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Simone de Beauvoir, capitalismo e emancipação da velhice

A ansiedade do início da vida social encontra a sua possível correspondência na angústia do fim da vida social. Simone de Beauvoir apela aos idosos para que se juntem à luta desta juventude rebelde e trabalhem em conjunto para desafiar o sistema. Pois "a reivindicação só pode ser radical: mudar a vida". Por Alexandre Féron.
Simone de Beauvoir. Foto: Wikimedia Commons.
Simone de Beauvoir. Foto: Wikimedia Commons.

Por ocasião da publicação pelas Éditions Sociales do livro Découvrir Beauvoir, escrito por Alexandre Feron, publicamos um extrato deste: um comentário sobre uma passagem retirada da obra – muito pouco conhecida – que Simone de Beauvoir escreveu sobre a velhice, sobre como é tratada pelo capitalismo e sobre as possibilidades de a emancipar.


Texto de Simone de Beauvoir

"A velhice não é uma conclusão necessária da existência humana. […] Um grande número de animais – como os efemerópteros1 – morre após ter-se reproduzido, sem passar por uma fase degenerativa. No entanto, é uma verdade empírica e universal que, após um certo número de anos, o organismo humano sofre uma involução. O processo é inevitável. Após um certo período, leva a uma redução das atividades do indivíduo; muito frequentemente, a uma redução das faculdades mentais e a uma mudança na sua atitude para com o mundo. [...]

Para que a velhice não seja uma paródia insignificante da nossa existência, só há uma solução, que é continuar a prosseguir fins que dão sentido às nossas vidas: dedicação aos indivíduos, às comunidades, a causas, o trabalho social ou político, intelectual, criativo. Ao contrário do que os moralistas aconselham, devemos desejar manter as nossas paixões suficientemente fortes na velhice para evitar fecharmo-nos sobre nós próprios. A vida permanece valiosa enquanto valorizarmos a vida dos outros, através do amor, amizade, indignação e compaixão. Assim, continuam a existir razões para agir ou para se manifestar. As pessoas são frequentemente aconselhadas a 'prepararem-se' para a sua velhice. Mas se for apenas uma questão de pôr dinheiro de lado, escolher um lugar para se reformar e arranjar passatempos não se terá ganho muito quando o momento chegar. É melhor não pensar demasiado nisso, e viver uma vida suficientemente empenhada, suficientemente justificada, para que se possa continuar a aderir a ela, mesmo quando se tiver perdido as ilusões e o ardor vital tiver arrefecido.

Mas estas possibilidades são concedidas apenas a um punhado de pessoas privilegiadas: é na última fase da vida que o fosso é maior entre estas e a imensa maioria dos homens. Comparando-os, podemos responder à questão colocada no início deste livro: O que existe de inevitável no declínio dos indivíduos? Em que medida é a sociedade responsável por isso?

[...] A velhice denuncia o fracasso de toda a nossa civilização. Se queremos que a condição de idoso seja aceitável é necessário refazer completamente a humanidade, recriar todas as relações entre pessoas. Uma pessoa não deve aproximar-se do fim da sua vida de mãos vazias e solitárias. Se a cultura não fosse um conhecimento inerte, adquirido de uma vez por todas e depois esquecido, se fosse um elemento vivo e prático, se através dela o indivíduo tivesse um domínio sobre o seu ambiente que seria realizado e renovado ao longo dos anos, em qualquer idade ele seria um cidadão ativo e útil. Se não fosse atomizado desde a infância, fechado e isolado entre outros átomos, se participasse numa vida coletiva, tão quotidiana e essencial como a sua própria vida, um indivíduo nunca conheceria o exílio. Em nenhum lugar, em nenhum momento, tais condições foram alcançadas. Mesmo os países socialistas, se se aproximaram um pouco mais do que os países capitalistas, continuam muito longe disso.

Na sociedade ideal que acabo de referir é possível sonhar que a velhice por assim dizer não existiria. Como acontece em certos casos privilegiados, o indivíduo, secretamente enfraquecido pela idade, mas não aparentemente diminuído, seria um dia afligido por uma doença a que não seria capaz de resistir; morreria sem ter sofrido qualquer degradação. A velhice estaria realmente em conformidade com a definição dada por alguns ideólogos burgueses: um momento de existência diferente da juventude e da maturidade, mas possuindo o seu próprio equilíbrio e deixando aberto ao indivíduo um vasto leque de possibilidades.

