Testemunho

Sou um israelita crítico do sionismo. Porque é que os agentes fronteiriços me detiveram num aeroporto dos EUA?

21 de maio 2024 - 16:38

Na maioria dos outros contextos, é mais provável que os académicos se deparem com barreiras à liberdade de expressão no Sul global, e não no Norte global. No caso da Palestina, a situação é inversa.

por

Ilan Pappé

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Ilan Pappé
Ilan Pappé. Imagem de palestra em 2019 publicada no Youtube da Lannan Foundation.


Sou um historiador israelita a viver no Reino Unido, mais conhecido pelos meus livros sobre a história da Palestina e do Médio Oriente, que contestam a versão oficial israelita da história. Este mês fui convidado a deslocar-me aos EUA por uma nova organização árabe-americana, al-Nadwa (a Discussão), para partilhar as minhas ideias sobre a situação na Faixa de Gaza. Também me dirigi a um grupo da Jewish Voice for Peace no Michigan e fui falar com estudantes acampados na Universidade do Michigan em Ann Arbor.

Depois de um voo de oito horas desde Heathrow, fui intercetado à chegada ao aeroporto de Detroit por duas pessoas que pensei serem agentes do FBI, embora mais tarde tenha descoberto que eram agentes do Departamento de Segurança Interna. Dois homens aproximaram-se de mim, mostraram os seus distintivos e exigiram que os acompanhasse a uma sala lateral.

A minha tentativa inicial de saber por que razão fui mandado parar foi ignorada. Ficou claro que eram os agentes que faziam as perguntas e que o meu papel era responder-lhes, e não o contrário. Por isso, até hoje, pelo menos oficialmente, não recebi qualquer explicação para o incidente.

Fiquei detido durante duas horas. A primeira ronda de perguntas foi sobre a minha opinião relativamente ao Hamas. Em seguida, os agentes quiseram saber se eu achava que as ações de Israel na Faixa de Gaza constituíam um genocídio e o que eu pensava do slogan "A Palestina deve ser livre do rio ao mar". Respondi que sim, que penso que Israel está a cometer genocídio. Quanto ao slogan, disse que, na minha opinião, as pessoas em qualquer parte do mundo devem ser livres.

Depois, os agentes interrogaram-me sobre quem eu conhecia na comunidade árabe-americana e muçulmana americana. Pediram-me para lhes fornecer números de telefone, tiraram-me o telemóvel durante um longo período e pediram-me para esperar que fizessem alguns telefonemas antes de me deixarem ir embora.

O objetivo de partilhar esta experiência não é pedir compaixão ou mesmo solidariedade; há situações muito piores na vida. Mas o incidente não deixa de ser preocupante - e faz parte de um fenómeno muito mais vasto e grave. Porque é que os países ostensivamente liberais e democráticos estão tão interessados em traçar perfis ou restringir os académicos que tentam partilhar com o público norte-americano e europeu as nossas opiniões profissionalmente informadas sobre Israel e Gaza?

Veja-se a recusa da França e da Alemanha em permitir que o Dr. Ghassan Abu Sitta, reitor da Universidade de Glasgow, participasse em eventos semelhantes aos que eu participei nos EUA. Para além do seu cargo académico, Abu Sitta exerceu a profissão de médico em Gaza e pode dar testemunho em primeira mão do que se passa no terreno. A Human Rights Watch salientou que a proibição de Abu Sitta, alegadamente instigada pela Alemanha, "tenta impedi-lo de partilhar a sua experiência no tratamento de doentes em Gaza [e] arrisca-se a comprometer o compromisso da Alemanha de proteger e facilitar a liberdade de expressão e de reunião e de não discriminação".

Pela minha parte, escrevi mais de 20 livros sobre Israel e a Palestina e quis dar um contexto histórico e académico à situação atual. Muitos outros académicos de renome e bem versados que podem fornecer análises aprofundadas, que nem sempre se encontram nos principais meios de comunicação social, são também afetados pela ameaça ou possibilidade de restrições de viagem.

Esta é uma questão grave de liberdade académica e de liberdade de expressão. Ironicamente, na maioria dos outros contextos, é mais provável que os académicos se deparem com barreiras à liberdade de expressão no Sul global, e não no Norte global. No caso da Palestina, a situação é inversa. Sabendo isto, faz sentido que, provavelmente, só podia mesmo ser um Estado do Sul global, como a África do Sul, a ousar dirigir-se ao Tribunal Internacional de Justiça para pedir uma ordem judicial contra o genocídio que Israel está a cometer na Faixa de Gaza.

Estas restrições de viagem têm muito pouco a ver com conhecimento. Os governos americano e britânico raramente consultam qualquer perito que não seja israelita ou pró-israelita sobre a natureza do conflito em Israel/Palestina e as brutais políticas israelitas dos últimos 76 anos.

O primeiro-ministro britânico, por exemplo, reuniu-se com uma associação de estudantes judeus desde 7 de outubro, mas evita qualquer encontro com estudantes palestinianos, muitos dos quais perderam toda a sua família em Gaza. As definições de antissemitismo, como as delineadas pela Aliança Internacional para a Memória do Holocausto, são instrumentalizadas para silenciar qualquer manifestação de solidariedade para com os palestinianos. Rishi Sunak poderia ter aprendido porque é que o slogan "A Palestina deve ser livre do rio ao mar" não é idiota ou extremista, como sugeriu recentemente, se estivesse disposto a aprender e a ouvir.

livro de Ilan Pappé
Lobbying for Zionism on Both Sides of the Atlantic é o mais recente livro de Ilan Pappé. Foto publicada pelo autor

Porque é que estamos aqui? Terminei recentemente de escrever um livro intitulado Lobbying for Zionism on Both Sides of the Atlantic. Nesse processo, aprendi que só uma investigação histórica detalhada, que, afinal de contas, acabou num livro bastante longo, pode explicar as reações pavlovianas dos políticos norte-americanos e europeus às tentativas das pessoas de exercerem os seus direitos de expressão sobre a luta palestiniana.

A longevidade do lóbi nos EUA e no Reino Unido impede qualquer discussão livre sobre Israel e a Palestina, mesmo no meio académico. Dada a responsabilidade passada da Grã-Bretanha pela catástrofe palestiniana e a sua atual cumplicidade nos crimes cometidos contra os palestinianos, esta contínua repressão da liberdade de expressão impede uma solução justa em Israel e na Palestina e colocará a Grã-Bretanha do lado errado da história. Espero que os EUA, o Reino Unido e os seus aliados mudem de rumo e provem que a minha previsão está errada.


Ilan Pappé é um historiador, cientista político e antigo político israelita. É professor na Faculdade de Ciências Sociais e Estudos Internacionais da Universidade de Exeter, no Reino Unido, diretor do Centro Europeu de Estudos Palestinianos da universidade e codiretor do Centro de Estudos Etno-Políticos de Exeter. Artigo publicado no Guardian. Traduzido por Luís Branco para o Esquerda.net.

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