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Sim, o poder corrompe. Por isso os socialistas querem democratizar a sociedade

Alguns dizem que o socialismo não funcionaria porque a natureza humana é egoísta e/ou porque o poder corrompe. Contudo, estes argumentos não contrariam, a necessidade do socialismo. Antes pelo contrário. São razões para procurarmos democratizar todas as esferas da sociedade. Por Ben Burgis.
  Daniel Celentano, Festival, 1934. (Smithsonian American Art Museum)
Daniel Celentano, Festival, 1934. (Smithsonian American Art Museum)

Recentemente, debati com o YouTuber canadiano de extrema-direita (e auto-descrito como “libertário”) Stefan Molyneux. Embora Molyneux mantenha algumas posições distintamente não-“libertárias” sobre Donald Trump e restrições à imigração, e tenha passado a maior parte do debate tentando escapar dessa óbvia contradição, apresentou todos os argumentos padrão contra o socialismo usados pelos “libertários”.

Um deles tem a ver com o efeito corruptor do poder político. Na sua declaração de abertura, Molyneux argumentou que:

“Os seres humanos não são capazes, de maneira nenhuma, de dar forma ou de lidar com o poder. O poder é muito mau para nós. Sabe, quando eu era criança, às vezes tínhamos que fazer gambiarras com moedas na caixa de fusíveis […] e havia um grande risco de incêndio e assim por diante, mas […] os seres humanos não conseguem lidar com as grandes tensões do poder político, assim como as moedas da minha infância não conseguiam lidar com a energia elétrica – elas normalmente derretiam, quase que chegavam a pingar. Os seres humanos são dominados por completo, ficam rebentados, corrompidos pelo poder.

Eu concordo inteiramente. No entanto, como indiquei na minha resposta, as preocupações de Molyneux não nos dão nenhuma razão para nos opor ao socialismo, e sim um motivo poderoso para apoiá-lo.

O argumento da natureza humana

Pode ser útil começar com um argumento relacionado: a natureza humana, dizem-nos muitas vezes, seria egoísta e cruel. Tentar forçar os humanos a um modo cooperativo e altruísta seria perigosamente utópico – como tentar transformar tigres em vegetarianos. Alguns socialistas recuam dizendo que a natureza humana é cooperativa e altruísta ou que os humanos simplesmente não possuem uma natureza fixa.

Determinar qual dessas três posições é a certa é uma questão complicada e confusa. David Hume diz no seu ensaio sobre o céu e o inferno que a maioria de nós “flutua entre o vício e a virtude”. Isto provavelmente é o mais próximo de uma boa resposta a que podemos chegar sem fazer um mergulho profundo na psicologia empírica, na antropologia, na sociologia e até mesmo na biologia evolutiva. Como já discuti noutro lugar, no entanto, não precisamos de nos comprometer com nenhuma resposta específica a estas perguntas para ver que o argumento anti-socialista sobre a natureza humana não é convincente.

Porquê? Porque se estivermos preocupados sobre os seres humanos agirem com crueldade ou egoísmo indevidos, temos de projetar uma ordem económica que não incentive e nem recompense esses impulsos. Isso não tem nada a ver com um impulso utópico para eliminar as características negativas da psicologia humana. Os socialistas não estão interessados em tentar mudar os corações – estamos interessados em mudar as instituições políticas e económicas. Acreditar que algumas pessoas terão sempre um impulso de guiar muito rápido não é uma razão para não termos limites de velocidade.

O poder económico corrompe

A mesma resposta básica se aplica ao argumento de Molyneux sobre como as tentações do poder político podem atropelar as nossas inibições sobre o abuso desse poder. A melhor versão do argumento do “poder corrompe” contra o socialismo pode ser enunciada mais ou menos assim:

Premissa um: No socialismo, todo o poder político e económico estará concentrado nas mãos dos burocratas do governo.

Premissa dois: se os burocratas receberem um poder enorme, vão abusar dele.

Premissa três: Qualquer forma de organização social que previsivelmente leve a tais abusos de poder é inaceitável.

Conclusão: o socialismo é inaceitável.

Horrores como as purgas de Estaline e o Grande Salto em Frente de Mao demonstram vividamente a verdade da Premissa Dois. É por isso que os socialistas democráticos pensam que precisamos limitar o poder dos burocratas do governo através de instituições políticas democráticas e restrições constitucionais para proteger direitos importantes como a liberdade de expressão.

Mas se for usado como um argumento contra o socialismo em geral, incluindo o tipo de sociedade que os socialistas democráticos defendem, então todo ele colapsa. Não queremos entregar o poder a uma nova classe dominante de burocratas estatais. Como já escrevi antes, queremos expandir a democracia para o domínio económico.

Uma das principais motivações para a política socialista democrática é o reconhecimento de que a Premissa Dois é igualmente verdadeira se trocarmos “burocratas” por “capitalistas”. Concentrar o poder económico nas mãos de indivíduos ricos e empresas capitalistas gera horrores que vão desde o tratamento predatório de Harvey Weinstein às atrizes até ao trabalho extenuante nos armazéns de Jeff Bezos.

Sindicatos e um Estado regulador podem conter parte dessa pilhagem, mas as concentrações de poder económico sempre encontram uma maneira de acumular poder político. Os interesses empresariais capturam as agências reguladoras e enfraquecem-nas, cooptam mesmo esmagam mesmo a mão de obra organizada.

Na verdade, os socialistas democráticos é que são os realistas: pensamos que a melhor garantia contra seres humanos falíveis que podem abusar do seu poder sobre os outros é distribuir o poder de forma justa entre os indivíduos. E como achamos que não se pode confiar em ninguém com o tipo de poder que um CEO corporativo possui sobre os trabalhadores comuns, lutamos para empoderar os muitos e abolir os privilégios dos poucos.


Ben Burgis é professor de filosofia e autor do podcast “Give Them An Argument: Logic for the Left”. É autor de vários livros, o mais recente dos quais é “Christopher Hitchens: What He Got Right, How He Went Wrong, and Why He Still Matters”.

Traduzido por Everton Lourenço para a Jacobin Brasil a partir do original publicado na Jacobin. Editado para português de Portugal pelo Esquerda.net.

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