Estamos longe disso. A sociedade só se preocupa com o indivíduo na medida em que este ganha dinheiro. Os jovens sabem isto. A sua ansiedade quando entram na vida social é simétrica à ansiedade dos velhos quando são excluídos. Entretanto, a rotina mascara os problemas. O jovem teme esta máquina que o vai engolir e por vezes tenta defender-se com pedras de calçada; o velho, rejeitado por ela, exausto, nu, só tem os olhos para chorar. Entre os dois, a máquina gira, esmagando homens que se deixam esmagar porque nem sequer se imaginam capazes de escapar. Quando compreendemos a condição dos idosos, não podemos simplesmente exigir uma "política de velhice" mais generosa, pensões mais elevadas, habitação saudável, lazer organizado. É todo o sistema que está em jogo e a procura só pode ser radical: mudar a vida.

Simone de Beauvoir, La Vieillesse (1970), Gallimard, Paris, 2020, Conclusion, p. 755-761.

Comentário

Este extrato é retirado da conclusão do livro A Velhice que constitui, após a obra O Segundo Sexo, a segunda grande obra teórica de Simone de Beauvoir. Também aqui, no livro sobre a velhice, o objetivo é estudar uma categoria de seres humanos que são socialmente marginalizados nas sociedades modernas e que experimentam uma forma específica de alienação. Para este fim, Simone de Beauvoir mobilizou um método de investigação bastante semelhante ao utilizado no seu trabalho sobre a condição das mulheres: baseando-se num extenso levantamento de tudo o que foi escrito sobre o assunto, bem como na sua própria experiência (Beauvoir tinha 62 anos na altura da publicação do livro) e na dos que lhe eram próximos, procura proporcionar ao leitor uma visão abrangente da condição particular da velhice, progredindo do "ponto de vista da exterioridade" (Parte I) para o ponto de vista da "experiência vivida", ou seja, o do "ser-no-mundo"2 dos idosos (Parte II). O seu quadro teórico existencialista é uma continuação de O Segundo Sexo, mas agora incorporando muito mais a preocupação marxista de analisar as condições económicas e sociais em que os indivíduos evoluem.

Ao escrever este livro, Simone de Beauvoir assumiu como objetivo "quebrar a conspiração do silêncio" (p. 8) sobre a condição das pessoas idosas, contribuindo assim para uma consciência generalizada da atitude "não só culpada, mas criminosa" da sociedade em relação a esta categoria de indivíduos. Na sequência, Beauvoir poderá então desenhar algumas perspetivas sobre a forma de transformar esta situação.

Será a situação degradante na qual está colocada a maioria dos idosos apenas uma questão específica, ou individual, que pode ser resolvida sem pôr em causa a organização geral da sociedade? Ou será que esta situação condensa o destino geral dos seres humanos nesta sociedade – de tal modo que para resolver o problema da velhice é necessário transformar a sociedade como um todo?

A velhice como um fenómeno biológico e existencial

Desde o início de A Velhice, Simone de Beauvoir afirma, referindo-se novamente implicitamente à conceção maussiana do "homem total"[1], que "a velhice só pode ser entendida na sua totalidade" (p. 23), ou seja, como um fenómeno simultaneamente biológico, existencial e social – sendo a dificuldade compreender a "estreita interdependência" (p. 17) destas diferentes dimensões.

De facto, como ela recorda, o envelhecimento é em primeiro lugar um processo fisiológico de "involução" que afeta o organismo humano, o qual, a partir de um certo estado de maturidade, perde progressivamente a sua capacidade (tanto física como intelectual) de agir no mundo, até ao ponto em que deixa de ser capaz de se manter vivo[2]. No entanto a velhice humana não é reduzível apenas a esta dimensão biológica e deve também ser entendida como um fenómeno psicológico ou existencial. A partir de um certo ponto da sua existência, o indivíduo descobre-se como "velho", uma consciência que afeta todas as dimensões da sua existência[3] (relação com o seu corpo, sexualidade, atividades, projetos, relação com o passado e o futuro, etc.), e que leva a uma profunda transformação da sua relação com o mundo, ou da sua forma de "ser-no-mundo" (um conceito que Simone de Beauvoir vai buscar a Heidegger e que constitui o título da segunda parte do livro). A dimensão existencial da velhice refere-se à forma como o indivíduo assume a sua involução biológica, ou seja, como se situa em relação a ela e lhe dá significado. A consciência da idade pode levar, por exemplo, seja a um frenesim em que o indivíduo procura aproveitar ao máximo o tempo que lhe resta, seja a uma apatia ou um estado depressivo em que sente que nada do que faz tem qualquer significado tendo em vista a iminência da morte.

