seja o melhor exemplo do pouco conhecimento real com que a Stratfor conta, e do quanto a empresa superconfia na subcontratação da coleta de informações – mostra um debate sobre a identidade sectária de Assef Shawkat, vice-ministro de Defesa da Síria e marido de Bushra Assad [irmã de Bashar-al-Assad], e de Ali Mamlouk, diretor geral da Informações sírio10. Apesar de a Fonte Aberta (Open Source, OS) ter informado que Shawkat e Mamlouk seriam sunitas (são alauítas!), como um analista destaca, o agente de operação encarregado do contacto com ME1, Reva Bhalla, confirma o que a sua fonte lhe disse: “Nessa questão, confio em ME1. Odeio essa região, aaaaargh.”

Stratfor, por trás da fachada

Mesmo sem considerar a embaraçosa e obviamente grave quebra na segurança da Stratfor, que não se cansa de repetir que zela pela segurança das suas fontes, o conhecimento geral entre os empregados parece resumir-se a um único paradigma.

A Stratfor é uma empresa ideologicamente construída sobre as ideias de pragmatismo dos neoconservadores norte-americanos. Há em todas as linhas uma visível euforia e imensa delícia, sempre que se destaca, nos relatórios e estudos (e também nos e-mails agora divulgados) o poder que os EUA e os seus aliados projetam sobre o mundo. Em mais de um ponto, vê-se desconexão total entre os factos e as vastas complexidades em campo nas regiões, e os tópicos em que são classificados – como, por exemplo, em vários casos em que o objeto das análises ou discussões é o Médio Oriente.

Muitos dos documentos internos da Stratfor, agora divulgados, vêm de agências ocidentais ou israelitas. Num e-mail redigido por um dos analistas da Stratfor, um editor palestiniano é descrito como “doido varrido”, por ter dito que acreditava que Jerusalém seria libertada “com honra militar”11. E, apesar do evidente conteúdo racista antiárabe, na informação fornecida por um oficial da inteligência israelita, a informação é considerada valiosa e relevante12. No e-mail sobre aquele oficial israelita, o analista admite que a empresa Stratfor e as Informações da Defesa israelita são assemelhadas... porque ambas “mantêm-se desligadas das políticas domésticas” das regiões onde operam.

A maioria dos analistas empregados da Stratfor têm conhecimento apenas superficial dos tópicos que cobrem. Parece que, de praxe, os analistas recebem, para analisar, tópicos sobre os quais não têm conhecimento prévio. Numa troca informal de e-mails, além de os missivistas trocarem piadas de gosto muito duvidoso sobre Sida, lê-se, logo na primeira linha, que a analista encarregada da América Latina não é absolutamente especialista na região, mas, mesmo assim, ela conseguiu reunir informação de informações/espionagem que agradou aos seus superiores13.

Muitos dos documentos internos distribuídos para os clientes da Stratfor foram produzidos por agências ocidentais ou israelitas, não por fontes da região – o que reforça a desconexão interna na empresa.

Os informes, relatórios, análises e diagnósticos vendidos pela Stratfor aos seus clientes têm servido como base e ferramenta crítica do noticiário distribuído por agências ocidentais de jornalismo e notícias, e do trabalho de várias organizações de informações.

 

 

Agora, quando afinal se começa a conhecer por dentro as empresas privadas que trabalham no campo da informações/espionagem, pode-se começar a entender por que as agências jornalísticas e de notícias ocidentais jamais dão qualquer sinal de entender adequadamente sociedades não ocidentais.

A maior parte do pensamento analítico desenvolvido em empresas privadas como a Stratfor, em seguida distribuído automaticamente em escala maior pela imprensa global, reproduz uma narrativa sempre muito superficial, que de modo algum captura as complexidades e os sentimentos individuais envolvidos na vida da região, nem as estruturas políticas, económicas e sociais locais.

É exatamente o contrário do que diz Friedman, principal executivo e proprietário da empresa, no vídeo em que “vende” a sua empresa a clientes potenciais. Friedman desqualifica a cultura, para ele característica de Washington, de longos documentos e relatórios políticos que, segundo ele, ninguém lê. Para ele, os serviços de inteligência superam o jornalismo, que “tem um olhar atrasado” sobre o mundo; só as empresas de informações/espionagem tratariam do que “está prestes a acontecer e acontecerá” e do “por quê”.

