“Estamos a ocupar dois hotéis da Blackstone simultaneamente!” Assim comunicavam os sindicatos de inquilinos de Madrid e de Barcelona a realização de uma ação paralela nas duas cidades a meio da tarde desta quinta-feira. Os alvos foram o Axel Hotel Madrid, na rua Atocha, em Madrid, e o Ramblas Vincci, situado num dos bairros mais gentrificados de Barcelona. Ambos os edifícios são propriedade da Blackstone, o maior proprietário de habitações e hotéis de Espanha, e o fundo de investimento com mais denúncias por práticas abusivas, subidas de preço e diversas táticas de assédio imobiliário. Também é a gestora escolhida pela empresa nacionalizada Sareb – junto com o fundo de investimento KKR – para gerir o seu património.
Dentro e fora dos dois hotéis, centenas de ativistas dos sindicatos e de outros coletivos de defesa do direito à habitação como a Plataforma dos Afetados pelas Hipotecas e assembleias de bairro, colaram autocolantes e cartazes, bailaram e gritaram para exigir que a Blackstone se sente a negociar para evitar a “expulsão de várias famílias das suas casas”, exigir a renovação dos contratos sem aumentos abusivos de rendas e a implementação de rendas sociais para as famílias vulneráveis.
Para além de defender as famílias em perigo de expulsão, estes coletivos pretendiam visibilizar os problemas que derivam da turistificação e gentrificação, fenómenos interligados de que sofrem tanto Madrid como Barcelona, segundo denunciam em comunicado. Um fenómeno que se traduziu num “milhão de despejos” na última década nas duas localidades. “Desalojar famílias ao impor-lhes aumentos abusivos incomportáveis, expandir a presença de casas de apostas nos bairros de trabalhadores para potenciar a ludopatia e investir em hotéis que defendem um modelo de turistificação selvagem ligados à gentrificação não são factos isolados mas um modelo estratégico de negócio que coloca as vantagens de um fundo abutre estrangeiro acima das necessidades das famílias afetadas”, assinalam estas organizações.
Em Madrid, a ocupação do hotel Axel foi protagonizada por famílias de Alcorcón, Aranjuez, Carabanchel, Torrejón de Ardoz e Vallecas, organizadas no Sindicato de Inquilinas de Madrid, na PAH ou no Sindicato de Vivienda de Carabanchel. O objetivo era apenas fazer com que o fundo de investimento se sentasse numa negociação coletiva como já foi conseguido em 2021. Nessa altura, negociou-se com a Blackstone rendas estáveis para mais de 200 pessoas sem rendas abusivas durante sete anos.
Entre as famílias afetadas estão Antonio e Mari, de 84 e 80 anos, que vivem há 22 anos na mesma casa que agora estão em risco de perder. Trata-se de uma casa de renda pública que passou para as mãos da Blackstone quando perdeu a proteção. Agora, o fundo pretende aumentar em 40% a renda, “mais um caso neste bloco”, denuncia o sindicato. Os rendimentos do casal e dos seus filhos não permitem fazer face a este aumento. A 30 de junho acabou o seu contrato mas não se foram embora, juntaram à estratégia do Sindicato de Inquilinas e dos seus “blocos em luta”: permanecer na casa fora do contrato, depositar a renda em tribunal e “lutar para que o fundo aceite uma negociação coletiva”.
Contudo, a Blackstone recusa negociar, contam, e tal como no caso de outras dezenas de famílias dá-lhes a escolha de aceitar a nova renda ou um despejo. Depois da pressão, o fundo acabou por aceitar dar a Antonio e Mari mais um ano de margem para sair da casa mas estes negam uma solução individual: “Sem os meus vizinhos e vizinhas não vou aceitar nada, não conseguia viver tranquilo na minha casa sabendo que vocês (os seus vizinhos) ainda estão a passar mal”, dizia Antonio.
O novo conflito com a Blackstone tornou-se público a 3 de maio e agora afeta centenas de famílias, 80 delas organizadas no Sindicato de Inquilinas e com novos “blocos em luta” em Vallecas, Alcorcón, Aranjuez, Carabanchel e Hortaleza, todos eles integrados na campanha #NosQuedamos, que consiste em ficar nas habitações e não aceitar o aumento de renda imposto.
Em Barcelona, a ocupação do hotel Ramblas Vincci foi coordenada pelo Sindicat de Llogaters de Catalunya, a PAH e o Raval Rebel, um coletivo de bairro contra a especulação da Blackstone. Segundo denunciavam estas organizações, mais de 2.000 famílias podiam perder as suas habitações devido à recusa da Blackstone de renovar os seus contratos.
Texto publicado originalmente no El Salto.