Ora, para Simone Beauvoir, o fator decisivo para viver uma velhice feliz é não desistir do que está no cerne da existência humana: projetar-se no futuro e agir no mundo. De facto, ao verem o seu futuro como subitamente encurtado, o maior risco psicológico para os idosos é que se afundem na indiferença face ao mundo e aos outros: desistindo "de prosseguir objetivos que dão sentido às nossas vidas", já não têm "razões para agir ou para falar". A velhice não deve, portanto, ser um momento de rutura com as atividades da idade adulta: é apenas na medida em que ainda se sente "paixões fortes", em que ainda se continua a dedicar "a indivíduos, comunidades, causas", se continua a desenvolver "trabalho social ou político, intelectual, criativo", que os últimos anos da vida podem ter sentido. É por isso que o destino de um indivíduo na velhice é, segundo Simone de Beauvoir, uma consequência direta do tipo de existência que levou. Se tiver levado uma existência sem paixões, sem compromissos, sem projetos reais, a sua vida na velhice será ainda mais pobre. Assim, de certa forma, é preciso "preparar" a velhice, não apenas no sentido restrito de se proporcionar as condições materiais para uma reforma pacífica, mas sobretudo levando uma " uma vida suficientemente empenhada, suficientemente justificada, para que se possa continuar a aderir a ela, mesmo quando se tiver perdido as ilusões e o ardor vital tiver arrefecido".

A velhice como condição social

No entanto, esta análise existencial continua a ser insuficiente na medida em que faz da velhice um fenómeno que depende inteiramente da responsabilidade individual, das escolhas que o indivíduo fez durante a sua vida e da forma como dá sentido à sua involução fisiológica. Ora, a forma como a velhice é vivida depende em grande parte da situação social do indivíduo. Referindo-se em particular às suas análises no Capítulo 4 da Parte I ("Velhice na Sociedade de Hoje", pp. 306-393), Simone de Beauvoir recorda que "a idade em que começa o declínio senil sempre dependeu da classe a que se pertence. Atualmente, um mineiro é um homem acabado aos 50 anos, enquanto muitos dos privilegiados são felizes aos 80 anos" (p. 758). A desigualdade dos indivíduos na velhice não se deve apenas às possibilidades concretas que têm na reforma, mas sobretudo às consequências do estilo de vida que tiveram de levar durante as suas vidas. Forçados a vender a sua força de trabalho para se sustentarem, obrigados a realizar tarefas repetitivas e alienantes que não encorajam a criatividade e o enriquecimento pessoal, e constantemente ocupados com as preocupações da vida quotidiana, os trabalhadores não têm tempo livre para "se prepararem" para a sua reforma. Como resultado, segundo Simone de Beauvoir, a reforma é vivida de uma forma especialmente brutal: de repente o reformado "não vê nada à sua volta senão um deserto"; é porque chega à velhice "de mãos vazias" que "o declínio senil começa prematuramente, que é rápido, fisicamente doloroso, moralmente terrível", e que "os indivíduos explorados, alienados, quando a sua força os deixa, tornam-se inevitavelmente 'rejeitados', 'desperdiçados'". (p. 759). Em suma, como afirma Simone de Beauvoir no preâmbulo do livro: "no decurso da história como atualmente, a luta de classes comanda a forma como um homem é capturado pela sua velhice" (p. 19).

Revolucionar a velhice e sair do capitalismo

Como resultado desta análise, o problema da velhice não é, para Simone de Beauvoir, uma questão particular que possa ser resolvida através de uma "política de velhice" diferente. Colocar o problema da velhice é questionar uma forma de organização da sociedade humana, que obriga os indivíduos a trabalharem toda a sua vida apenas para se manterem vivos. Para a autora, "pelo destino que atribui aos seus membros inativos, a sociedade desmascara-se; tratou-os sempre como instrumentos" (p. 760). A incapacidade da nossa sociedade de tratar humanamente os idosos é um sintoma do "fracasso de toda a nossa civilização", nomeadamente uma civilização estruturada pelo modo de produção capitalista.

Partindo do problema aparentemente específico da condição dos idosos, Simone de Beauvoir apela assim a uma transformação do modo de organização social da humanidade e a uma superação do modo de produção capitalista. "Se queremos que a condição de idoso seja aceitável é necessário refazer completamente a humanidade, recriar todas as relações entre pessoas”. Nesta "sociedade ideal" pós-capitalista, a própria velhice de certo modo "deixaria de existir". Não porque este ou aquele progresso técnico ou médico teria permitido à humanidade ultrapassar a sua condição biológica e a fatalidade da sua involução, mas porque já não seria sinónimo de um estatuto social específico que diminuiria as possibilidades de ação do indivíduo. O indivíduo idoso já não seria condenado a viver os seus últimos anos como uma existência puramente honorária à espera da morte, mas teria perante ele um "vasto leque de possibilidades" que poderia continuar a prosseguir até que a morte o atingisse.

