A cantora irlandesa Sinéad O’Connor, que assumiu o nome Shuhada’ Sadaqat, faleceu esta quarta-feira. Nascida a 8 de dezembro de 1966 em Glenageary, um subúrbio de Dublin, a artista tinha tornado público na sua autobiografia que a sua infância fora difícil, sofrendo abusos físicos por parte da sua mãe que, segundo ela, também a encorajava a roubar. Isto levou-a, aos 14 anos, a ser detida durante 18 meses num centro correcional. Foi aí que descobriu a vocação da música.
Tornou-se cantora na banda Ton Ton Macoute e estudou música no Dublin College of Music. Em 1985, assinou contrato a solo com uma editora. E no ano a seguir lança Heroine, música co-escrita com The Edge, do U2, e que faz parte do filme Captive, sobre a vida de Patty Hearst. Em 1987, edita o seu primeiro álbum a solo, The Lion and the Cobra, que trazia na capa a imagem com que ficou conhecida, a cabeça rapada, e que foi nomeado para os prémios Grammy,
Pouco depois segue-se a fama mundial através da canção de Prince Nothing Compares 2 U, incluída no disco I Do not Want What I Haven’t Got de 1990.
E esta fama que granjeou utilizou-a para defender as causas que acreditava, como a defesa dos direitos humanos, o feminismo, o anti-racismo e a luta contra os maus-tratos infantis. Assumia-se como “cantora de protesto” e não teve medo das polémicas. Ainda antes da celebridade, defendeu a causa da unificação da Irlanda e anos mais tarde, no final de 2014, filiar-se-á no Sinn Féin.
No auge da fama, em 1992, foi ao programa de televisão norte-americano Saturday Night Live rasgar uma fotografia do papa João Paulo II como forma de denúncia dos abusos sexuais cometidos no interior da Igreja Católica, décadas antes do tema se tornar mediático. O ato gerará uma onda de condenações e de insultos. O mesmo aconteceu quando se recusou a cantar no Garden State Arts Center de Nova Jersey até que a instituição que o geria concordasse em não tocar o hino norte-americano antes do espetáculo como costumava fazer, gerando uma troca pública de galhardetes com Frank Sinatra que lhe chamou “uma tipa estúpida” e ameaçou “dar-lhe um pontapé no rabo”.
Em vez de se contentar com explorar a fama obtida, fazendo mais do mesmo musicalmente, explorou outros caminhos e, nesse ano, lança um álbum de covers de jazz, Am I Not Your Girl? e, em 1994, Universal Mother, disco que abre com um excerto de uma declaração feminista da escritora Germaine Greer, que inclui uma canção sobre a fome na Irlanda no século XIX e em que denuncia, na canção Fire on Babylon, os abusos de que fora alvo na infância. Dos seus dez álbuns gravados em estúdio, muitos assumem facetas experimentais e mostram-se além da lógica comercial.
A religiosidade é outra das facetas da autora. Em 1999, será ordenada padre através de uma dissidência da Igreja Católica e adota o nome de madre Bernadette Marie. Em 2018, converte-se ao Islão e passa a usar o nome Shuhada’ Sadaqat.
Sinéad O’Connor revelou no início dos ano 2000 que sofria de fibromialgia, doença que a levou a afastar-se dos palcos durante dois anos. Também não escondeu os seus problemas de saúde mental. Nas redes sociais, várias vezes se expôs sobre isso. Assim como foi expondo muitos outros aspetos da sua vida privada ou disputas pessoais e críticas a outros artistas.
Pouco antes de falecer, a tragédia tinha-lhe batido à porta. Em 2021, um dos seus filhos, Shane, suicidou-se.