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"Sobre Humanos e Outros Animais", de John Gray

Neste ensaio Soraia Simões de Andrade analisa o pensamento do filósofo britânico John Gray que ataca o humanismo filosófico, uma certa cosmovisão que tem incorporado ideologias religiosas extremistas do mundo moderno, a ciência e o avanço da tecnologia.
Sobre humanos e outros animais. John Gray.
Sobre humanos e outros animais. John Gray.

Somos os mais sofisticados predadores à face da terra, escreveu e disse-nos John Gray, filósofo britânico, político – foi apoiante de Margaret Thatcher, e professor da London School of Economics –, nas conferências e palestras em que participou. As linhas de sentido de Gray têm albergado várias áreas do pensamento, o autor tem recorrido a universos múltiplos para pesquisar o ser e a natureza, desde a metafísica oriental, a literatura, a física e a história das ideias políticas.

Em Thoughts on Humans and Other Animals [Sobre Humanos e Outros Animais, edição portuguesa de 2007, chancela Lua de Papel, grupo Leya], Gray é peremptório e devastador na sua crítica à crença no progresso e da superioridade humana sobre outras espécies, e, embora não o afirme, arrisco, ateu; para ele a vida de um humano tem tanto valor como a de uma formiga ou qualquer outro animal; e nada disto poderá ser interpretado como antiespecismo, nem consta que Gray seja vegano ou tenha no direito e na protecção animal as suas causas, a sua demanda é outra. Para John Gray a humanidade é uma ideia abstracta e os humanistas, aqueles que defendem a humanidade, incidem num mesmo solecismo ao afirmarem de modo impetuoso a humanidade que, segundo o filósofo, mais não é que um efeito produzido pelas suas evidências e preconceitos liberais. Ora, as humanidades, se pensarmos a título de exemplo no Médio Oriente, compreendem formas distintas de pensar o bem humano e a humanidade, diferentes, desde logo, das nossas, ainda que a teomitia liberal sustente que estas culturas se tornarão um dia liberais, uma manifesta soberba colonialista do Ocidente.

Neste ensaio, Gray ataca o humanismo filosófico, uma certa cosmovisão que tem incorporado ideologias religiosas extremistas do mundo moderno, a ciência e o avanço da tecnologia. Defende que o simples exercício de reflectir sobre o universo, seja ele um ou diversos, é libertador e apresenta questões relevantes sobre o caos e a ordem, as crenças e limitações.

Uma das principais críticas feitas a John Gray reside no facto de ele colocar os humanos no mesmo estatuto de um insecto; mas se os seres humanos não são animais são o quê? Se os animais são distintos entre si, se um tigre não tem exactamente o mesmo poder nem representa o mesmo para a maioria dos humanos que um mosquito, em que ficamos? Gray consegue ser muito irónico mesmo que não tenha intenções de o ser, desconheço se terá, e talvez isto seja o que mais tira do sério qualquer investigador optimista ou qualquer literato utópico. Assume um discurso tão claro como provocador, deixando de lado subterfúgios ou o calão científico, reconhece simplesmente que os seres humanos, à semelhança de todos os outros animais, são limitados por instintos, modelos comportamentais característicos da sua espécie, declarando que não nos é possível ultrapassar esses limites, ao contrário do que Nietzsche afirmava. Isto é, não é possível ao humano ultrapassar os seus instintos sexuais, a violência dos homens e a sua superioridade sobre as mulheres, o tribalismo, a fé, a dinâmica das organizações morais, entre outros.

Estaremos sempre limitados, em suma e, como tal, o nosso destino é incerto, incontrolável, indefinido, irá esbarrar naquilo que nos aproxima e nos afasta, no que nos caracteriza enquanto espécie.

É impossível esquecer, ao lê-lo, Margareth Thatcher, que, como sabemos, era uma maníaca da selecção natural, muito embora se tratasse de uma crença sem qualquer suporte científico, para explicar a evolução das espécies; e que foi essa mesma mundividência a principal influenciadora da perspectiva assumida por neoliberais nas relações humanas e na relação da humanidade com as outras espécies.

Para Gray é uma estranha fantasia supormos que a ciência poderá introduzir razão num mundo irracional como o nosso, se ‘’pensarmos bem’’ tudo aquilo que a ciência conseguirá fazer resume-se, a montante e a jusante: imprimir uma nova variante da loucura normal.

Só uma fé desmedida, irracional, no progresso se traduzirá num contraveneno para o niilismo. É impossível os seres humanos viverem sem ilusão, temos tanto de autómato como de razão, menciona parafraseando Blaise Pascal – que, como é sabido, baseou o seu argumento fideísta na ideia de que mesmo sem provas o mais razoável seria acreditar que Deus existe, seria a melhor aposta – e prossegue, por meio da veneração dos cientistas e do usufruto das da suas dádivas tecnológicas, talvez possamos atingir o que Pascal esperava conseguir por meio da oração, do incenso e da água-benta.

Até a ciência corresponde a duas exigências; a esperança e a censura, mas Gray vai mais longe, ao declarar que a ciência tem sido usada para corroborar a presunção de que a capacidade dos humanos entenderem o mundo difere de todos os outros animais, na medida em que o seu valor maior talvez seja o de mostrar que o mundo que os seres humanos estão programados para percepcionar é uma quimera.

Para o autor a procura da verdade é uma tentativa, por parte dos humanistas, de adquirirem liberdade, já que ao consolidarem tal ideia julgam-se mais sábios que aqueles que pensaram antes de si mesmos, quando, na realidade, dependem e cumprem um credo de uma religião antiga, a moderna fé é não mais do que uma relíquia de uma crença antiga.