Mal sabia Friedman que agora, com jornalistas e internautas em todo o mundo podendo examinar diretamente e por dentro o modo como operam as empresas privadas de informações/espionagem, todos aprenderemos muito sobre o tal “porquê” que tanto interessaria à Stratfor – o que afetará muito o modo como o ocidente recolhe e distribui informação sobre o oriente e sobre muitas outras regiões do mundo.

A partir da próxima semana, o jornal Al-Akhbar examinará o que a Stratfor reuniu (e distribuiu) como informação sobre o Médio Oriente.

Uma pirâmide de colaboradores

A Stratfor é um think tank privado, que vive de reunir informações de informações/espionagem, que são analisadas, discutidas, consolidadas e distribuídas. Praticamente todas as informações que a empresa considera relevantes são relacionadas a questões militares, políticas e económicas; e a mensagem de e-mail é a principal ferramenta para troca de conhecimentos dentro da equipe.

A informação de informações/espionagem que é extraída das fontes é em geral confrontada com dados públicos acessíveis, chamados “de Fonte Aberta” [Open Source, OS], e em seguida incorporada a avaliações, diagnósticos e prognósticos, e relatórios em geral, que são divulgados. Essas avaliações, diagnósticos e prognósticos, e relatórios são distribuídos para uma lista de assinantes, em recortes específicos conforme os interesses regionais do assinante, ou num pacote ‘geral’.

No plano interno, a empresa depende muito de listas de distribuição de mensagens. Da lista dos privilegiados “ALFA”, à lista dos analistas regionais, denominadas “MESA” [Middle East South Asia], “LATAM” [Latin America] e “Eurasia”, cada peça de informação de informações/espionagem é distribuída por canais específicos nos quais é processada.

Hoje, trabalham na empresa think tank Stratfor mais de 130 empregados, a maioria dos quais faz trabalho operacional e trabalho administrativo. Por exemplo, Jennifer Richmond é Diretora de China e de Projetos Internacionais. Os e-mails mostram que ela também trabalhou – e talvez ainda trabalhe – na administração, tentando organizar e coordenar listas de fontes para avaliação, e garantir que os empregados obedeçam ao critério de classificação interno das informações14.

A rapidez é fator chave para o sucesso, no jogo de informações/espionagem da Stratfor, e para isso trabalham os WOs [Watch Officers, aprox. “encarregados da vigilância/busca”]. Os WOs são “avaliadores objetivos de fontes” que comentam informação oferecida pelas fontes e a comparam com o que haja já divulgado publicamente. Nas palavras de um funcionário, em e-mail de discussão interna, os WOs “guardam as joias da família da empresa”15. Esse departamento é comandado por Michael Wilson.

 

A engrenagem seguinte da mesma máquina são os “analistas”. Cabe-lhes reunir as fontes e classificá-las numa grade de confiabilidade, produção, acessibilidade/posição, credibilidade e originalidade das opiniões, ideias e pareceres que a fonte ofereça. O sistema de recrutamento de fontes varia, mas, em geral, a fonte é seduzida, às vezes com muito trabalho e empenho, para que coopere16.

Descritos como “handlers” [‘operadores’], os analistas têm contacto direto com a fonte; a sua prioridade é garantir que o relacionamento continue.

Além disso, os analistas a serviço da empresa Stratfor devem também interagir com os assinantes, e extrair deles o máximo de informação possível, para uso futuro. Lê-se isso claramente numa troca de e-mails na qual um analista tático de nível inferior expõe o que fez para desenvolver uma nova fonte – um indivíduo, dentro de um serviço alemão não identificado de segurança, que há mais de nove anos era assinante das publicações da empresa Stratfor.

Os analistas táticos, dentro da Stratfor, dedicam-se a observar e comentar operações militares, de informações/espionagem e outras operações de segurança, nos EUA e fora. Scott Stewart, vice-presidente de Informações/Espionagem Tática, carinhosamente apelidado “Stick” [cassetete], dirige o departamento.

28/2/2012

Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Publicado em: http://redecastorphoto.blogspot.com/2012/02/stratfor-por-dentro-de-uma-c...

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