Líbano

Soha Bechara: Israel enganou-se pensando ter acabado com o Hezbollah

14 de novembro 2024 - 22:33

A ativista de esquerda libanesa explica que por detrás dos ataques israelitas está o projeto religioso do “Grande Israel”, que consiste em anexar partes do Iraque, Líbano, Jordânia e Arábia Saudita e que há muito tempo que o Estado sionista se prepara para a colonização do Líbano.

por

Nelson Pereira

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soha bechara

“Israel tem planos para ocupar o Líbano e redesenhar fronteiras e pensou que com algumas bombas acabava com o Hezbollah, mas está a sofrer perdas muito pesadas no sul do país e não consegue avanços significativos na ofensiva terrestre,” diz Soha Bechara, ícone da resistência libanesa durante a segunda invasão israelita do Líbano.

Em 1988, aos 21 anos, Soha Bechara tentou assassinar Antoine Lahad, chefe da milícia responsável pelo Sul do Líbano ocupado por Israel. Esteve detida dez anos na prisão de Khiam, dos quais seis em total isolamento, numa cela de 1,80 m por 60 cm, com uma refeição por dia e dez minutos para comer.

Diz que foi o massacre de Sabra e Chatila, quando as milícias libanesas falangistas, com o apoio tácito de Israel, assassinaram centenas de palestinianos num campo de refugiados em Beirute, que fez nascer nela a decisão de aderir à ala de resistência do Partido Comunista. “Percebi que se não resistíssemos aconteceria aos libaneses aquilo que aconteceu aos palestinianos. Tornou-se claro para mim que Israel, a potência ocupante, era o inimigo real do Líbano.”

Com o pesadelo que bem conheceu a repetir-se hoje diante dos seus olhos, Bechara denuncia uma estratégia de falsos pretextos que escondem o elemento motor dominante. “Israel evoca razões diferentes de cada vez que ataca o Líbano. O pretexto para a primeira invasão em 1978 foi a existência de grupos armados palestinianos no Líbano, agora é o Hezbollah. Mas os primeiros massacres israelitas no Líbano datam de 1948, quando não havia palestinianos e o movimento xiita libanês não existia,” sublinha, acrescentando que o verdadeiro motivo é fazer avançar o projeto religioso do “Grande Israel”, que consiste em anexar partes do Iraque, Líbano, Jordânia e Arábia Saudita.

soha bechara
Soha Bechara.

“O estado sionista tem tirado proveito de cada oportunidade para anexar território,” pontua a ativista libanesa, recordando que Guerra dos Seis Dias em 1967 resultou na ocupação dos Montes Golã, mas também de sete aldeias em território libanês, entre as quais as fazendas de Shebaa, apesar de o Líbano não ter participado no conflito.

O mesmo esquema vai ser repetido em vagas sucessivas, recapitula Bechara. “Entre 1948 e 1978, Israel empurrou os palestinianos para o exílio. E depois começaram a persegui-los no exílio no Líbano, ocupando uma região no sul para criar uma zona de segurança. Em 1982, tratava-se de expulsar do Líbano os palestinianos armados, e acabaram por ocupar território no sul até Sídon.”

Na opinião da resistente libanesa, Israel cria factos consumados e considera que tal como o extermínio dos índios nos Estados Unidos passou à história sem consequências para os culpados, assim também o Estado sionista pode redesenhar fronteiras eliminando e expulsando populações inteiras impunemente. “O que está a acontecer no Líbano atualmente, não foi algo que veio de repente, foi algo que já estava preparado, já se preparavam há muito tempo para uma colonização do país e achavam que deveria ter sido feito mais cedo.”

Israel convenceu-se de que as regras são impostas pelo mais forte e isto graças à passividade da comunidade internacional, que “desde 1948 concede a Israel total impunidade depois de cada massacre, cada bombardeamento de campos de refugiados, escolas, hospitais, igrejas e mesquitas, património cultural,” frisa Bechara, alertando para os danos que esta atitude trará certamente às instituições internacionais garantes do direito humanitário. “Passaram quase seis meses desde que o Procurador do Tribunal Penal Internacional pediu um mandado de captura para Netanyahu, porém bastou ao TPI menos de um mês para emitir o mandado de captura de Vladimir Putin.”

Um impasse que suscita questões fundamentais. Conseguirá a Europa resistir? Será que os Estados Unidos e o sistema neoliberal, detentor de uma moeda que controla o mundo inteiro, se manterão? Poderá Israel, enquanto Estado racista e genocida, aguentar-se? “Acho que não. Houve na história muitos outros sistemas e impérios bárbaros que ruíram, não porque não sabiam calcular, mas porque eram desumanos.”

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Soha Bechara num comício de solidariedade com a Palestina.

Nas negociações à volta do conflito no Líbano, Israel procura separar o Líbano da questão palestiniana. Será que o Hezbollah vai ceder a toda esta pressão? “Francamente, acho que não,” diz a ativista libanesa. “O Hezbollah tinha a opção de não fazer nada, de deixar acontecer, de não dizer nada. Apesar disso, disse não ao genocídio em Gaza. Talvez porque eles sabiam que era apenas uma questão de tempo até os israelitas atacarem o Líbano para redesenhar a região à sua maneira.”

Para Soha Bechara a questão que se põe agora é se o Hezbollah vai manter o seu apoio à Palestina até que Israel pare o genocídio. “Até porque no terreno Israel não conseguiu, até agora, avançar, nem sequer estabelecer-se em segurança a 300 metros da linha azul,” remata.