Não creio que John Gray seja, como já li, um ludita nem um pós-moderno agressivo e pessimista, são posições que ele rejeita e estão perceptíveis no seu discurso quer escrito como verbal. Talvez o principal desconforto quanto às suas perspectivas do mundo moderno sobrevenha de um único factor, ele ser dos poucos pensadores modernos que expõe de um modo radical as suas dúvidas sobre um projecto liberal e as expressar de um modo claro e enxuto, sem, contudo, escapar à lógica de alguns dos silogismos que explora, como a ideia de progresso.

Outra das críticas, bastante rudimentares na minha opinião, que lhe são feitas é a de como alguém que rejeita o progresso tecnológico emite as suas ideias por via de um computador, como sabemos o progresso tecnológico é cumulativo ao contrário do progresso humano, não me parece que seja um bom argumento, portanto, para suscitar uma discussão intelectualmente interessante.

A minha discordância em relação ao ensaio de John Gray, não obstante reconhecer matéria pertinente e merecedora de um debate amplo — tendo em conta o momento exacto que vivemos marcado por uma pandemia que varreu para baixo de um tapete muito velho, por vezes a troco de um imaginário frágil e hipocondríaco, as nossas liberdades em troca daquilo que Ernst Jünger no ensaio On Pain apelidou de “uma sociedade baseada na eliminação do sofrimento’’ — reside exclusivamente no facto de John Gray, como vem sendo aliás comum a muitos cépticos que se categorizam como “racionais’’, não apresentar uma única solução, reservando-se ao direito que tem, e bem, num mundo democrático que muitas gerações de utópicos ajudaram a edificar, de afirmar que o humanismo liberal é uma só coisa e essa coisa, baseada no egocentrismo do ser humano, é que é a certa, o único raciocínio, ou caminho, viável, mas eu sou uma utópica, para o autor as utopias têm gerado a miséria, mortes em massa; a tese que aqui apresenta é panfletária e anti-humanista, essencialmente.

Para si o homem é um animal destruidor e desesperançado, é-o como qualquer outra praga animal.

Mas, vejamos, o cepticismo, na sua ânsia em detonar o entusiasmo da utopia, motor de algumas conquistas, como a propalada liberdade de expressão, outrora “simples’’ imaginários futuros ou fantasias de um mundo sem conflitos para um céptico, não será também ele, na sua rigidez e opacidade, uma forma de abstracção e de preconceito?

Acreditar que os humanos são fruto de uma natureza específica não é, e foi, tão transitório como acreditar que os humanos não podem variar com os tempos, os meios económicos, culturais, os movimentos sociais e artísticos, onde se inserem?

Reduzir a humanidade ou a utopia a uma ideia estanque de no future ou mera fantasia é tão radical como associar o cepticismo a uma ideia de razão pura e indiscutível.

Se pensarmos nos universos artísticos (na música, nas artes da escrita) a palavra utopia que teve a sua origem com a obra Utopia de Thomas More (1516), foi repetida nas obras de vários autores ao longo do século vinte e já no século vinte e um. Esta palavra, que genericamente designa qualquer estado, ou sociedade, propício a uma melhoria estrutural, comporta dois significados que se poderão, resumidamente, explicar do seguinte modo: o de promessa de uma sociedade mais adequada que contrastava com aquela em que os autores se inseriam, ou se inserem, e o de nos falar de um lugar inexistente, ou que só habita no pensamento dos autores. Assim, a utopia, surgindo como opositora a estruturas sociais existentes, poderia ser interpretada como um ataque à ideologia dominante como exprimiu Tom Moylan em 1986 em Demand the Impossible: Science-Fiction and the Utopian Imagination, ou uma expressão de esperança articulada por sujeitos minoritários, estando, portanto, associada à ideologia socialista. No entanto, e parece-me esta a linha de sentido duplo que melhor poderá traduzir a ligação visceral da palavra ao universo criativo de muitos autores e artistas, Moylan fez ainda a distinção entre utopia literária, que funcionava como reforço da ideologia dominante, e a utopia crítica, entendida como um espaço de neutralidade no qual a oposição poderia ser articulada e (re)vivida.

Resta-nos promover, como dizia um velho amigo que me introduziu a John Gray, a tolerância e esperar poder desfrutar de períodos de paz e tranquilidade. Isso e tentar desenvolver a nossa vida em contextos que lhe atribuam significados (a leitura, a família, a arte, a religião, as relações pessoais e afectivas), mas isso não é já, em si, uma aproximação à utopia? Para que a utopia renasça é preciso confiar no potencial humano, como escreveu Zygmunt Bauman.

A velhinha metáfora do caçador escolhida por Bauman, como símbolo da presença dos humanos, onde a principal tarefa era defender os terrenos da interferência humana, a fim de preservar o “equilíbrio natural”, reforçou uma ideia de repouso sobre a crença de que as coisas estariam no seu melhor momento; já no mundo moderno, a metáfora da humanidade escolhida pelo sociólogo foi a do jardineiro que não assumia a inexistência de uma ordem no mundo, mas a sua dependência da atenção e esforço frequentes de cada um.

Convoco a metáfora de Bauman porque acredito que são estes jardineiros, aqueles que semeiam sabendo que possivelmente não colherão já os frutos dessas mudanças mas as deixarão para outros usufruírem, os mais entusiastas produtores de utopias, é por isso que quando lemos narrativas que apregoam o fim das utopias e de uma ideia de humanidade ancorada no humanismo liberal como uma fé, apesar de baseado na razão, como faz Gray neste texto, o mais provável é que o jardineiro esteja a ser trocado, uma vez mais, como dizia Bauman, pela ideia do caçador.

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