A fim de realizar esta "sociedade ideal", Simone de Beauvoir sugere, no último parágrafo do livro, a possibilidade de uma forma de aliança revolucionária entre os jovens e os idosos. No espírito de algumas das análises revolucionárias que surgiram em maio de 68 (por exemplo, as de Marcuse), Beauvoir parece considerar que já não é entre os trabalhadores adultos que devemos procurar o sujeito revolucionário. Inteiramente absorvidos pela sua atividade profissional e pela rotina diária que "esconde deles os problemas fundamentais" da sociedade, os trabalhadores "deixam-se esmagar porque nem sequer se podem imaginar a escapar-lhes". Os "jovens" e os "velhos" ainda estão fora da sociedade capitalista. Se os jovens ainda não foram "apanhados" no sistema capitalista, os velhos já não fazem parte dele. A "ansiedade" do início da vida social encontra a sua possível correspondência na "angústia" do fim da vida social. Simone de Beauvoir apela assim aos idosos para que se juntem à luta desta juventude rebelde e trabalhem em conjunto para desafiar o sistema e fazer acontecer. Pois "a reivindicação só pode ser radical: mudar a vida".


Extrato do livro Découvrir Beauvoir, (2021), Paris, Éditions sociales, da autoria de Alexandre Feron, publicado na revista Contretemps.

Alexandre Féron é investigador de Filosofia na Universidade de Liège. Para além do livro Découvir Beauvoir, escreveu vários outros nomeadamente Le Moment marxiste de la phénoménologie française.

Traduzido por Paulo Antunes Ferreira para o Esquerda.net.


Outros textos de Simone de Beauvoir

La Vieillesse (1970), Gallimard, Paris, 2020, Introdução, pp. 7-15; Preâmbulo, pp. 17-23. (Edição brasileira: A velhice (1970), Difusão Europeia do Livro, São Paulo).

Textos preliminares que dão uma boa perspetiva do conjunto do projeto de Simone de Beauvoir.

La Vieillesse, Partie II, chap. 5 “Découverte et assomption de la vieillesse. Expérience vécue du corps”, p. 399-509; chap. 6 “Temps, activité, histoire”, p. 510-629. (Edição brasileira: A velhice (1970), Difusão Europeia do Livro, São Paulo).

Estes dois capítulos da segunda parte tentam dar conta da especificidade da experiência vivida na velhice.

Tout compte fait, Gallimard, Paris, 1972, chap. 1, p. 57-62; chap. 2, p. 183-187. (Edição portuguesa: Balanço final (1982), Bertrand, Lisboa).

Na primeira passagem do quarto volume das memórias, Beauvoir descreve a sua relação com o tempo e a velhice; na segunda, regressa à génese de La Vieillesse.

La Force des choses (1963), Gallimard, Paris, 2001, Épilogue, p. 489-508. (Edição portuguesa: A força das coisas, (1978), Bertrand, Amadora).

Fazendo um balanço da sua vida no limiar da velhice, Beauvoir observa paradoxalmente que, simultaneamente, as promessas da juventude foram cumpridas e que ela "foi enganada" - uma frase que provocou muitas reações e que está na origem da escrita do livro La Vieillesse.

Notas

[1] Ver texto n°10.

[2] Esta dimensão é estudada em particular no primeiro capítulo do livro (Parte I, cap. 1 'Velhice e biologia', pp. 27-56).

[3] Sobre a análise desta tomada de consciência, ver La Vieillesse, Parte II, cap. 5 "Découverte et assomption de la vieillesse. Expérience vécue du corps", pp. 399-509.

1 Nota do Tradutor: “Ordem de insetos artrópodes, de corpo mole e alongado, até 4 centímetros, cujos adultos, de asas com nervuras, vivem poucas horas, não se alimentam e dedicam-se apenas à reprodução e à postura dos ovos”. https://dicionario.priberam.org/efemer%C3%B3ptero

2 Nota do Tradutor: “Ser-no-mundo” é uma expressão utilizada por Heidegger, no âmbito da sua filosofia existencialista, para significar um ser vivo que descobre o mundo, considerando o ser humano não como um mero organismo natural, neutro e separado do mundo, mas como um ser que habita e convive no (e com o) mundo. Nesta perspetiva, o ser humano não é uma consciência separada do mundo, mas constitui-se na sua relação com o mundo: habita num período histórico e num espaço geográfico, onde convive com pessoas, objetos e relações, com a linguagem e a cultura; é modificado pelas (e modifica as) condições e circunstâncias do mundo que habita. https://www.ex-isto.com/2017/07/ser-no-mundo.html 

Termos relacionados Cultura
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